Cromos do Mundial

Argentina: Trinche Carlovich, o mito boémio melhor que Maradona e assassinado por causa de uma bicicleta

Trinche Carlovich recusou ir à seleção argentina e registou apenas quatro jogos feitos na primeira divisão do país
Trinche Carlovich recusou ir à seleção argentina e registou apenas quatro jogos feitos na primeira divisão do país

Praticamente não competiu na primeira divisão. Quase não há imagens suas a jogar. Viveu nas catacumbas dos escalões secundários. Mas Bielsa fez-se sócio de um clube só para o ver atuar, Pekerman coloca-o no melhor onze que viu, Valdano classifica-o como “lenda”, Menotti como “um mito”. Não gostava de treinar, não ia a jogos para ir pescar, faltou a uma chamada da seleção. Voltaria a fazer tudo igual, porque desfrutei muito”, garantiu antes de um fim trágico. Carlovich é o trigésimo dos 48 Cromos do Mundial, série que destaca um futebolista excêntrico, ou quase, de cada país que jogará na edição de 2026

Argentina: Trinche Carlovich, o mito boémio melhor que Maradona e assassinado por causa de uma bicicleta

Pedro Barata

Jornalista

Dizem que esteve temporadas inteiras sem que um adversário lhe roubasse a bola. Contam que tinha como especialidade pessoal o caño de ida y vuelta, o túnel com dois sentidos, fazendo a bola passar por entre os pés do adversário, esperando por ele e repetindo o truque. Descrevem um canhoto alto, encorpado, de caminhar lento, técnica requintada.

Fala-se de mil e uma proezas. Que uma vez o relvado estava empapado, impraticável, e ele passou o desafio jogando a bola no ar, sem a deixar cair, acariciando-a, levando-a no peito, no ombro, dando pequenos toques de joelho. Que certa tarde esqueceu-se dos documentos necessários para jogar e foi a equipa contrária a convencer o árbitro a fazer vista grossa, porque queriam testemunhar o artista.

Asseguram que era um pouco como Riquelme, um pouco como Redondo, com uma pitada de Bochini. É recordado por colegas, por adversários, por floristas, camionistas, polícias, pelo povo de Rosário, a sua cidade, terra onde nasceu em 1946 e onde deixaria de jogar em 1986, um ano antes de lá nascer outro canhoto, chamado Lionel Andrés Messi Cuccittini.

É, sobretudo, um produto da palavra. Da memória oral. Do que se diz. Do conto, do verbo, como uma história passada de geração em geração.

É Tomás Felipe Carlovich, el Trinche. Quase não jogou futebol de primeira divisão. Esteve quase sempre no modesto Central Córdoba, o terceiro emblema de Rosário, distante do Central e do Newell's. Praticamente não sobreviveram filmagens suas em campo. É tanto realidade como imaginação, passado concreto e mitificado.

Filho de um imigrante jugoslavo que foi para a Argentina depois da crise de 1929, el Trinche era o menor de sete irmãos. O talento para jogar futebol, perdão, para jogar à bola, era coisa de potrero, de futebol de rua, de futebol com terra no bolso e orgulho na alma. Pausado, vagaroso. Cheio de particularidades.

Era um solitário. Não gostava de treinar, muitas vezes faltando para ir pescar. Não gostava de fazer estágios. Tinham de o acordar da sesta para ir aos jogos. Nutria o ritual de se equipar sozinho, na lavandaria e não no balneário, porque, dizia, gostava de sentir o silêncio, a tranquilidade. Bebia. Vivia muito de noite.

“Hoje joga o Carlovich?”, tornou-se pergunta-código. Porque, muitas vezes, não jogava. Não estava para aí virado. Tinha ido pescar ou ficado a dormir.

O talento, o enorme talento dos que o recordam, pouco ou nada foi visto na elite. “Ele gostava mais de jogar à bola do que de ser profissional”, diz Cesar Luis Menotti, símbolo do futebol estético, artístico, selecionador da Argentina campeã do mundo em 1978. Ainda que o Trinche não estivesse na primeira divisão, Menotti chamou-o, certo dia, para uma pré-convocatória da seleção, tal era o talento.

Carlovich não apareceu.

O amigável que consagrou a lenda

A natureza oral, de coisa contada e não vista, leva Jorge Valdano a apontá-lo como “lenda”, Menotti como “um mito”. Não são os únicos grandes a admirar el Trinche. Bielsa, durante quatro anos, fez-se sócio do central Córdoba só para o ver jogar semanalmente. Pekerman coloca-no no melhor onze que os seus olhos — que treinaram Messi e Falcao, James Rodríguez e Pablo Aimar, Javier Saviola e Juan Román Riquelme — testemunharam.

O momento mais mitificado da vida do mito deu-se pouco antes do Mundial 1974. A seleção argentina que viajaria até à Alemanha realizou um amigável perante um combinado de futebolistas de Rosario, composto por cinco homens do Central, cinco do Newell's e Carlovich. Com o mais modesto dos jogadores ocupando o centro do meio-campo, as cronistas falaram de “um baile” levado pela equipa nacional, uma dança orquestrada pelo Trinche.

Ao intervalo, dirigentes da federação germânica pediram aos responsáveis do conjunto de Rosario que tirassem Carlovich do campo, para não desmotivar a seleção que iria ao Mundial. A vitória, por 3-1, levou, pela única vez, o boémio para as manchetes da imprensa. Colega de circunstância de Karlovich naquele dia, Mario Kempes, que quatro anos depois seria o grande herói do Mundial 1978, ficou seu fã: “Se fosse profissional, teria tido uma carreira enorme. Não respeitava as regras do profissionalismo.”

Após aquele particular, houve fortes rumores de uma transferência para França, também se especulou com a ida para o New York Cosmos, de Pelé. Nada se efetivou. Voltaria a fazer tudo igual, porque desfrutei muito”, garante o filho de jugoslavos.

Viveria as últimas décadas com um andar algo manco, fruto das operações à anca. Não conseguia jogar à bola, mas deslocava-se sempre por Rosario em bicicleta, percorrendo as mesmas ruas de sempre. Até 2020, em plena pandemia. Quatro pessoas tentaram roubar-lhe o meio de transporte velocipédico, Carlovich resistiu e acabou com vários golpes violentos na cabeça. Ficou inconsciente, foi levado para o hospital, não sobreviveu.

Meses antes, praticamente na última aparição pública da sua vida, el Trinche encontrou-se com Diego Armando Maradona. El pibe, que não era homem de falsas modéstias nem de elogios vazios, ofereceu uma camisola a Carlovich, com a seguinte firma: “Do Diego para o Trinche, que foi melhor que eu.”

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