No fim da viagem, Joaquín ficou sem saber como reagir. Logo ele, que ao longo de mais de 20 anos sempre tivera mais uma frase, mais uma piada , mais um número. Mais um drible. Mais uma época.
“Não sei estar triste”, murmurou entre as gotas de água que escorriam pela cara. Era 2023, ele à beira dos 42 anos, 24 passados da estreia pelas cores do seus amores. Estava a despedir-se do Joaquín jogador.
Atrás de si estava o estádio Benito Villamarín. “É a minha vida”, disse. E voltou às lágrimas.
Paradoxalmente, concluía em choro a jornada mais alegre do futebol espanhol. Joaquín, o menino do Puerto de Santa María, terra de verão e festa, de calor e carnaval, de Cádiz, da folia. Há muito que adiava o adeus, colocando-se numa posição de invulgar longevidade: atingiu 622 jogos na La Liga, igualando o recorde de Andoni Zubizarreta, representando o Real Betis em 515 ocasiões.
Antes do peso do ponto final, a história foi a de um rapaz de caráter leve, relaxado, filho da alegria da terra. Era o terceiro de oito irmãos, inicialmente queria ser toureiro, mas o jeito com os pés captou a atenção do lado verde e branco de Sevilha. Um tio, de alcunha el chino, era quem mais acreditava no talento do sobrinho, pagando-lhe as viagens entre o Puerto e a capital andaluza. El chino morreria em 2002, Joaquín nunca deixou de mostrar gratidão.
Debutou ainda adolescente pelo Betis, quando o clube estava na segunda divisão. Rapidamente virou sensação, pegando-se-lhe a expressão la finta y el sprint, o drible e a corrida, entusiasmando pelas cavalgadas pela direita. O estilo gozão foi-se tornando imagem de marca, consolidado em mil e uma anedotas que viraram parte do folclore nacional: quando lhe perguntaram um hobby e respondeu ténis, para em seguida confessar que jamaispegara numa raquete; com o seu espanholizado italiano, quando representou a Fiorentina; nas inúmeras vezes em que conduziu o autocarro do Betis.
No verão de 2005, o Betis acabara de conquistar a Taça do Rei. Joaquín casou, a 8 de julho, com Susana Saborido. No altar, mirando o casal, estava o troféu.
Albacete, Mourinho e Coreia
Há alguns paradoxos com Joaquín. Descontraído e quase um futebolista-humorista, mas extraordinariamente competitivo, regular, uma garantia até depois das quatro décadas de vida. Principiou a carreira tendo a velocidade e a potência como grandes argumentos, ainda um jogador da época da fúria espanhola, e concluiu-a mais cerebral, pensando o jogo, técnico, tricotando futebol em zonas centrais; chegou a admitir que, em jovem, saía mais à noite “do que o camião do lixo”, mas jamais se apresentou com um quilo a mais, pouco se lesionou, sendo capaz de fazer mais de 30 partidas em 20 temporadas como profissional.
Era, sobretudo, um apaixonado pelo futebol. Certo dia em que ladrões lhe roubaram a casa, o maior lamento foi terem encontrado o local onde estavam guardadas várias camisolas trocadas com adversários como Ronaldo Nazário, David Beckham e Frank Lampard.
A explosão inicial no Betis parecia levá-lo a uma saída precoce. Falou-se do interesse do Real Madrid galático, houve uma reunião agendada com José Mourinho, tendo o Chelsea como destino. Joaquín faltou ao encontro. Não se imaginava a sair de casa. “Pedi, depois, desculpa ao Mourinho, que me disse que eu fui o primeiro jogador a dar-lhe uma nega”, confessaria, anos depois, à “ESPN“.
Acabaria por deixar a equipa dos seus amores em 2006. Manuel Ruiz de Lopera, presidente de outra época, vindo do tempo dos polémicos dirigentes espanhóis dos anos 90, não queria deixar o extremo ir para o Valencia, pelo que fez valer uma cláusula no contrato do jogador, segundo a qual este era obrigado a aceitar ser cedido à equipa que o Betis decidisse. Lopera determinou que Joaquín, vindo diretamente do Mundial 2006, ia ser emprestado ao Albacete, da segunda divisão.
Aconselhado pelos advogados a apresentar-se, Joaquín fez a viagem da Andaluzia até Castela-Mancha. “Parei em todas as aldeias, as pessoas perguntavam-me o que estava a fazer e ofereciam-me queijo manchego”, lembraria. Chegado ao destino, um notário certificou que o jogador não havia faltado ao compromisso. Lopera deixou-o ir para o Valencia.
Valencia, Málaga, Fiorentina. Meros interregnos na ligação ao Betis, ao qual voltaria, jogando ao mesmo tempo que já era acionista do clube. Sempre competitivo, em dezembro de 2019 apontou um hat-trick, em 18 minutos, contra o Athletic, tornando-se o mais velho da história da La Liga a marcar três vezes num encontro, batendo um recorde de Alfredo Di Stefano, datado de 1964.
A vida do ala ao serviço de Espanha ficou ligada ao polémico embate dos quartos de final do Mundial 2002 contra a Coreia do Sul. Num lance ao seu estilo, assistiu Morientes para um golo que daria a passagem aos europeus, mas a polémica arbitragem do egipcío Gamal Al-Ghandour anulou, erradamente, a jogada. Na decisão por penáltis, Joaquín falharia o castigo máximo decisivo.
A última das 51 internacionalizações por la roja seria no final de 2007. Esteve em dois Mundiais e um Europeu, nas três derradeiras fases finais antes do trio 2008-2010-2012.
Joaquín não fez parte da geração de ouro. Mas a sua qualidade, talento e personalidade contribuíram para desenhar uma La Liga mais forte, fizeram por construir o ecossistema do qual brotaria aquela Espanha gloriosa. Joaquín, tal como Reyes, Valerón, Xabi Prieto, De la Peña e vários outros, não pertenceu à melhor Espanha de sempre, mas, sem eles, o futebol do lado de lá da fronteira não trocaria a fúria pelo toque. Sempre com mais uma piada para dizer, menos quando era para dizer adeus.
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