Cromos do Mundial

Gana: Kevin-Prince Boateng, o 'bad boy' que o racismo não silenciou

Nascido na Alemanha, Boateng jogou contra o irmão, internacional germânico, em dois Mundiais
Nascido na Alemanha, Boateng jogou contra o irmão, internacional germânico, em dois Mundiais

Cresceu num bairro multicultural de Berlim, seguindo o lema “se não morres tu, morro eu”. Sentiu a discriminação na pele desde criança, até se fartar num jogo do Milan. O anti-racismo levou-o a discursar nas Nações Unidas, mas nunca se livrou do rótulo de conflituoso, alimentado por polémicas, excentricidades e a expulsão da equipa do Gana durante o Mundial 2014. Boateng é o vigésimo segundo dos 48 Cromos do Mundial, série que destaca um futebolista excêntrico, ou quase, de cada país que jogará na edição de 2026

Gana: Kevin-Prince Boateng, o 'bad boy' que o racismo não silenciou

Pedro Barata

Jornalista

A infância de Kevin-Prince Boateng não rimou com inocência. Em Wedding, o multicultural bairro de Berlim onde o rapaz filho de uma alemã e um ganês vivia, havia muito desemprego, bastante criminalidade. A polícia não entrava lá, recorda Kevin-Prince, que gravou na lembrança o lema que quase todos usavam.

“Se não morres tu, morro eu”, diria, anos depois, ao Guardian.

O bairro juntava muita imigração que procurava a capital em busca de uma vida melhor. Egípcios, turcos, russos, chineses. Eram os primeiros anos pós-reunificação alemã.

Boateng não conheceu a inocência, mas também não era familiar com outras coisas, por muito nefastas que fossem. Só as ouviu quando, ainda criança, foi jogar um torneio de futebol ao menos diverso leste germânico. O menino Kevin-Prince, sempre que tinha a bola, ouvia gritos vindos dos pais, do lado de fora.

“Derruba o preto”; “Não deixes o preto jogar”.

A memória foi escrita, mais de 20 anos depois do incidente, num texto no Players' Tribune. “Fiquei tão confuso. Só escutara essa palavra vagamente, talvez num filme ou música, mas sabia que estava relacionada com a minha cor. Senti-me tão sozinho, como se estivesse num lugar onde não era suposto estar, apesar de somente a seis horas de carro de Berlim”, contou. O autocarro de volta para casa foi pintado de lágrimas.

O cenário piorava a cada ida àquela parte do país. “Por cada golo que marcares, vamos atirar-te uma banana”; “Vamos colocar-te numa caixa e enviar-te de volta para o teu país, preto de merda”. Kevin-Prince Boateng não era, sequer, adolescente.

As cicatrizes ficaram. A dor permaneceu lá, à espera de ser reativada. Janeiro de 2013. Amigável entre o AC Milan e o Pro Patria. Sempre que KPB ou um dos seus colegas negros do Milan tocava na bola, os adeptos adversários imitavam macacos. Boateng explodiu. Não aguentava mais.

Pegou na bola, chutou-a na direção das bancadas, abandonou o relvado. A caminho da saída, o árbitro tentou convencê-lo a permanecer. “Cala-te. Tinhas o poder de fazer algo, mas permaneceste quieto”, foi a resposta do futebolista. A partida não terminou.

Não ter ficado calado fez de Kevin-Prince um líder do movimento anti-racista no futebol. A FIFA colocou-o num grupo de trabalho contra a discriminação, a ONU nomeou-o embaixador anti-racismo. Foi com esse título que foi discursar a Genebra, traçando paralelismos entre o racismo e a malária, visto tratar-se de “um perigoso e contagioso vírus”, o qual deve ser confrontado e erradicado, mas que não desapareceria por si próprio, sem agirmos.

Lamborghini, malas de dinheiro, Frederico Varandas

KPB foi sempre descrito por quem o conhecia como uma espécie de camaleão. Moldável, adaptável. Com diferentes camadas.

O militante anti-racista. O jogador de grandes da Europa, do Tottenham, do Dortmund, do Milan, do Barcelona. O flop do Tottenham, o pouquíssimo utilizado do Barcelona, o fundamental nos êxitos do Milan. O berlinês que jogou pelo Gana. O dançarino que encanta San Siro imitando Michael Jackon, o cantor que lançou dois singles. O apaixonado pelo Gana, com o nome e o mapa do país tatuado, que foi expulso da seleção durante o Mundial 2014.

