Cromos do Mundial

Alemanha: Harald Schumacher, o guardião do bigode que foi só disputar a bola e acabou vilão odiado em França

‘Toni‘ Schumacher jogou duas finais de Mundiais, em 1982 e 1986, entre os 76 encontros que fez pela Alemanha
‘Toni‘ Schumacher jogou duas finais de Mundiais, em 1982 e 1986, entre os 76 encontros que fez pela Alemanha

Ainda hoje é inundado com pedidos de entrevista sempre que há um França-Alemanha na fase final de um torneio: vai acedendo porque espera mudar a opinião, pelo menos, de um francês acerca do que fez em 1982. Nas meias-finais do Mundial, embateu violentamente contra Patrick Battison, deixando-o inconsciente, e limitou-se a pegar na bola e esperar, de mãos na anca. O ato fê-lo ficar por diante de Adolf Hitler numa sondagem do L'Équipe sobre as pessoas mais odiadas no país. Schumacher é o vigésimo sexto dos 48 Cromos do Mundial, série que destaca um futebolista excêntrico, ou quase, de cada país que jogará na edição de 2026

Podia ser um mito urbano, daquelas coisas que se contam desde os tempos pré-internet, dificilmente verificáveis: em 1982, findo o Alemanha-França das meias-finais do Mundial, o jornal “L’Équipe” ocupou-se com uma sondagem que perguntou aos leitores quem era a pessoa que mais odiavam. O resultado não foi renhido: Harald Schumacher, o guarda-redes da seleção germânica de futebol, acabou à frente de Adolf Hitler.

A cólera gaulesa germinou em Sevilha. O jogo estava empatado, durinho também, as disputas de bola de garras afiadas já eram muitas quando Michel Platini e a sua longa camisola para fora dos calções, a fazer-lhe um saiote, viu Patrick Battiston, esbaforido a correr buraco dentro da defesa alemã. O passe entrou, o francês chegou primeiro à bola e, na fronteira da área, desviou-a do embalado corpo de Schumacher, cuja abordagem à situação falou por cima das palavras que mais tarde dedicaria ao ato.

Ainda a quase dois metros de Battiston, sem hipótese de alcançar a bola, o guarda-redes saltou, virou o corpo, curvou-se ligeiramente. Foi de cóxis e ombro à frente, embatendo em cheio contra o peito e a cara do francês. Ao violento choque não se seguiu um apito do árbitro, nem falta foi. Battiston caiu inconsciente no relvado, o seu corpo contorcido. Enquanto recebeu assistência, Harald Schumacher prosseguiu com a sua vida: foi buscar a bola, pô-la na linha da pequena área e esperou, de mãos na anca, para bater o pontapé de baliza.

Battiston ficaria em coma, perdeu a conta aos dias no hospital, perdeu dois dentes, outros três partidos e uma costela fraturada. Ao sair do relvado deitado na maca, inanimado, enculcada na memória ficou outra imagem: o seu braço inerte, suspenso no ar, a ser amparado por Platini.

Na ressaca da partida, decidida apenas nos penáltis que desataram um 3-3, o guardião alemão deixou um recado aos jornalistas, ainda no estádio, ao saber que o jogador francês, então do Saint-Étienne, estava internado no hospital: “Digam-lhe que lhe pago dois dentes novos.” Eliminados os Les Bleus cheios de talento, com Alain Giresse, Jean Tigana, Louis Fernández, Didier Six ou Bernard Genghini a escudarem Platini, espalhou-se a bílis do povo gaulês pela dita sondagem e, sem freios, contra o guarda-redes da República Federal da Alemanha.

Contaria Schumacher, já retirado e sem bigode, que a federação contratou guarda-costas que o escoltaram durante seis meses, tanta a raiva dirigida à sua pessoa. “Podem imaginar que não se tratou de uma boa experiência. Recebi cartas escritas em francês e em alemão de quem me queria sequestrar-me ou matar os meus filhos”, revelou, em 2014, em entrevista “Le Monde” aquando do reecontro dos países nos quartos de final do Campeonato do Mundo desse ano.

