Costa do Marfim: Yaya Touré, um talento fora do guião
Yaya Touré somou 107 internacionalizações e esteve em três Mundiais com a Costa do Marfim
Dos golos que mudaram a história do Manchester City às acusações que atingiram Guardiola, a carreira de Yaya Touré nunca coube apenas no relvado. Perdeu um irmão durante o Mundial de 2014 e continuou na competição. Hoje, aos 43 anos (completa-os esta quarta-feira), a sua trajetória continua a parecer maior do que a soma dos clubes, dos títulos e das polémicas. Toure é o décimo sétimo dos 48 Cromos do Mundial, série que destaca um futebolista excêntrico, ou quase, de cada país que jogará na edição de 2026
Em 2003, Yaya Touré jogou um amigável pelo Arsenal contra o Barnet. Não tinha contrato, não tinha estatuto, não tinha sequer a posição definida e Arsène Wenger testou-o como segundo avançado. Não fez nenhum brilharete, antes pelo contrário, mas o Arsenal tinha um acordo para contratá-lo. O problema é que Yaya não possuía passaporte europeu nem o número mínimo de jogos pela seleção da Costa do Marfim para obter uma permissão de trabalho automática no Reino Unido. Wenger queria que ele voltasse para a Bélgica e esperasse até obter um passaporte belga, mas Yaya não quis esperar. Preferiu aceitar uma proposta do Metalurh Donetsk, da Ucrânia, onde não precisava de documentos europeus para jogar.
Este é apenas um episódio caricato de uma carreira feita deste tipo de factos: decisões que não dependem só do talento, caminhos que se abrem ou fecham por detalhes administrativos, escolhas que parecem improváveis quando vistas de trás para a frente.
Faz hoje 43 anos que Gnégnéri Yaya Touré nasceu em Bouaké, na Costa do Marfim, no seio de uma família em que o futebol sentava-se à mesa todos os dias. Kolo, o irmão mais velho, viria a ser campeão em Inglaterra; Ibrahim, o mais novo, avançado, morreria de cancro em 2014, em pleno Mundial do Brasil, quando Yaya e Kolo ainda estavam em competição pela seleção marfinense. Essa notícia, recebida no meio de um torneio que devia ser o auge de uma geração africana, é um daqueles momentos que ajudam a perceber o tom sombrio que sempre acompanhou a grandeza deste jogador.
Antes de ser o “motor do Barça” ou o homem que quebrou o jejum de títulos do Manchester City, Yaya é um produto da ASEC Mimosas, fábrica de talentos de Abidjan. De lá salta para o Beveren, na Bélgica, depois para o Metalurh Donetsk, na Ucrânia, e para o Olympiacos, na Grécia, onde começa a ganhar dimensão europeia. Segue-se o Monaco e, em 2007, o salto para o Barcelona, por 10 milhões de euros. É em Camp Nou que o mundo percebe que aquele médio podia ser (quase) tudo dentro de campo. O Barça de Guardiola foi o laboratório perfeito para testar a elasticidade do marfinense. Ele aceitou ser central em Roma para que Busquets jogasse no meio-campo, ganhou tudo em 2008/09, mas saiu com a sensação de que o seu nome nunca ficaria gravado na parede da história como os outros. Ele próprio contou que, quando o presidente os levou à sala dos troféus, percebeu que talvez precisasse de um clube “com menos história” para escrever a sua. A frase é quase um manifesto: Yaya não queria ser mais um peão num sistema perfeito: queria ser o rosto de uma transformação.
Alex Livesey - UEFA
Foi isso que aconteceu em Manchester. Em 2010, o City pagou cerca de 30 milhões de euros ao Barça e deu-lhe o centro do projeto. Em Wembley, nas meias-finais da Taça de Inglaterra de 2011, marcou ao United; na final, decidiu contra o Stoke. Dois golos que valeram o primeiro troféu do clube em 35 anos e que inaugurou a era em que o City se torna uma potência. Em 2013/14 faz uma das épocas mais absurdas de um médio na Premier League, ao marcar mais de 20 golos em todas as competições; bateu livres, penáltis e aparecia na área como se fosse um avançado disfarçado.
