Cromos do Mundial

Nova Zelândia: Wynton Rufer, o devoto que ia morrendo numa trotinete

Wyton Rufer esteve no Mundial de 1982 com a Nova Zelândia
Wyton Rufer esteve no Mundial de 1982 com a Nova Zelândia

A Nova Zelândia esteve presente num Mundial pela primeira vez em 1982. Apurou-se graças aos golos de Wynton Rufer, o jogador que estava perdido em Inglaterra por não poder ser inscrito. Ganhou um novo rumo quando foi conquistado pela religião e até passou a ser um estorvo jogar ao domingo, altura em que preferia estar na igreja. Rufer é o trigésimo primeiro dos 48 Cromos do Mundial, série que destaca um futebolista excêntrico, ou quase, de cada país que jogará na edição de 2026

Estava a ser um dia tranquilo de 2019. A equipa de basquetebol que tinha ido apoiar acabara de conseguir uma vitória e era hora de voltar a casa. O caminho de regresso foi feito de trotinete elétrica na companhia de um amigo de nacionalidade alemã. A aparente descontração não tardaria a ser perturbada.

Um ataque cardíaco fez Wynton Rufer perder o controlo do velocípede numa subida. Tudo o que sabe entre o acidente ocorrido em Auckland e o momento em que acordou na cama do hospital foi-lhe contado por terceiros. Ao ver uma pessoa estendida no chão, um desconhecido saiu do carro e deu início às manobras de reanimação. Quando a ambulância chegou, foi necessário o desfibrilhador entrar em ação três vezes para recuperar os sinais vitais. No hospital, ficou em coma induzido durante um dia e meio. Quando acordou, sentiu-se em “total paz” devido à intervenção de Deus.

Tal como faz com a sobrevivência, o neozelandês atribui igualmente à fé o sucesso da sua carreira, que não começou propriamente por ser muito afortunada. Após se destacar no seu país, Rufer foi chamado a fazer testes no Norwich. Desatou a marcar golos na equipa de reservas, mas nunca chegou a realizar um jogo oficial. Com 18 anos, o clube ofereceu-lhe um contrato profissional, mas problemas com o visto de trabalho complicaram a inscrição e o desenvolvimento da carreira em Inglaterra.

Nesse período conturbado, mesmo com a pouca exposição dos seus desempenhos, a seleção da Nova Zelândia percebeu o que lhe faltava para conseguir o apuramento para o Mundial de 1982. Juntou-se então à equipa e ficou no quarto com Sam Malcolmson, colega que o tentou integrar com recurso ao álcool numa fase em que a devoção religiosa ainda não o impedia de olhar para as tentações da vida.

Em três jogos da qualificação, Wynton Rufer marcou quatro golos e a Nova Zelândia atingiu o primeiro Mundial de sempre. Prometeram-lhe que, se fizesse o golo decisivo no play-off, contra a China, regressaria a Inglaterra na classe executiva do avião. Apesar de tal ter sucedido, a viagem foi feita num assento mais humilde.

Na fase final, a Nova Zelândia jogou contra Escócia, União Soviética e Brasil, somando uns sólidos zero pontos. O avançado seguiu para Espanha, país onde se realizou o torneio, já com contrato assinado com o FC Zurique. Acabaria por passar sete anos no país de nascimento do pai e foi em solo helvético que se rendeu à religião.

Por estar a usufruir do passaporte suíço, Wynton Rufer teve que passar pelo serviço militar. Foi aí que conheceu um soldado do Exército de Salvação, um “movimento internacional que é parte evangélica da Igreja Cristã universal”, como se descrevem no site oficial. Inspirado por esse contacto, começou a ler a Bíblia e a incorporar os seus valores.

Mais tarde, no Werder Bremen, sagrou-se campeão alemão e conquistou a Taça das Taças. Mesmo no mais alto nível, incomodava-o ter jogos ao domingo, dia da semana em que a fé o atraía para a igreja. De qualquer modo, tal estorvo à prática das suas convicções era compensado com o autocolante que utilizava no carro a dizer: “Vendido a Deus.”

Wynton Rufer, o futebolista do século da Oceânia, viria a terminar a carreira na Nova Zelândia. Embora tivesse capacidade para continuar na Europa, sentiu um chamamento de Deus que lhe dizia para regressar.

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