Arábia Saudita: Majed Abdullah foi o “Pelé do Deserto” e rei de Riade antes de Cristiano Ronaldo
Majed Abdullah dedicou toda a vida ao Al Nassr em mais de 20 anos de carreira
O melhor marcador da história da seleção da Arábia Saudita ainda é, também, a maior figura do Al Nassr. Com a camisola amarela, marcou mais de 300 golos e ganhou seis títulos nacionais. Avançado com técnica, faro de golo e capacidade de drible, no Mundial de 1994 os media ocidentais viram nele uma encarnação de Pelé, ainda que ele não se achasse digno de tal comparação. Abdullah éo trigésimo sétimo dos 48 Cromos do Mundial, série que destaca um futebolista excêntrico, ou quase, de cada país que jogará na edição de 2026
Tempos houve em que não era Cristiano Ronaldo o nome gritado no estádio do Al Nassr, que não era o português o combustível da paixão do clube de Riade, que acaba de se sagrar campeão saudita. Majed Abdullah não foi campeão do seu país uma, duas ou três vezes: foram seis os títulos e uma vida dedicada ao Al Nassr, de 1977 a 1998, sem passagens rápidas por outros clubes ou enamoramentos pelo estrangeiro.
Ronaldo, sabemos, adora um bom recorde, mas terá de suar as estopinhas e mais umas quantas camisolas do Al Nassr para apanhar aquele a que chamavam “o Pelé do Deserto”. Nas mais de duas décadas vestido de amarelo, Abdullah marcou qualquer coisa como 259 golos, 320 contando com jogos de preparação. O português, cuja produção é indubitavelmente mais rápida, tem 129 remates certeiros, longe daquele que ainda hoje é visto como uma espécie de figura primordial do futebol saudita, dos tempos do romantismo, sem dinheiro de fundos soberanos, petróleo e quejandos.
Dotado de uma técnica crua e de uma capacidade inata de marcar golos, Majed Abdullah, que até nasceu em Jedá, há 67 anos, e não na capital saudita, foi protagonista em momentos históricos e inéditos do futebol do país, como a qualificação para a estreia em Mundiais, em 1994, e nas duas vitórias na Taça da Ásia, em 1984 e 1988. Em 1984, marcou também o único golo dos sauditas nos Jogos Olímpicos de Los Angeles. É, ainda hoje, o melhor marcador da seleção saudita, com 72 golos em 117 jogos.
Captain Majed
A família de Majed Abdullah mudou-se para Riade para acompanhar o pai, treinador de futebol. Majed até começou na baliza, mas a sua relação com as redes não seria de defendê-las, mas sim de abaná-las. Começou no Al Nassr, onde o pai era técnico, assinando o primeiro contrato aos 16 anos, em 1975. Cinco anos mais tarde seria decisivo para o Al Nassr conquistar o seu primeiro campeonato saudita.
Um verdadeiro rei entre portas, Abdullah mantinha e mantém uma pose discreta. Era homem de poucas falas e muitos golos, com uma aura quase mitológica. Reza a lenda que na adaptação árabe da célebre série “Captain Tsubasa” - que por cá, anos depois de passar a versão original japonesa, recebeu o inexplicável nome de “Oliver e Benji” -, a personagem principal recebeu o nome de Majed em homenagem ao avançado.
Majed Abdullah durante a final da Liga dos Campeões da Ásia 2, cuja final o Al Nassr perdeu
Yasser Bakhsh
Numa era onde o futebol ainda batia à porta da verdadeira internacionalização, o ocidente só apreciou verdadeiramente Abdullah quando o avançado, já numa fase avançada da carreira, ajudou a Arábia Saudita a qualificar-se para o Mundial de 1994, nos Estados Unidos. É daí que vem a alcunha “Pelé do Deserto”, dada pela imprensa internacional ao jogador quando notaram a sua capacidade de drible, de encarar os adversários, o golo fácil e a liderança natural.
O atacante não se achava digno de tal apodo. Seria na fase de grupos desse Campeonato do Mundo, frente à Bélgica, que jogaria pela última vez pela sua seleção.
Daí para cá, e com o futebol da Arábia Saudita noutro patamar mediático, Abdullah tornou-se uma figura silenciosa, mas cuja opinião é ouvida e respeitada. Foi alvo de homenagens e até de uma produção teatral biográfica - “The Flaming Arrow” fala da sua relação com o povo e da sua carreira.
A ascensão de Cristiano Ronaldo como figura do Al Nassr não lhe causou mágoa ou despeito, mas apenas palavras de admiração. Quando o português bateu o recorde de mais golos numa só temporada na Arábia Saudita em 2023/24, sublinhou que era “um exemplo a seguir” e que estava feliz pelas conquistas do capitão da seleção nacional: “A idade tem um papel secundário no desempenho de um jogador quando a paixão está presente”, disse, citado pela imprensa local.