Cromos do Mundial

Curaçau: Kenji Gorré, o viciado em casinos que apanhava as bolas de Ronaldo e se tornou mental coach

Kenji Gorré tem seis golos marcados em 37 internacionalizações por Curaçau
Kenji Gorré tem seis golos marcados em 37 internacionalizações por Curaçau

No Manchester United, Kenji Gorré apanhava as bolas que Cristiano Ronaldo chutava para fora quando estava a treinar livres. Apesar de ter sido dispensado dos red devils por Alex Ferguson, tornou-se um nome conhecido do futebol português. Veio para a Madeira por convite de um ministro e foi nessa fase que se tornou internacional pelo país mais pequeno de sempre a ir a um Mundial. Gorré é o trigésimo quarto dos 48 Cromos do Mundial, série que destaca um futebolista excêntrico, ou quase, de cada país que jogará na edição de 2026

Alex Ferguson mandou-o entrar no gabinete. O jovem de 18 anos passou a porta acanhado por enfrentar alguém com uma aura infinita e o título de Sir. O treinador tinha algo para partilhar. Kenji Gorré tinha chegado à fase da carreira em que poucos são retidos pela peneira dos grandes clubes, um momento de transição entre a formação e o futebol sénior que pode encrencar a fluidez do percurso.

A lenda do Manchester United fez a cama: elogiou o caráter e o caminho feito pelo jogador até ali. Kenji Gorré foi-se apercebendo do conteúdo progressivamente dramático da conversa. Alex Ferguson chegaria ao ponto que tinha motivado o encontro: o extremo não tinha hipóteses de continuar nos red devils.

Kenji Gorré conteve o choro até ao carro. Nessa zona segura, desfez-se em lágrimas. O clube da sua vida, onde tinha preferido ficar mesmo após o interesse demonstrado por Chelsea e Arsenal, deu-lhe uma nega. De lá partiu para ir somar minutos no Swansea, do País de Gales.

Quando chegou a Inglaterra tinha apenas cinco anos. Nascido nos Países Baixos, foi transportado na bolsa do canguru da carreira do pai. Dean Gorré, também ele jogador, mudou-se do Ajax para o Huddersfield e levou a família a reboque.

Entre os seis e os nove anos, Kenji teve a invulgar possibilidade de jogar ao mesmo tempo pelo Manchester City e o Manchester United. Quando foi obrigado a fazê-lo, optou pelo clube marcado pelos padrões de qualidade elevados estabelecidos pelo homem que o viria a dispensar.

Em Portugal, representou o Nacional, o Estoril e o Boavista
Octavio Passos

Entre outros aspetos, a cultura manifestava-se na proximidade que os jogadores da formação tinham com os da equipa principal. Ele era demasiado novo para treinar com o rol de estrelas que o Manchester United tinha na altura, algo que viria acontecer mais tarde. No entanto, era maduro o suficiente para se colocar atrás da baliza enquanto Cristiano Ronaldo cobrava livres e apanhava as bolas tergiversadas pelo português.

A mudança para o Swansea permitiu a Kenji Gorré estrear-se na Premier League. Ser um jogador com esse estatuto expô-lo a outras tentações que geralmente tornam falível um jovem com dinheiro. Foi nessa fase de deslumbramento que molhou os pés no vício. Embora não gastasse quantias exorbitantes de uma só vez, deu por si a fazer a roleta girar todos os dias.

“Não eram milhares de libras todos os dias, mas eu perdia cem aqui, duzentas ali. Felizmente, não eram quantias enormes, mas eu sei que era viciado em frequentar casinos”, contou à revista neerlandesa “Voetbal International”. Antes de ter dívidas intoleráveis, leu os sinais ao redor. A relação com a namorada ficou por um fio, acabando remediada graças à revisão de comportamentos.

Kenji Gorré voltaria a encontrar-se com Cristiano Ronaldo. Cruzaram-se inesperadamente no aeroporto da Madeira. Quando aterrou para assinar pelo Nacional, lá estava o busto do internacional português para o receber. No momento da chegada a Portugal, percebeu duas coisas: que CR7 era madeirense e que a Madeira é uma ilha.

A transferência do Swansea para o Nacional contou com intervenção de um ministro. Costinha era treinador da equipa insular e convidou diretamente o atacante para se juntar ao clube. Kenji Gorré ficou particularmente impressionado com o currículo do técnico, vencedor da Liga dos Campeões com o FC Porto.

A mudança drástica de ambiente desbloqueou novas áreas de interesse. Foi na Madeira que se tornou mental coach, tendo mesmo criado um projeto chamado “On The Ball” onde jogadores e especialistas de várias áreas davam palestras a desportistas profissionais em busca de robustecerem conhecimentos. Assim, adotou um mindset para ter um melhor lifestyle e ser a melhor versão de si mesmo, contagiando quem o rodeia com boas energias, de modo a que todos possam desbloquear o seu máximo potencial.

Kenji cresceu em Inglaterra por causa do pai, Dean Gorré
VI-Images

Foi durante o período que passou no Nacional que foi convocado pela primeira vez para a seleção de Curaçau. A aventura chegou ao auge. A ilha do Caribe estará representada no Mundial 2026 e será o país mais pequeno de sempre a participar na competição. Durante a qualificação, Kenji Gorré contribuiu com três golos e uma assistência para essa histórica caminhada.

Atento à diáspora como fonte de recrutamento de jogadores, Curaçau conseguiu um feito significativo que vai testar a equipa num contexto de exigência máxima. Num dos poucos jogos frente a seleções de maior nível que teve oportunidade de realizar, o país fez de bombo da festa na primeira aparição da Argentina após se sagrar campeã do mundo em 2022. A alviceleste encheu-se com sete golos sem resposta.

Durante a carreira, Kenji Gorré explorou também o Nacional e o Boavista, antes de rumar ao estrangeiro. Passou pelo Umm-Salal e atualmente representa os israelitas do Maccabi Haifa.

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