Espanha: Joaquín, o folião que bateu recordes de longevidade e levou a Taça do Rei para o altar
Joaquín fez 51 jogos pela seleção espanhola e esteve no Mundiais de 2002 e 2006
Chamavam-lhe la finta y el sprint, um extremo que agitou o futebol espanhol no início do século. Adiou a saída do seu amado Betis, ao qual regressaria, já veterano, para ser jogador, capitão e acionista. Sempre com uma piada para dizer, é a personificação do andaluz alegre, sem deixar de ser um competidor feroz até para lá dos 40 anos. Joaquínéo vigésimooitavo dos 48 Cromos do Mundial, série que destaca um futebolista excêntrico, ou quase, de cada país que jogará na edição de 2026
No fim da viagem, Joaquín ficou sem saber como reagir. Logo ele, que ao longo de mais de 20 anos sempre tivera mais uma frase, mais uma piada , mais um número. Mais um drible. Mais uma época.
“Não sei estar triste”, murmurou entre as gotas de água que escorriam pela cara. Era 2023, ele à beira dos 42 anos, 24 passados da estreia pelas cores do seus amores. Estava a despedir-se do Joaquín jogador.
Atrás de si estava o estádio Benito Villamarín. “É a minha vida”, disse. E voltou às lágrimas.
Paradoxalmente, concluía em choro a jornada mais alegre do futebol espanhol. Joaquín, o menino do Puerto de Santa María, terra de verão e festa, de calor e carnaval, de Cádiz, da folia. Há muito que adiava o adeus, colocando-se numa posição de invulgar longevidade: atingiu 622 jogos na La Liga, igualando o recorde de Andoni Zubizarreta, representando o Real Betis em 515 ocasiões.
Antes do peso do ponto final, a história foi a de um rapaz de caráter leve, relaxado, filho da alegria da terra. Era o terceiro de oito irmãos, inicialmente queria ser toureiro, mas o jeito com os pés captou a atenção do lado verde e branco de Sevilha. Um tio, de alcunha el chino, era quem mais acreditava no talento do sobrinho, pagando-lhe as viagens entre o Puerto e a capital andaluza. El chino morreria em 2002, Joaquín nunca deixou de mostrar gratidão.
Debutou ainda adolescente pelo Betis, quando o clube estava na segunda divisão. Rapidamente virou sensação, pegando-se-lhe a expressão la finta y el sprint, o drible e a corrida, entusiasmando pelas cavalgadas pela direita. O estilo gozão foi-se tornando imagem de marca, consolidado em mil e uma anedotas que viraram parte do folclore nacional: quando lhe perguntaram um hobby e respondeu ténis, para em seguida confessar que jamais pegara numa raquete; com o seu espanholizado italiano, quando representou a Fiorentina; nas inúmeras vezes em que conduziu o autocarro do Betis.
No verão de 2005, o Betis acabara de conquistar a Taça do Rei. Joaquín casou, a 8 de julho, com Susana Saborido. No altar, mirando o casal, estava o troféu.
Albacete, Mourinho e Coreia
Há alguns paradoxos com Joaquín. Descontraído e quase um futebolista-humorista, mas extraordinariamente competitivo, regular, uma garantia até depois das quatro décadas de vida. Principiou a carreira tendo a velocidade e a potência como grandes argumentos, ainda um jogador da época da fúria espanhola, e concluiu-a mais cerebral, pensando o jogo, técnico, tricotando futebol em zonas centrais; chegou a admitir que, em jovem, saía mais à noite “do que o camião do lixo”, mas jamais se apresentou com um quilo a mais, pouco se lesionou, sendo capaz de fazer mais de 30 partidas em 20 temporadas como profissional.
Era, sobretudo, um apaixonado pelo futebol. Certo dia em que ladrões lhe roubaram a casa, o maior lamento foi terem encontrado o local onde estavam guardadas várias camisolas trocadas com adversários como Ronaldo Nazário, David Beckham e Frank Lampard.
Joaquín fintando pela direita durante o polémica jogo contra a Coreia do Sul, no Mundial 2002
Shaun Botterill
A explosão inicial no Betis parecia levá-lo a uma saída precoce. Falou-se do interesse do Real Madrid galático, houve uma reunião agendada com José Mourinho, tendo o Chelsea como destino. Joaquín faltou ao encontro. Não se imaginava a sair de casa. “Pedi, depois, desculpa ao Mourinho, que me disse que eu fui o primeiro jogador a dar-lhe uma nega”, confessaria, anos depois, à “ESPN“.
Acabaria por deixar a equipa dos seus amores em 2006. Manuel Ruiz de Lopera, presidente de outra época, vindo do tempo dos polémicos dirigentes espanhóis dos anos 90, não queria deixar o extremo ir para o Valencia, pelo que fez valer uma cláusula no contrato do jogador, segundo a qual este era obrigado a aceitar ser cedido à equipa que o Betis decidisse. Lopera determinou que Joaquín, vindo diretamente do Mundial 2006, ia ser emprestado ao Albacete, da segunda divisão.
Aconselhado pelos advogados a apresentar-se, Joaquín fez a viagem da Andaluzia até Castela-Mancha. “Parei em todas as aldeias, as pessoas perguntavam-me o que estava a fazer e ofereciam-me queijo manchego”, lembraria. Chegado ao destino, um notário certificou que o jogador não havia faltado ao compromisso. Lopera deixou-o ir para o Valencia.
Valencia, Málaga, Fiorentina. Meros interregnos na ligação ao Betis, ao qual voltaria, jogando ao mesmo tempo que já era acionista do clube. Sempre competitivo, em dezembro de 2019 apontou um hat-trick, em 18 minutos, contra o Athletic, tornando-se o mais velho da história da La Liga a marcar três vezes num encontro, batendo um recorde de Alfredo Di Stefano, datado de 1964.
A vida do ala ao serviço de Espanha ficou ligada ao polémico embate dos quartos de final do Mundial 2002 contra a Coreia do Sul. Num lance ao seu estilo, assistiu Morientes para um golo que daria a passagem aos europeus, mas a polémica arbitragem do egipcío Gamal Al-Ghandour anulou, erradamente, a jogada. Na decisão por penáltis, Joaquín falharia o castigo máximo decisivo.
A última das 51 internacionalizações por la roja seria no final de 2007. Esteve em dois Mundiais e um Europeu, nas três derradeiras fases finais antes do trio 2008-2010-2012.
Joaquín não fez parte da geração de ouro. Mas a sua qualidade, talento e personalidade contribuíram para desenhar uma La Liga mais forte, fizeram por construir o ecossistema do qual brotaria aquela Espanha gloriosa. Joaquín, tal como Reyes, Valerón, Xabi Prieto, De la Peña e vários outros, não pertenceu à melhor Espanha de sempre, mas, sem eles, o futebol do lado de lá da fronteira não trocaria a fúria pelo toque. Sempre com mais uma piada para dizer, menos quando era para dizer adeus.