A voragem de pedidos é cíclica, basta as seleções cruzarem-se na fase final de um torneio, ou nem isso. No Mundial do Brasil recebeu “mais de 20 pedidos”, os pretendentes encavalitavam-se na sede do Colónia, onde teve “mais de quatro horas de entrevistas, todas sobre o Alemanha-França de 1982”. Já vice-presidente do clube fiel a ter um bode de estimação para estar abeirado do relvado a cada jogo no seu estádio, Schumacher sabia que “a cada Mundial, as solicitações são massivas”.

Schumacher a chocar contra Battiston ao 57º minuto da meia-final entre Alemanha e França no Mundial de 1982
picture alliance

Só disputou a bola

Harald Schumacher, simplesmente ‘Toni’ para os alemães, caía característico no olho alheio. De melena farta e encaracolada, bigode suficiente para cofiar, perfilou-se bastante jovem na dianteira da sucessão a Sepp Maier, histórico guarda-redes da Alemanha. Entrou antes do esperado na mannschaft, precipitado pelo acidente de carro que partiu um braço e costelas várias ao homem do Bayern de Munique, íman de incontáveis bolas mas traído pelo alcatrão escorregadio numa noite de chuva inclemente.

Nem dois meses antes, em maio de 1979, Schumacher estreara-se pela República Federal da Alemanha na cidade que se ensina às crianças portuguesas ser a de um rei que já se viu, para facilitar a memorização. Abatido o acidente sobre o lendário guardião germânico, coube a ‘Toni’ assentar na baliza da seleção. No ano seguinte, ganhou por 4-1 à França, em Hannover, o primeiro de quatro cruzamentos entre os dois países nas 76 internacionalizações do homem nascido em Düren, não muito distante de Colónia. Lá vestiu as luvas durante 15 anos, chegou a fazer 213 jogos consecutivos a titular e a Bundesliga escolheu-o, duas vezes, como o melhor jogador.

À violenta entrada com que atingiu Battiston, em 1982, seguiu-se a perseguição dos franceses. Uma semana depois do jogo, quando visitou o adversário no hospital, em Metz, à espera de Schumacher estavam uns 50 fotógrafos e para lá de uma centena de jornalistas, avisados da sua vinda por um amigo do defesa do Saint-Étienne, também ele escriba de um jornal local. O alemão deu meia-volta, mas arrependeu-se. “Arrependo-me de não o ter visitado no hospital. Mas, eventualmente, pediu desculpa ao Patrick e ele aceitou. Esta história devia ter acabado em 1982, mas faz parte da minha vida e tenho de viver com ela”, disse, mais tarde, à rádio francesa “RMC”.

Em 1986, fervilhava em França uma narrativa de revanche, os países voltaram a jogar a meia-final do Mundial, ganhando de novo a Alemanha com ‘Toni’ na baliza.

Perderiam na final contra a Argentina de Diego Maradona comprometida com o destino, a fundo no peda do acelerador com o peso do talento do seu semi-deus. O guardião do bigode seria eleito o melhor jogador com luvas do torneio que repetiu o desfecho de quatro anos antes, quando os alemães, já com a companhia de Schumacher, não puderam no jogo decisivo com o arcaboiço da Itália de Paolo Rossi.

A cada ano o ex-bigode, em conjunto com outros jogadores, celebra na Alemanha a “Noite de Sevilha”, assim guardada na memória coletiva do país. Schumacher chegou a falar do “jogo do século”, o melhor que disputou, sem se retrair no combustível que era a sua força motriz: garante que só tentou disputar a bola com Battiston, guarda “recordações positivas” de um encontro “tão emocionante que causou ataques cardíacos”, onde jogou “duro” porque era “assim que jogava sempre”, com “mentalidade de guerreiro”.

Mas Harald Schumacher tem outro arrependimento, o de não ter ido inteirar-se do estado de Patrick Battiston após a colisão. Por isso não se coíbe de aceder a entrevistas que o auscultam sobre o mesmo: “Fui criado com os valores de honestidade e trabalho, com a ideia de nunca desistir. Foi o que fiz contra a França. Se for capaz de convencer, pelo menos, um francês de que não sou um mau tipo, já terá valido a pena.”

Tem alguma questão? Envie um email ao jornalista: dpombo@expresso.impresa.pt