A Premier League acabaria por colocá-lo na lista de finalistas para o Hall of Fame, um reconhecimento tardio de um impacto que foi muito para lá dos números. Yaya foi também eleito Futebolista Africano do Ano pela BBC, em 2013, um dos vários prémios individuais que colecionou enquanto a Costa do Marfim se habituara a vê-lo como líder natural de uma geração de ouro.
O dedo apontado a Pep Guardiola
Mas a história de Yaya Touré nunca é só sobre futebol. É também sobre ressentimento, feridas abertas e uma relação complicada com o poder. A figura de Pep Guardiola é o epicentro disso tudo. O marfinense parece ter passado anos a ruminar a forma como foi empurrado para fora do Barça e, mais tarde, como foi sendo apagado do City quando o treinador catalão chegou a Manchester. Em 2018, numa entrevista à “France Football”, acusou Guardiola de ter “problemas com jogadores africanos”, falou em racismo e disse que queria “acabar com o mito”do treinador. Noutras declarações, descreveu o momento em que deixou de ver “um homem” e passou a ver “uma cobra”, alguém que o teria tratado “como um cão” antes de tentar recuperá-lo.
Guardiola nunca respondeu frontalmente às acusações, e Yaya, anos depois, admitiria que queria paz e que tinha tentado uma reconciliação sem resposta. Mas o dano já estava feito: a imagem pública do marfinense passou a ser também a do homem que ousou tocar no intocável, que trouxe para o centro do debate a forma como os jogadores africanos se sentem muitas vezes, como quem tem de provar mais do que os outros. Ao mesmo tempo, em entrevistas, Yaya dizia que não queria que o filho jogasse futebol por causa do racismo que ainda via no jogo. A carreira dele, que parecia ser o triunfo absoluto do talento africano no coração da Europa, acabava por ser também um lembrete de que a integração nunca é total.
Lennart Preiss
Há um lado quase caótico na forma como Yaya foi gerindo o fim da carreira. Depois do City, regressou ao Olympiacos, mas rescindiu ao fim de três meses e cinco jogos; passou pela segunda divisão chinesa, no Qingdao Huanghai, dois anos depois de ter dito que jogava “por amor e não por dinheiro”; foi dado quase como certo no Vasco e no Botafogo, algo que nunca se concretizou, sempre com a sensação de que ele próprio já não sabia bem o que queria ser.
Ao mesmo tempo, a vida pessoal continuava a atravessar o futebol. A morte do irmão Ibrahim, em 2014, marcou-o profundamente. A decisão de se retirar da seleção da Costa do Marfim, em 2016, depois de mais de uma década e mais de 100 internacionalizações, foi apresentada como o fim de um ciclo, mas também como uma forma de proteger-se de um desgaste emocional que já vinha de trás. A seleção que ele liderou até ao título da CAN 2015 ficava sem o seu capitão.
Do relvado para o banco de bloco na mão
Quando finalmente aceitou que a carreira de jogador tinha acabado, Yaya fez algo que muitos não esperavam: entrou no mundo dos treinadores pela porta lateral. Começou como adjunto no Olimpik Donetsk, na Ucrânia, passou pelo Akhmat Grozny, na Rússia, trabalhou com os sub-16 do Tottenham e, em 2023, juntou-se ao Standard Liège como treinador-adjunto de Carl Hoefkens . Poucos meses depois, surgiu o convite que voltou a ligá-lo ao passado: Roberto Mancini, o treinador com quem ganhou o primeiro título grande no City, chama-o para ser adjunto na seleção da Arábia Saudita.
Pelo meio, há muitos outros episódios que ajudam a compor o seu retrato. A confissão de que pensava que ia para o Manchester United e não para o City quando deixou o Barça; as histórias de balneário, como a de Messi a planear fazer “cuecas” a adversários, que Yaya contou com um misto de fascínio e normalidade; o brasileiro Jô disse que ele era presença habitual nas saídas noturnas do City; em 2022, foi ilustrado pela Marvel como “The Citadel” (A Cidadela), em referência à sua força defensiva e domínio no meio-campo.
No fim, o que fica de Yaya Touré não é só a lista de clubes, golos ou títulos. É a sensação de que ele foi, ao mesmo tempo, protagonista e crítico do sistema que o consagrou. Um líder nato que nunca se contentou em ser apenas peça de um puzzle perfeito. Um africano que chegou ao topo da Europa e, de lá, apontou o dedo às fissuras que via. Um médio que carregava a bola como quem carrega uma história inteira às costas.