Arábia Saudita: Majed Abdullah foi o “Pelé do Deserto” e rei de Riade antes de Cristiano Ronaldo


Jornalista
Tempos houve em que não era Cristiano Ronaldo o nome gritado no estádio do Al Nassr, que não era o português o combustível da paixão do clube de Riade, que acaba de se sagrar campeão saudita. Majed Abdullah não foi campeão do seu país uma, duas ou três vezes: foram seis os títulos e uma vida dedicada ao Al Nassr, de 1977 a 1998, sem passagens rápidas por outros clubes ou enamoramentos pelo estrangeiro.
Ronaldo, sabemos, adora um bom recorde, mas terá de suar as estopinhas e mais umas quantas camisolas do Al Nassr para apanhar aquele a que chamavam “o Pelé do Deserto”. Nas mais de duas décadas vestido de amarelo, Abdullah marcou qualquer coisa como 259 golos, 320 contando com jogos de preparação. O português, cuja produção é indubitavelmente mais rápida, tem 129 remates certeiros, longe daquele que ainda hoje é visto como uma espécie de figura primordial do futebol saudita, dos tempos do romantismo, sem dinheiro de fundos soberanos, petróleo e quejandos.
Dotado de uma técnica crua e de uma capacidade inata de marcar golos, Majed Abdullah, que até nasceu em Jedá, há 67 anos, e não na capital saudita, foi protagonista em momentos históricos e inéditos do futebol do país, como a qualificação para a estreia em Mundiais, em 1994, e nas duas vitórias na Taça da Ásia, em 1984 e 1988. Em 1984, marcou também o único golo dos sauditas nos Jogos Olímpicos de Los Angeles. É, ainda hoje, o melhor marcador da seleção saudita, com 72 golos em 117 jogos.
A família de Majed Abdullah mudou-se para Riade para acompanhar o pai, treinador de futebol. Majed até começou na baliza, mas a sua relação com as redes não seria de defendê-las, mas sim de abaná-las. Começou no Al Nassr, onde o pai era técnico, assinando o primeiro contrato aos 16 anos, em 1975. Cinco anos mais tarde seria decisivo para o Al Nassr conquistar o seu primeiro campeonato saudita.
Um verdadeiro rei entre portas, Abdullah mantinha e mantém uma pose discreta. Era homem de poucas falas e muitos golos, com uma aura quase mitológica. Reza a lenda que na adaptação árabe da célebre série “Captain Tsubasa” - que por cá, anos depois de passar a versão original japonesa, recebeu o inexplicável nome de “Oliver e Benji” -, a personagem principal recebeu o nome de Majed em homenagem ao avançado.
Numa era onde o futebol ainda batia à porta da verdadeira internacionalização, o ocidente só apreciou verdadeiramente Abdullah quando o avançado, já numa fase avançada da carreira, ajudou a Arábia Saudita a qualificar-se para o Mundial de 1994, nos Estados Unidos. É daí que vem a alcunha “Pelé do Deserto”, dada pela imprensa internacional ao jogador quando notaram a sua capacidade de drible, de encarar os adversários, o golo fácil e a liderança natural.
O atacante não se achava digno de tal apodo. Seria na fase de grupos desse Campeonato do Mundo, frente à Bélgica, que jogaria pela última vez pela sua seleção.
Daí para cá, e com o futebol da Arábia Saudita noutro patamar mediático, Abdullah tornou-se uma figura silenciosa, mas cuja opinião é ouvida e respeitada. Foi alvo de homenagens e até de uma produção teatral biográfica - “The Flaming Arrow” fala da sua relação com o povo e da sua carreira.
A ascensão de Cristiano Ronaldo como figura do Al Nassr não lhe causou mágoa ou despeito, mas apenas palavras de admiração. Quando o português bateu o recorde de mais golos numa só temporada na Arábia Saudita em 2023/24, sublinhou que era “um exemplo a seguir” e que estava feliz pelas conquistas do capitão da seleção nacional: “A idade tem um papel secundário no desempenho de um jogador quando a paixão está presente”, disse, citado pela imprensa local.
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