Irão: Ali Daei, o engenheiro do golo que cabeceava com a força com que outros chutavam
Ali Daei foi o primeiro futebolista a marcar mais de 100 golos pela sua seleção e jogou dois Mundiais pelo Irão
Pelo Irão, o possante avançado iraniano marcava golos em barda - foi o primeiro a chegar aos 100 por uma seleção nacional. Mas a passagem pela Europa ficou marcada pelas dificuldades de adaptação, ainda que se tenha tornado uma figura de culto, muito graças ao seu bigode. Nos últimos anos, a oposição à repressão das autoridades iranianas valeu-lhe falta de oportunidades e até uma detenção. Daeiéo vigésimo nono dos 48 Cromos do Mundial, série que destaca um futebolista excêntrico, ou quase, de cada país que jogará na edição de 2026
O ano é 2004 e Ali Daei não vai de modas: marca quatro golos à modesta seleção do Laos no encontro de qualificação para o Mundial de 2006. Um póquer, por direito próprio, já é um feito, um dos expoentes máximos do futebol, mas com aqueles quatro golos o avançado iraniano, um dos últimos resistentes do futebol mundial à retirada do frondoso bigode da cara, tornar-se-ia o primeiro jogador da história a chegar aos 100 golos com a camisola de uma seleção.
Cristiano Ronaldo ultrapassaria Ali Daei em setembro de 2020 e não demoraria muito mais a destronar o iraniano do lugar de topo dos maiores artilheiros das seleções nacionais. Ali Daei “ficou-se” pelos 109 golos, Ronaldo já vai nos 143, e ainda a contar. Daei, em 2024, disse numa entrevista aos meios da FIFA que não ficou com ressentimentos, bem antes pelo contrário. “Bater recordes faz parte do futebol e eu fico feliz que tenha sido um jogador como o Ronaldo a fazê-lo. É um jogador excecional, que trabalha muito”, sublinhou o atacante hoje com 57 anos, e que entretanto também já viu Lionel Messi bater a sua centenária marca.
Marcar pela seleção nacional era como respirar para Ali Daei, o primeiro futebolista asiático a jogar na Liga dos Campeões. Em 1997, depois de aleijar as redes do campeonato iraniano com golos em barda no Bank Tejerat e no Persepolis, o Arminia Bielefeld, que lutava para não descer na Bundesliga, resolveu apostar naquele alto e possante avançado. E no seu fiel companheiro: o bigode.
Na Alemanha, Daei marcou pouco, fosse no Bielefeld, no Bayern Munique ou no Hertha Berlim, mas tornou-se figura de culto, com um estilo de gala a jogar de cabeça. Jürgen Röber, seu treinador na equipa da capital, chegou mesmo a dizer que Daei cabeceava com a mesma força com que outros chutavam.
O avançado iraniano na sua primeira experiência na Alemanha, com a camisola do modesto Arminia Bielefeld
Mark Sandten
Os dias de Ali Daei na Alemanha não traziam a felicidade, em golos, que vivia quando jogava pela Team Melli, a seleção iraniana - em cinco temporadas no país, marcou apenas 12 em todas as competições, enquanto não parava de faturar pelo Irão. Fora dos relvados, e apesar de apreciado pelos adeptos, tão-pouco se adaptava. No Bayern raramente falava com os colegas, fosse pela barreira linguística como cultural - os costumes ligados à cerveja, tão conhecidos na Baviera, estavam-lhe vedados por causa das suas crenças.
Já no Hertha, disse ao “Tagesspiegel” que continuava a viver “como se estivesse no Irão”, que sentia saudades da família, dos pais e dos irmãos. Depois de uma passagem pelo campeonato dos Emirados Árabes Unidos, regressou definitivamente ao seu país em 2003. Não para exercer o seu curso de Engenharia de Materiais, tirado antes de se dedicar ao futebol, mas para continuar a marcar golos. E mesmo que não tenha sido um avançado profícuo na Alemanha, frisou, já como treinador, que daqueles tempos tinha retirado do país que lhe deu uma oportunidade de jogar na Europa a “disciplina, precisão e os métodos”.
Problemas com o governo
Ali Daei abandonou os relvados em 2007 para logo começar a treinar, além de ter feito um bom pé-de-meia ao criar uma marca de artigos desportivos. No Irão era um rei, um mito, o homem que fez o passe para Mehdi Mahdavikia marcar o golo que derrotou os Estados Unidos no Mundial 1998, na primeira vitória de sempre da Team Melli em Campeonatos do Mundo, histórica e simbólica. Mas os problemas com as autoridades do seu país começaram cedo.
Em março de 2008, o goleador tornou-se selecionador nacional do Irão. E mesmo sendo a figura maior do futebol da nação persa, Daei mostrou-se “surpreendido” com a decisão. Nem um ano depois de ser nomeado, uma derrota por 2-1 frente à Arábia Saudita ditou-lhe o destino: Mahmoud Ahmadinejad, então presidente do país, estava no estádio e não gostou do resultado. Daei foi imediatamente demitido.
Em 2019 denunciou que um dos dirigentes do clube que treinava, o Saipa, era um proeminente membro da Guarda Revolucionária do Irão, acusado de vários assassínios de dissidentes políticos. A partir desse momento deixou de ter convites para treinar no seu país.
O melhor marcador da história do Irão durante o sorteio do Mundial de 2022
Eurasia Sport Images
Ali Daei foi também um de vários jogadores iranianos que, em 2022, se insurgiram contra o governo no caso de Mahsa Amini, a jovem de 22 anos que morreu sob custódia policial depois de ser detida, acusada de usar o lenço de forma inadequada. O antigo avançado e a família passaram a receber ameaças constantes. “Eu fui ensinado na humanidade, na honra, no patriotismo e na liberdade. O que é que esperam conseguir com estas ameaças?”, questionou na sua página de Instagram.
O iraniano chegou a ser brevemente detido, depois de visitar a cidade natal de Mahsa Amini, e viu o seu passaporte ser confiscado. A sua mulher e filha foram retiradas de um voo com destino ao Dubai, sem uma explicação convincente. No final desse ano, Daei recusou-se a viajar para o Mundial do Catar, onde acompanharia a seleção, ordenando que os governantes do país resolvessem “os problemas do povo iraniano”, em vez de continuarem uma onda de “repressão, violência e detenções”.
As relações com o poder não mudaram daí para cá. Aliás, em março deste ano a autarquia de Teerão anunciou que a Avenida Ali Daei vai mudar de nome. A justificação? O facto do maior futebolista da história do país, marcador de 109 golos, presente em dois Mundiais, não se ter insurgido a favor das autoridades iranianas nos últimos meses, marcados pelos ataques norte-americanos e israelitas.