Marrocos: Hassan e os golos que recusaram o Boca Juniors e fizeram Preud’homme insultá-lo


Editor
Dá para imaginar o bigode de Paco Fortes a estremecer com a diatribe, cheio de tremeliques de irritação.
O autocarro do Farense ia partir, era sábado, de Faro a Aveiro ainda é uma barrigada de quilómetros e convém ir com calma, igualmente com tempo, quando se tem um jogo no dia seguinte. Hassan Nader foi ter com o treinador pois a chegar estava o seu filho, pronto a sair da barriga da mãe nesse dia. O avançado não queria viajar já, preferia esperar pelo parto, o treinador pouco se empatizou. “O Paco a espumar da boca, louco pela minha intrasigência. ‘Vocês, marroquinos, são todos doidos varridos’”, contou, tantos anos mais tarde.
O novelo da confidência ao jornalista Rui Miguel Tovar, publicada no “MaisFutebol”, desenrolou-se a favor do marroquino. O herdeiro veio ao mundo ia a tarde a meio, o pai Hassan viu-lhe as feições, do hospital enfiou-se num carro no mesmo dia e estrada fora acelerou até se juntar à equipa em Aveiro sem que a delonga impedisse a diligência do costume: no domingo jogou a titular e marcou um golo.
Foi um dos 108 que deixou no Farense, onde a sua história se confunde com a do clube abeirado da Ria Formosa e só depois da língua de mar que tem Marrocos lá ao longe.
No país nortenho de África nasceu Hassan Nader, de jeito estimulado para a bola pelas ruas de Casablanca onde não podia perder o tino aos ponteiros do relógio para regressar a casa antes que o pai voltasse do trabalho, insistente em que os filhos se mantivessem à margem do futebol. Hassan ia às escondidas ao clube do bairro, jogava, os golos entravam, mas ai dele se o progenitor soubesse da dedicação que virou séria quando a sua reputação cresceu além quarteirão. “Tornei-me famoso no bairro.” E o pai, sabendo da vida dupla, afinal, achou graça, levando-o às captações do WAC Casablanca.
Ficou num dos grandes de Marrocos mal o viram, mas a primeira aparição no clube entretanto mudado de nome (Wydad) não durou. O pai morreu pouco depois, o pranto desolou Hassan. Saiu do WAC, retornou à equipa do bairro, não quis saber de levar o futebol mais a sério até cumprir 16 anos, idade demasiada para se entrar na formação, não que o tempo que o avançado precisou para o seu luto o prejudicasse.
A pressa pelo golo fez-lhe companhia na equipa principal, onde conquistou duas ligas marroquinas e foi quem mais golos marcou, por três épocas, no principal campeonato do país. Por este tipo de proezas saliva o futebol e aqui Hassan diz que sim, também que não, às benesses do passa-palavra.
O guarda-redes Zaki, dono da baliza de Marrocos e com quem Hassan jogara no WAC, entretanto mudou-se para o Mallorca, falou do avançado aos dirigentes, estes deitaram olho à sugestão e contrataram-no para jogar na maior das Ilhas Baleares. A bola que pôs o clube nas ‘meias’ da Copa del Rey foi chutado por ele, dali foi um pulo rumo à final perdida para o Atlético de Madrid, em 1991, com Paulo Futre a capitão e esse seria o expoente de Nader nas duas temporadas em Espanha, que poderia ter sido um entreposto para Buenos Aires: tinha um vizinho, dono de pizzaria, “com ligações” ao Boca Juniors, que lhe dizia “vais ser o primeiro jogador de cor a jogar no Boca”.
Não foi porque Hassan não quis. Olhou para o mapa e “era muito longe”, contou ao “MaisFutebol” quem então se entretinha mais com o dicionário, devoto a aprender espanhol.
Faro ficava mais em mão. O marroquino rumou ao Algarve e em 1994/95 marcou 21 golos no campeonato pelo Farense, ganhando a Bota de Prata, arrumando-a com jeito na prateleira emocional de quem, um ano antes, estivera no Mundial dos EUA a marcar à Holanda na fase de grupos. Ainda mais especial foi por apenas ter feito mais sete pela seleção em 29 internacionalizações.
Em Portugal conheceu a abundância que compensou a sua parcimónia com Marrocos, em especial ornado com o branco do Farense. O seu faro para estar no sítio certo e rematar à baliza sem grandes diligências, nem delongas com a bola, valeu-lhe 108 golos - 94 só no campeonato - pela equipa com abrigo no Estádio de São Luís, ou o ‘Inferno’ como era conhecido pelo seu ambiente, incluindo a proeza de marcar em casa dos três grandes.
Custou-lhe largar o castelhano e assentar no português sem falar numa mescla dos dois idiomas. “Consegui adaptar-me rapidamente, chamavam-me ‘o espanhol’, mas a língua ajudou-me muito. Encontrei uma grande equipa com grandes jogadores. O estádio estava sempre cheio, tínhamos uma claque que sempre nos apoiava”, resumiria Hassan Nader à “RTP“, ao lembrar um conjunto “de raça e qualidade”. Tão bem se deu no Farense que o Benfica contratou-o em 1995, mas não teve o mesmo sucesso, regressando ao Algarve dois anos depois.
Ao FC Porto marcou um par de golos, ambos nas Antas e no mesmo jogo, contra o Sporting fez um em Alvalade e, quando o adversário foi o Benfica, deixou meia-dúzia de golos nos relvados. Tinha queda para proporcionar desfeitas aos encarnados e três desses remates que o fizeram sorrir ultrapassaram Michel Preud’homme, lenda de luvas que o clube contratara após o mesmo Campeonato do Mundo onde Hassan deixou um golo.
O belga achava pouca graça à veleidade. “O guarda-redes mais engraçado para marcar golos era o Preud’homme. Passava-se completamente. Ouvia-o lá ao longe a dizer ‘marroquino de mer**‘. Era só rir“, descreveu o avançado ao “MaisFutebol”, sem fazer caso dos insultos, guardando o belga como “gente boa”. Gente foi o que Hassan Nader deu também a Portugal: os seus filhos nasceram em Faro, um deles virou futebolista, e é tio é de Isaac, que ainda se atreveu a seguir o exemplo na bola mas acabou a ser campeão mundial dos 1500 metros de atletismo.
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