Cromos do Mundial

Iraque: Certo como “a testa de Rahdi“, o goleador castigado com 15 horas de pontapés na parede

Ahmed Radhi é o segundo melhor marcador de sempre (62 golos) do Iraque e jogou no Campeonato do Mundo de 1986
Ahmed Radhi é o segundo melhor marcador de sempre (62 golos) do Iraque e jogou no Campeonato do Mundo de 1986

Deixou, no Mundial de 1986, o primeiro e único golo marcado pelos iraquianos no torneio e só um desleixo de um árbitro o privou de deixar outro. Ahmed Radhi jogou no clube de um filho de Saddam Hussein, pagou por isso com o corpo e chegou a ser eleito para o parlamento do país onde o seu nome entra numa espécie de ditado popular. Radhi é o vigésimo sétimo dos 48 Cromos do Mundial, série que destaca um futebolista excêntrico, ou quase, de cada país que jogará na edição de 2026

Um coche de desleixo, uma pitada de má vontade, uma mistura assim terá impelido o árbitro a soprar no apito, em 1986, quando a bola já voava, vinda de um canto, rumo à cabeça de Ahmed Rahdi. O avançado saltou, a sua testa rematou e os jogadores mal puderam festejar: o silvo vindo do árbitro achou por bem dar ordem para o intervalo após o canto ser pontapeado, o Iraque não teve um golo e acabaria por perder com o Paraguai na fase de grupos do Mundial, órfão de vitórias.

Teria sido um golo apropriado, inclusive justo, face a um dos trejeitos sociais que se entranhou debaixo da pele do povo iraquiano: por lá é expressão corriqueira dizer, quando algo acontece pela certa, que é como a “testa do Rahdi”. Se ricocheteada na sua cabeça, era convenção esperar um golo.

Mas Ahmed Rahdi, nascido em Bagdade, despediu-se do Campeonato do Mundo da mão de Deus, da meia equipa inglesa driblada, de Maradona furibundo com os inglesas devido às Malvinas, com um singelo golo, o primeiro do Iraque e até hoje único, esquivo às mãos de um guarda-redes não de de somenos. Foi contra Jean-Marie Pfaff e a Bélgica finalista do Europeu meia-dúzia de anos antes que o Iraque amigo da instabilidade deixou uma lembrança no torneio jogado no México.

Uma espreitadela ao guia da “Placard” da época ilustra-o. Estreante na prova, a seleção asiátiva era a única que trocara duas vezes de treinador nos seis meses prévios, indo ao Mundial com Evaristo Macedo no banco, lá chegado a 28 dias do primeiro jogo, sucessor de Edu, irmão do lendário Zico, por sua vez herdeiro do cargo de Jorge Vieira, todos eles brasileiros. Insistente nas graçolas com os “petrodólares”, indicando-os como algo com que o Iraque poderia “desequilibrar” nos jogos, a revista repetiu um aviso: cuidado com o “hábil goleador Rahdi”.

Avançado de labor metódico, conta-se que seguiu o exemplo dos três irmãos mais velhos, futebolistas antes dele em clubes pequenos da capital iraquiana, praticando seis horas por dia. Aos 16 anos, entrou na equipa da Polícia de Bagdade, uma porta de entrada na estrutura da bola do país. Não demorou a alcançar maior destaque. O Al-Zawra'a contratou-o em 1981, ano em um treinador de guarda-redes da seleção o detetou, convencendo o selecionador a percorrer mais de 160 quilómetros de carro para o ver.

Por comparação, era coisa pouca: Rahdi caminhava todos os dias quatro quilómetros para ir aos treinos.

Acabaria por se mudar, à força, para o Al-Rasheed, clube fundado por Uday Hussein, o mais velho dos filhos de Saddam, ditador iraquiano cujos ímpetos muito afetaram o país, o povo e lá mais para o fundo da fila, a carreira de Ahmed. Em 1990, já o avançado tinha conquistado duas Taças do Golfo e sido eleito, em 1988, como o melhor jogador asiático - único futebolista do país a ter esse louro -, o Iraque invadiu o Kuwait. A decisão precipitou a Guerra do Golfo, houve sanções e bloqueios impostos ao regime e, durante anos, a seleção não pôde competir.

Braço do pai mais dedicado ao desporto, Uday Saddam seria, ao longo dos anos, presidente da Federação Iraquiana de Futebol ou do Comité Olímpico do país, dedicando atenção a Ahmed caso a sua equipa ou a seleção perdessem. Já retirado e em 2003, contou à “Associated Press” que o filho do opressor ordenava que o fossem buscar a casa, de carro, para o levarem até ao meio de nenhures para ser espancado e sujeito a castigos militares, como ser obrigado a pontapear uma parede durante 15 horas.

Entre 1993 e 1996 jogou no Catar, fugido ao regime iraquiano e à voraz curiosidade dos adeptos: os satélites ainda estavam proibidos no país, era impossível apontar um ao céu, caçar o sinal certo e receber a transmissão dos jogos do vizinho do Médio Oriente. Deixou as chuteiras em paz aos 35 anos, contava 121 partidas feitas com o Iraque e 62 golos, atrás só dos 78 de Hussein Saeed. Pela seleção com alcunha Leões da Mesopotâmia‘ ainda esteve nos Jogos Olímpicos de Seoul, marcando duas vezes.

Ainda se aventurou na política, sendo eleito para o parlamento do país. Quando o novo milénio se espreguiçou e os EUA levaram ao país a segunda Guerra do Iraque colaborou com os invasores, trabalhando no Comité Olímpico para erguer uma seleção de futebol capaz de ir a Atenas, em 2004, beslicar o mundo com uma surpresa. Nesses Jogos Olímpicos o Iraque acabou no 4º lugar, derrotando na fase de grupos um Portugal com Cristiano Ronaldo de madeixas loiras, por 4-2. Foi, em pequena parte, obra de Ahmed Radhi, falecido em 2000, aos 56 anos, levado pela covid-19.

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