Canadá: Dwayne de Rosario, o breakdancer que abriu caminho antes de haver caminho
Dwayne de Rosario marcou 22 golos em 82 jogos pelo Canadá
Chamam‑lhe “o padrinho do futebol canadiano” porque chegou antes do tempo e abriu portas que não existiam. Mostrou que era possível ser protagonista num país que ainda não sabia que podia tê‑los no futebol. Mas antes de ser profissional, DeRo foi b-boy, dançava break-dance e era conhecido como 'Timex'. De Rosarioéo vigésimo quinto dos 48 Cromos do Mundial, série que destaca um futebolista excêntrico, ou quase, de cada país que jogará na edição de 2026
Dwayne De Rosario cresceu em Scarborough, num Canadá que ainda estava a aprender o que podia ser no futebol. Os pais tinham chegado da Guiana, nos anos 70, trazendo consigo a herança caribenha que moldou a casa: música alta, comunidade forte, futebol de bairro. O pai, Tony, jogava em ligas comunitárias guianenses em Toronto; a mãe, Yvonne, segurava a disciplina e a estrutura familiar. Dwayne começou a jogar aos 3 anosno Scarborough Blizzard, passou pelos Malvern Majors, e cresceu entre parques e ligas comunitárias onde o talento era visto mais como teimosia do que como promessa.
Antes de ser jogador profissional foi outra coisa: b‑boy. Dançava breakdance em festas, em centros comunitários, em competições improvisadas. Na comunidade, chamavam‑lhe Timex. Há quem diga que a forma como recebia a bola, aquele primeiro toque que parecia coreografado, vinha mais daí do que de qualquer treino formal.
Aos 14 anos recusou treinar no AC Milan porque não se sentia pronto para viver em Itália. O mundo ainda não fazia sentido à escala dele. O Canadá também não. A carreira começou por caminhos que não prometiam nada: Toronto Lynx, uma passagem pela Alemanha, regressos, tentativas. Mas quando entrou na MLS, primeiro em San Jose e depois em Houston, percebeu‑se que havia ali um jogador que não precisava de contexto para ser protagonista. Era agressivo, criativo, imprevisível, daqueles que mudam o ritmo de um jogo sem pedir licença.
O episódio mais caricato aconteceu em 2010, quando decidiu viajar para a Escócia para fazer testes no Celtic sem autorizaçãodo Toronto FC. Desapareceu durante dias, reapareceu em Glasgow, treinou, tentou a sorte. O clube não gostou, a relação azedou, e o episódio acabou por precipitar a sua saída.
Dwayne de Rosario a jogar pelo Toronto FC
Abelimages
Quando chegou ao Toronto FC, em 2009, já vinha com estatuto, mas o que encontrou foi um clube ainda à procura de identidade. Tornou‑se o rosto da equipa quase por osmose: era o jogador mais decisivo, o mais reconhecível, o mais capaz de transformar um jogo que não pedia para ser transformado. E talvez por isso a troca que o levou para os New York Red Bulls, em 2011, tenha ficado como uma espécie de trauma coletivo. Não era só perder um jogador importante; era perder alguém que parecia feito para aquele clube e aquela cidade. O regresso, em 2014, não trouxe o mesmo brilho, já não era o DeRo que resolvia jogos sozinho, mas era o DeRo que fechava ciclos.
Na seleção, foi durante anos o rosto de um projeto que raramente acompanhou o seu nível. Entre 1998 e 2015 tornou‑se o melhor marcador da história da equipa masculina canadiana, com 22 golos, e campeão da Gold Cup, em 2000. Jogava com uma confiança que parecia deslocada num país habituado a não incomodar.
O fim da carreira chegou em 2015, anunciado com a simplicidade de quem nunca precisou de grandes gestos para ser ouvido. Na despedida, escreveu um post no Instagram: “Foi sempre um sonho representar a minha família e a minha comunidade #Scarborough #Toronto #Canada da melhor forma possível em todos os sítios onde joguei. Saibam que os sonhos se tornam realidade.” Como acontece com tantos jogadores a vida depois do futebol manteve-se ligada a ele. Tornou-se embaixador do Toronto FC, foi entrando cada vez mais no trabalho de base e criou a DeRo United, uma fundação e programa de desenvolvimento que oferece treino, acompanhamento e atividades a jovens que, de outra forma, dificilmente teriam acesso a esse tipo de estrutura.
Um dos momentos mais marcante da vida de DeRo foi, no mínimo, agridoce. Aconteceu em 2020, no dia em que recebeu a Ordem de Ontário, que foi também o dia da morte do seu pai. Aceitou a medalha num silêncio que não era de cerimónia, mas de luto. Chamou‑lhe “um dos dias mais emocionais da [sua] vida” e disse que a honra pertencia mais ao pai do que a ele.
Entretanto, a família tornou‑se quase uma extensão natural da carreira. O filho mais velho, Osaze, é avançado e está a construir caminho na MLS NEXT Pro, liga das equipas secundárias do principal campeonato norte-americano, enquanto o mais novo, Adisa, é guarda‑redes e assinou contrato com o Toronto FC, depois de passar pela DeRo United Academy. A filha, Asha, está envolvida nos programas comunitários ligados à fundação da família.
Hoje, quando lhe chamam “o padrinho do futebol canadiano”, é por tudo isto: pelo talento, pela teimosia, pelas portas que abriu, pelas que arrombou, pelas que inventou. Pelo jogador que foi e pelo país que ajudou a empurrar para o futuro.