Cromos do Mundial

Chéquia: Jan Koller, o gigante mecânico de tratores que virou goleador e a quem chamavam dinossauro

Com 2,02 metros, Koller começou como guarda-redes mas brilhou como avançado
Com 2,02 metros, Koller começou como guarda-redes mas brilhou como avançado

Foi parar ao Sparta Praga por acaso e só na Bélgica explodiu como marcador de golos. Com 2,02 metros, Jan Koller começou como guarda-redes, chegou a trabalhar numa oficina mas é, ainda hoje, o melhor marcador da história da seleção da Chéquia. Koller é o trigésimo quinto dos 48 Cromos do Mundial, série que destaca um futebolista excêntrico, ou quase, de cada país que jogará na edição de 2026

Na pequena vila de Smetanova Lhota viviam 299 pessoas e um gigante. A caminho dos seus 2,02 metros finais, Jan Koller não passava despercebido na sua terra natal, uma hora e meia a oeste de Praga, onde, diz-se, havia mais vacas do que carros. Koller começou, sem surpresa, a jogar como guarda-redes no clube local e por ali continuou, pouco notado a não ser pelo tamanho, até aos 16 anos, quando se mudou para o não menos modesto Milevsko. Aí um treinador resolveu, num ato de fé, colocá-lo na frente. E dali não mais saiu.

Mas Koller estava ainda longe de imaginar o que aí viria: um título alemão pelo Borussia Dortmund, a titularidade na seleção da Chéquia, o título de melhor marcador da história do seu país, que ainda lhe pertence, com 55 golos em 91 jogos. Nessa altura, o agora avançado ainda ia dividindo os seus dias entre o futebol e um emprego numa quinta, onde arranjava tratores.

O profissionalismo chegou tarde, com apenas 21 anos, já no gigante Sparta Praga, onde começou a jogar por acaso. Num período em que se encontrava na capital checa, precisava de um sítio para continuar a treinar e o clube recebeu-o. Pouco depois deu-lhe um lugar na equipa de reservas. Desses tempos lembrou numa entrevista a um jornal húngaro o seu primeiro carro, “um velho Škoda” que estava proibido de estacionar junto aos automóveis dos restantes jogadores da equipa, “por ser tão feio”. Mas também as dificuldades que sentiu num ambiente em que nem sempre se sentiu bem-vindo: “Tive de aprender praticamente tudo no que diz respeito a ser um futebolista profissional.”

A festejar um golo no Dragão, no emocionante Chéquia-Países Baixos do Euro 2004
Shaun Botterill

Mesmo sem ser um matador, Koller acabou por ser notado pelo Lokeren da Bélgica, para onde se mudou em 1996, ainda com cabelo. Na última época no clube da Flandres explodiu: 27 golos em 38 jogos. Seguiu-se uma transferência para o Anderlecht, onde continuou a marcar em barda. A imprensa belga cunhou-lhe o apodo “De Helikopter” - o helicóptero - pela forma como pairava acima dos defesas.

Já depois de se ter estreado pela seleção em grandes competições, no Euro 2000, chegou a hora de decidir entre dois grandes campeonatos: a Premier League ou a Bundesliga. O Fulham queria-o em Craven Cottage, mas Koller seguiria para Dortmund, onde já estava o seu jovem compatriota Tomáš Rosický.

O regresso à baliza

No Borussia Dortmund foi campeão logo na primeira época, em 2001/02, num plantel em que conviviam a experiência alemã de Jurgen Kohler e Stefan Reuter com a chispa brasileira de Dedê, Ewerthon ou Márcio Amoroso. E seriam os brasileiros do Dortmund, numa entrevista à ESPN, a revelar que Koller calçava chuteiras número 54. Partiu também do grupo de canarinhos a alcunha pela qual o checo passou a ser conhecido: “Dino”. De dinossauro, claro.

Depois, num tom mais sério, Ewerthon e Amoroso falariam também das qualidades futebolísticas do gigante, que era muito mais do que um cabeceador. De como, apesar da altura e de ser aparentemente desengonçado, Koller conseguia matar bolas no peito na perfeição e criava espaços para os colegas, pensando sempre no coletivo. “Para mim, era o melhor da equipa”, atirou Ewerthon.

No Borussia Dortmund, Koller foi ganhando o estatuto de jogador de culto, mais ainda quando em novembro de 2002 foi chamado a reviver o passado: num encontro frente ao Bayern Munique, Jens Lehmann foi expulso numa altura em que o Borussia já tinha esgotado as substituições. Jan Koller vestiu a camisola de guarda-redes e recuou para a baliza. A sua equipa perdeu por 2-1, mas o checo não sofreu qualquer golo nos 20 minutos em que guardou as redes do Dortmund. Como reconhecimento, foi eleito o guarda-redes da jornada pela revista “Kicker”.

No dia em que foi obrigado a voltar à baliza, nos tempos do Borussia Dortmund, em 2002
Stuart Franklin

Numa entrevista à mesma publicação, em 2023, Koller recordou a saída algo traumática da Bundesliga, quando em 2006 se mudou para o Mónaco: “A minha família queria uma experiência diferente. Além disso, tínhamos sido roubados cinco vezes em Dortmund e já não nos sentíamos seguros. Eu tinha medo de deixar a minha mulher em casa sozinha quando viajava para os jogos fora.”

No Mónaco não seria tão decisivo quanto em Dortmund ou na seleção da Chéquia, onde fez parelha de luxo com Milan Baroš na frente de ataque no Euro 2004, o pináculo daquela geração que só a Grécia travou nas meias-finais, antes de fazer chorar Portugal. Ano e meio depois voltou à Bundesliga, a um Nuremberga em risco de descer, algo que classificaria mais tarde como “um grande erro”.

Isto porque, de regresso ao Westfalenstadion, e depois de um empate sem golos em casa da sua antiga equipa, Koller foi chamado à bancada sul para receber o carinho dos adeptos do Borussia. Os adeptos do Nuremberga não gostaram, insultaram o jogador e a relação ficou quebrada. Quando se confirmou a descida de divisão, Koller, visto como um dos responsáveis do infortúnio, foi obrigado a meter-se na bagageira do carro da mulher de um colega para escapar da fúria da claque. Com a sua altura, não deve ter sido fácil.

Seguiu-se então uma passagem sem história pela Rússia, no Krylya Sovetov, e pelo Cannes, do terceiro escalão francês, antes do adeus aos relvados em 2012.

Em 2022, foi tema de documentário, de seu nome “Jan Koller - A História de um Rapaz Comum”, ainda que de comum a sua história tenha pouco. Um ano depois, por altura do seu 50º aniversário, revelou à “Kicker” que ser treinador não estava nos seus planos. Trabalhava então como comentador televisivo e como scout em França. Os últimos relatos falam de como tem sido estrela em encontros de lendas do Borussia Dortmund.

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