O falante de turco, alemão, inglês e italiano, dando uns toques em francês e árabe. O eloquente palestrante. O bad boy.

Kevin-Prince Boateng a discursar nas Nações Unidas
Harold Cunningham - FIFA

Tão pegada a Kevin-Prince quanto o seu talento sempre esteve a fama de rebelde. Com 20 anos, depois de assinar com o Tottenham, o treinador, Martin Jol, disse que não contava com o jogador. “Passei a ser eu contra o mundo. Não me queres? Então vou curtir, diria, depois, ao Guardian. Passava a vida em clubes noturnos em Londres, saindo, gastando dinheiro.

Não posso jogar futebol? Então vou comprar um Lamborghini. Faz-te feliz uma semana, depois nem o usas. Vais andar de Lamborghini num subúrbio de Londres? Ainda tenho uma fotografia: três grandes carros, uma grande casa, eu ali, como o 50 Cent. Às vezes olho para aquilo e penso: 'eras tão estúpido', admitiria, uma década passada.

O encarrilar chegaria num empréstimo ao Dortmund, muito ajudado por Klopp. Numa carreira sempre instável, com 13 clubes em cinco países, recuperaria crédito em Inglaterra pelo Portsmouth. Chegou à final da FA Cup de 2010, onde falhou um penálti contra o Chelsea que daria vantagem à sua equipa. Nesse desafio de Wembley, lesionou Michael Ballack na sequência de uma entrada dura, levando o então capitão da Alemanha a falhar o Mundial 2010.

Prince, berlinês e internacional jovem germânico, já decidira representar o Gana a nível sénior. Passaria, ali, a ser persona non grata no seu próprio país de nascimento. No país pelo qual atuava o seu irmão, Jêrome, que defrontou em dois Mundiais, em 2010 e 2014.

Houve, quase sempre, uma vida em dois polos. Um luminoso e outro mais sombrio, o brilhantismo e a polémica. Os Mundiais refletem esses contrastes. Na África do Sul destacou-se, ajudando o Gana a ficar a um penálti de ser a primeira equipa africana a estar nas meias-finais. Foi aí quando conheceu Nelson Mandela. Ao ver o nervosismo do jogador, Mandela tratou de quebrar o gelo. “Apertou-me a mão, trouxe-me para junto dele e atirou: 'a minha filha quer casar contigo'”, relembra Kevin-Prince.

No Brasil correspondeu ao rótulo de conflituoso. Retirado da seleção em 2011, aos 24 anos, farto da confusão logística que era representar o Gana, o presidente da federação foi a Milão convencê-lo a disputar o Mundial 2014. KPB aceitou, mas viria a lamentar o “amadorismo”, criticando o “pesadelo” que foi a organização da ida até ao Brasil, com esperas de 10 horas em aeroportos e os futebolistas viajando em grupos separados, em classe económica, enquanto dirigentes seguiam em executiva.

Os problemas não cessaram durante o torneio. Nas vésperas de defrontar Portugal, no derradeiro desafio da fase de grupos, os ganeses ameaçaram não disputar o jogo, devido a pagamentos em falta. O governo de Acra fez, então, voar para o Brasil uma mala com três milhões de dólares em dinheiro vivo, convencendo o plantel. Não foi suficiente para acalmar Kevin-Prince, que se envolveu numa discussão com o selecionador, insultando-o e acabando expulso do estágio.

Uma vida de solavancos, de golos candidatos ao Puskás ou suspensões por entradas particularmente duras, esteve quase a ter passagem por Portugal. No verão de 2015, o novo Sporting de Jorge Jesus quis trazer o explosivo médio. O jogador aterrou em Lisboa, esteve reunido com Bruno de Carvalho até de madrugada, mas a manhã seguinte trouxe um negócio não finalizado. “Desacordo quanto aos direitos de imagem”, seria a explicação oficial. Vários órgãos de comunicação social apontaram outra razão: Frederico Varandas, diretor clínico dos leões, detetara um problema crónico no joelho direito.

Jogou com Messi e Ronaldinho, com Ibrahimovic e Suárez, com Ricardo Quaresma e Ribéry, com Donnarumma, Busquets, Bale, Modric, Hummels, Kaká, Pirlo, Thiago Silva, Balotelli, Dembélé. As regras aprendidas em Wedding, no bairro, nunca saíram da sua cabeça, assegura. Mas lida mal com os rótulos.

Bab boy, bêbado, festeiro. Os jornais ainda têm essa imagem de mim. Vá lá, eu falei nas Nações Unidas. Digam-me outro jogador que o tenha feito.

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