Cromos do Mundial

Países Baixos: Andy van der Meyde, o jogador perdido entre álcool, drogas, zebras, strippers e demónios interiores

Andy Van der Meyde apenas fez 17 jogos pela seleção dos Países Baixos
Andy Van der Meyde apenas fez 17 jogos pela seleção dos Países Baixos

Brilhou no Ajax, partilhou ataque na seleção neerlandesa com vários craques, foi contratado pelo Inter e pelo Everton. No entanto, a carreira do extremo despistou-se abruptamente, sucumbindo perante a depressão e o vício. Van der Meyde é o décimo oitavo dos 48 Cromos do Mundial, série que destaca um futebolista excêntrico, ou quase, de cada país que jogará na edição de 2026

Países Baixos: Andy van der Meyde, o jogador perdido entre álcool, drogas, zebras, strippers e demónios interiores

Pedro Barata

Jornalista

“Vou morrer aqui.

A frase foi dita ao telefone por Andy van der Meyde, tendo o seu empresário como destinatário. Com 30 anos, o neerlandês estava no apartamento de Liverpool onde vivia com um amigo, ou melhor, onde falecia aos pedaços, destruindo-se entre bebidas e drogas.

As linhas determinantes da sua existência já não eram as laterais do relvado, eram outras, brancas, mas não como cor de uma qualquer camisola. Van der Meyde deixara o Everton há alguns meses, na verdade já abandonara o futebol há algum tempo.

Uma década antes, Andy assumiu-se como mais um produto da inesgotável fábrica de talento do Ajax. Debutou pelo gigante de Amsterdão aos 18 anos, consolidando-se na época principal na explosiva equipa de Ronald Koeman, um coletivo onde o jovem Van der Meyde convivia com Mido e Zlatan Ibrahimovic, rebeldes de causa variada, e com os também infantes Wesley Sneijder e Rafael Van der Vaart.

O caminho parecia natural: Serie A, rumo ao então muito gastador Inter. Van der Meyde sentia-se “quase um Deus”, que “podia fazer o que quisesse”, firmando autógrafos, “como um rei”. “Recebia muito dinheiro, era tudo fácil”, diria, anos depois, à BBC.

O Euro 2004, no auge da carreira, é uma boa fasquia para medir o nível do extremo. Titular em quatro dos cinco encontros dos Países Baixos em Portugal, partilhava ataque com Ruud van Nistelrooy e Arjen Robben. No entanto, e sem que ninguém na altura o pudesse adivinhar, a derradeira vez de Andy com a camisola laranja seria no Algarve, contra a Suécia. Tinha 24 anos. Os primeiros demónios surgiriam na época seguinte, a sua segunda em Milão.

A depressão e os escapes

Com o avançar do tempo no Inter, o neerlandês foi jogando cada vez menos. O refúgio, a fuga, foi encontrada na bebida. Passou a sair regularmente, em sentido inversamente proporcional ao rendimento em campo.

O último golo que Van der Meyde festejou na carreira surgiria em Valência, numa partida da Liga dos Campeões. Tinha 25 anos.

No final de 2004/05, para se relançar, surgiu a opção de ir para o AS Monaco. O principado era do agrado de Andy, mas havia um pequeno grande problema: era preciso viver num apartamento, o que era incompatível com os gostos da sua mulher, que chegou a ter 11 cavalos, um camelo e várias zebras. “Não podes ter uma zebra num apartamento, então não fomos para o Mónaco e mudámo-nos para a chuvosa Liverpool”, recorda o futebolista.

A vida no Everton foi caótica. O mais memorável momento de Van der Meyde na Premier League foi ser expulso num dérbi diante do Liverpool apenas seis minutos depois de entrar em campo. Tudo o resto de destacável sucedeu fora dos relvados, numa descida sem travões até aos infernos pessoais.

A mais memorável partida de Andy van der Meyde no Everton: ser expulso no dérbi contra o Liverpool
Michael Steele

Na madrugada de 7 de agosto de 2006, o homem que apenas fez 24 partidas em quatro épocas pelo clube deu entrada num hospital com problemas respiratórios. Horas antes estava a beber num bar, alegando que o líquido que ingeria fora contaminado por alguém, contra a sua vontade, e daí os resquícios de substâncias pouco amigas do desporto profissional.

Multado no valor de duas semanas de salário, o neerlandês pediu “compreensão” face à sua situação pessoal. A filha de cinco meses, Dolce, estava hospitalizada desde o nascimento devido a problemas de saúde. Sozinho em Liverpool, nada corria bem a Andy: na semana seguinte, durante um encontro amigável do Everton, assaltaram-lhe a casa, levando, entre outras coisas, um Ferrari, um Mini Cooper e um cão.

As aparições em campo foram sendo cada vez mais esporádicas: 388 minutos jogados na Premier League 2006/07, zero minutos jogados em 2007/08; dez minutos em 2008/09, os derradeiros da carreira profissional.

A certa altura, disse à mulher que tinha de ir uns dias para um hotel, por estar lesionado e precisar de descanso. Uma semana depois, voltou a casa, não para ficar, mas para buscar mais roupa. A mulher desconfiou e tentou segui-lo, sem êxito. Um detetive privado, contratado pela mulher, colocou um localizador no carro do suspeito. Descobriu-se que, na verdade, Van der Meyde estava a viver com uma nova namorada. Era uma stripper, vinda de um mundo muito frequentado pelo de facto ex-jogador, ainda que formalmente com contrato com o Everton.

Embebedar-me num clube de strip no meio de Liverpool não era uma decisão inteligente“, admitiria o extremo à BBC, repetente na prevaricação. Era, na verdade, mais um escape. Sofria de depressão e estava ali - no álcool, nas drogas, na noite - uma rota ”para fugir e não pensar em problemas“. ”Eu tinha muito dinheiro, podia comprar o que quissesse, ter as mulheres que quissesse. Era muito fácil. Descarrilar era muito fácil porque não havia limite.

A mulher e os filhos afastaram-se. O contrato com o Everton terminou. Mas a vida em Liverpool não. Sem clube, ficou a viver em Inglaterra com um amigo. Aliás, a viver não. A beber, a drogar-se, a frequentar casinos.

Tinha meros 30 anos. Robben, que atuava na ala oposta da sua pelos Países Baixos umas épocas antes, era candidato à Bola de Ouro, encontrando-se a voar pelo Bayern. E ele ali, perdido, a “morrer”.

Chegou a tal chamada ao empresário. Conseguiu-se tirar Andy dali e arranjar um período de treinos com o Ajax. O jogador ainda assinaria com outro grande neerlandês, o PSV, mas nunca jogou. Não voltaria a calçar as chuterias num jogo oficial depois do Everton. Tinha 27 anos na última ocasião em que pisou um relvado como titular.

Após algum tempo de reabilitação, Van der Meyde, recomposto quanto possível, foi ganhando a vida com presenças televisivas e um canal de YouTube. Conseguiu recuperar o contacto com os filhos e em 2014 foi árbitro na Lingerie World Cup (sim, é exatamente aquilo que o nome sugere que é).

Na mente de Andy ficará, sempre, a culpa. “Fui um idiota. Às vezes deito-me na cama e penso porra, meu, tu eras um bom jogador. A dado momento, era o segundo melhor extremo da Europa, atrás do Luís Figo. Desperdicei tudo.”

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