Cromos do Mundial

Suíça: Johan Vonlanthen chegou a ser o mais jovem de sempre a marcar num Europeu, até a religião o travar

Johan Vonlanthen deixou sete golos na seleção da Suíça em 40 jogos
Johan Vonlanthen deixou sete golos na seleção da Suíça em 40 jogos

No Euro 2004, o avançado, considerado então uma das maiores esperanças do futebol suíço, marcou o golo que o colocou na história. Mas nas duas décadas que demorou a cair esse recorde a vida de Johan Vonlanthen deu muitas voltas: houve lesões, uma entrega a Deus, duas retiradas. E um talento que ficou por confirmar. Vonlanthen é o décimo sexto dos 48 Cromos do Mundial, série que destaca um futebolista excêntrico, ou quase, de cada país que jogará na edição de 2026

O lance é uma beleza: ainda no meio-campo da Suíça, o médio Gygax ganha uma bola mal lançada por Silvestre, Hakan Yakin deixa-a passar por entre as pernas e esta segue para a caminhada de Ricardo Cabanas, que assiste, com classe, o ponta de lança helvético dessa tarde em Coimbra. O seu nome era Johan Vonlanthen, cumpria apenas a sua terceira internacionalização nesse encontro do Euro 2004 e tornava-se, naquele momento, com um remate cruzado que passou pelo lado direito de Fabien Barthez, no mais jovem marcador de sempre num Campeonato da Europa, com apenas 18 anos e 141 dias.

O recorde do avançado suíço nascido no norte da Colômbia, em Santa Marta, terra de Valderrama e Falcao, e que deu os primeiros toques na bola nas praias do Parque Natural de Tayrona, durou 20 anos, batido apenas por Lamine Yamal no Euro 2024. Nessas duas épocas, a vida de Johan Vonlanthen deu muitas voltas. Acabou a carreira duas vezes, teve lesões graves. Entregou-se a Deus. E nunca confirmou as expetativas que rebentaram depois do golo frente a França.

Vonlanthen tinha já 13 anos quando se mudou para a Suíça, terra natal do padrasto, que conheceu a mãe de Johan numa viagem à Colômbia. O miúdo já jogava em clubes locais, onde até começou por ser guarda-redes, e acreditou que o sonho de ser futebolista morreria com a travessia do Atlântico. Mas o caminho dá-lhe logo sinais de que dele podia fugir o sol do norte da Colômbia, os pratos de arepas e as mangas, mas não a bola.

No dia da viagem para a Suíça, perde o avião em Bogotá. A família aloja-se num hotel e no elevador o adolescente Johan encontra Iván Córdoba, defesa da seleção colombiana, que lhe pisca o olho. Quando chega ao hall, estavam todos os maiores craques do país daqueles dias - o mais importante de todos, Carlos Valderrama, conterrâneo, o seu herói.

E o futebol continuava à espera de Johan na fria Suíça. Teve as suas dificuldades com a língua (hoje fala sete idiomas, incluindo o português) e com o clima, mas três anos depois já se estreava como sénior pelo Young Boys, marcando logo no primeiro jogo na liga suíça. Apareceu uma proposta do Real Madrid, mas preferiu transferir-se para o PSV, onde seria mais fácil ter minutos. As coisas começaram por correr bem nos Países Baixos, Vonlanthen chegou ao Euro 2004 com a marca de maior promessa do futebol suíço, mas o golo de Coimbra tornou-se rapidamente apenas um feito e não no início de algo glorioso.

Vonlanthen entre companheiros de seleção, no banco da Suíça
Soccrates Images

Jogava futebol, menos ao sábado

As lesões começaram a ser uma constante - falhou os Mundiais de 2006 e 2010 por causa delas -, nos clubes demorava a impor-se. Foi por essa altura, disse ao jornal colombiano “El Espectador”, que começou a ler a Bíblia.

A religião rapidamente tomou um papel primordial na vida de Vonlanthen, que se juntou à Igreja Adventista do Sétimo Dia. Sábado era dia sagrado, o que colidia ferozmente com a sua carreira de futebolista. O avançado começou a fazer cara feia a jogar ao sábado e o Zurique, que o tinha pedido emprestado ao Red Bull Salzburgo, recambiou-o de volta para a Áustria, apesar de estar a fazer uma das melhores épocas da carreira.

Mesmo admitindo que a religião estava a travar o seu percurso no futebol, Vonlanthen manteve-se firme nas suas convicções. Pouco depois, sem contrato, teve propostas de muitos cantos da Europa, mas preferiu regressar a casa, ao modesto Itagüi. Que, supostamente, havia acordado dar-lhe folga ao sábado. Só que não. Durou pouco a boa vontade com as crenças do jogador.

Tudo isto e mais uma lesão grave no joelho precipitaram um primeiro final de carreira aos 26 anos, em 2012. Um ano depois, deixou de lado a visão estrita dos ditames da religião e voltou a jogar nos campeonatos suíços. Primeiro no Grasshoppers, depois no Schaffhausen, Servette e, por fim, no Wil. Já sem as esperanças ou expetativas de outros tempos, desse verão de sonho em Portugal. Em 2018 chegou o segundo adeus, agora em definitivo.

Em retrospetiva, depois de abandonar os relvados aos 32 anos, Vonlanthen assumiu que a sua carreira poderia “ter sido melhor”. Faltou-lhe, disse então, “o ambiente perfeito”. Ainda assim, mostrou-se “agradecido” por tudo o que o futebol lhe deu. Na época passada voltou a ter uma passagem fugaz pelo futebol como adjunto de Ricardo Moniz no Zurique.

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