Cromos do Mundial

Áustria: Matthias Sindelar, o ‘homem de papel‘ vigiado pelos nazis e assombrado por uma morte misteriosa

Matthias Sindelar jogou com a 'Wunderteam' da Áustria no Mundial de 1934, indo até às meias-finais
Matthias Sindelar jogou com a 'Wunderteam' da Áustria no Mundial de 1934, indo até às meias-finais

Brilhou pela Wunderteam, a fantástica seleção da Áustria dos anos 30, com um futebol cerebral e criativo. Depois do Anschluss, recusou-se a representar a equipa da Alemanha nazi, estragando um diplómatico empate no encontro feito para celebrar a anexação. Acabaria por falecer em condições suspeitas, abrindo décadas de especulação sobre as causas da inalação do monóxido de carbono que o vitimou. Sindelar é o trigésimo oitavo dos 48 Cromos do Mundial, série que destaca um futebolista excêntrico, ou quase, de cada país que jogará na edição de 2026

Áustria: Matthias Sindelar, o ‘homem de papel‘ vigiado pelos nazis e assombrado por uma morte misteriosa

Pedro Barata

Jornalista

Classificar Matthias Sindelar como um declarado opositor do regime nazi seria um exagero. Dizer que se tratou de um dissidente ou de um vocal crítico seria fugir à verdade. Ainda assim, as frases anteriores não impedem que se tenha tornado um símbolo de recusa, um emblema da não colaboração. Fonte de orgulho pátrio, de orgulho austríaco.

O momento fundamental deu-se a 3 de abril de 1938. Sindelar fora o grande futebolista da Áustria da década anterior, obtendo fama e admiração internacionais. Contava já 35 anos, não se encontrava no auge, aqueles já não eram tempos do fulgor vivido previamente, quando a equipa por si capitaneada chegou a marcar 101 golos em 31 encontros nos três anos até ao Mundial 1934. Mas, a 3 de abril de 1938, Sindelar mantinha-se líder, referência.

O Anschluss, a anexação da Áustria pela Alemanha de Hitler, dera-se semanas antes. Para o celebrar, as autoridades nazis organizaram o Anschlusspiel, ou jogo da anexação. No estádio Prater, em Viena, a equipa da casa tinha como missão sorrir perante o seu próprio funeral.

Seria o último encontro da Áustria até ao fim da Segunda Guerra Mundial. Uma das melhores seleções de então, semi-finalista no Campeonato do Mundo em 1934, medalha de prata nos Jogos Olímpicos 1936, era absorvida pela Alemanha, passando os seus jogadores a serem selecionáveis para o conjunto do país invasor. A Áustria tinha presença garantida no Mundial que teria lugar pouco depois daquele 3 de abril de 1938, mas, apagada da competição, não chegaria a colocar um pé em França.

A ocasião pedia um diplomático empate. E, a partir deste ponto, as crónicas daquele dia tornam-se mais discordantes entre si, a história ganha asas e vida própria ao longo das décadas.

Há jornais do dia seguinte que escrevem que a equipa austríaca, superior, desperdiçou propositadamente várias ocasiões de golo na primeira parte. Até que, a 20 minutos do fim, Sindelar e Karl Sesta, seu colega, fartaram-se do desperdício. A Áustria ganhou 2-0. Nos tais relatos de veracidade difícil de verificar, entre o real e o mitificado, há quem assegure que Sindelar celebrou efusivamente em frente de uma tribuna cheia de dirigentes nazis.

Os meses seguintes acentuaram a narrativa de pouca simpatia da estrela com os novos governantes do país. Em agosto, comprou um café que era de Leopold Drill, um judeu que, de acordo com a nova legislação, não podia ser dono daquele negócio, pagando-lhe uma generosa quantia. Como gerente do espaço, Sindelar foi sempre muito pouco lesto a seguir as ordens para colar cartazes de promoção nazi.

A Gestapo tinha um ficheiro sobre ele. O seu café era vigiado. Descreviam-no como social-democrata e pró-judeu, conexão ampliada por jogar no Áustria Viena, o clube da burguesia judaica, e ser originalmente da Morávia — nasceu Matěj Šindelář, num território hoje integrado na Chéquia e então parte do império Austro-Húngaro, tendo-se mudado para Viena aos dois anos e visto o seu nome ser germanizado —, região de onde muitos judeus foram para a grande cidade imperial, mas a sua família era católica.

O mito do génio dissidente, do não alinhado com os horrores de Hitler, adquiriu outra dimensão a 23 de janeiro de 1939. Gustav Hartmann, amigo de Sindelar, entrou no apartamento de Camila Castagnola, sua namorada, e encontrou o casal sem vida. A justificação oficial foi inalação de monóxido de carbono, veredicto aceite pela polícia após dois dias de investigações. É fácil pensar como os parágrafos anteriores se conjugam com esta morte, aos 36 anos, para que as conspirações e teorias ganhem dimensão.

Friedrich Torberg, escritor austríaco, dedicou-lhe um poema em que sugeria que Sindelar se suicidara, tendo como causa dessa fatal decisão o Anschluss. Num documentário da BBC, um amigo do jogador apoia este tese, justificando a pressa com o fim das investigações oficiais com a vontade que os nazis tinham em classificar o sucedido como um acidente, para que pudesse haver um funeral digno - segundo as normas nazis, quem se suicidasse não poderia ter cerimónias fúnebres com honras de Estado - e não criar um mártir.

A ideia de assassinato também tem os seus partidários. O que parece factual é que, dias antes da morte de Sindelar e da namorada, um vizinho queixara-se de uma chaminé com defeito, apontada como culpada da morte do casal.

A Wunderteam

O talento de Matthias para a bola levou-o, aos 15 anos, para o Hertha Vienna. De lá foi para o Áustria Viena, onde foi campeão, triunfou na Taça, ergueu a Taça Mitropa, um dos primeiros torneios internacionais de clubes, juntando húngaros, checoslovacos, italianos, jugoslavos e austríacos

Avançado habilidoso, o físico frágil era compensado pela técnica, a agilidade e a inteligência. “Tinha um cérebro nas pernas”, escreveu o crítico de teatro Alfred Polgar. No pós-Primeira Guerra Mundial, falar de futebol nos cafés de Viena era uma importante tendência cultural, discutindo-se o jogo, táticas, estilo. Sindelar era o apogeu do ADN dominante, o triunfo do cérebro sobre o músculo, fantasista, imaginativo. Chamavam-lhe o ‘homem de papel‘, pela fraca estrutura física, ou o ‘Mozart do futebol‘.

A idiossincrasia dos cafés, aquela explosão intelectual em torno da bola, encontrou expressão coletiva na Wunderteam, a seleção nacional. Com flexibilidade de movimentos e um estilo de passes curtos, influenciou os húngaros, anos depois, e, indiretamente, teve ramificações na Holanda do futebol total e no Barcelona e na Espanha de muitas décadas posteriores.

Sindelar, o grande herói daquela era de ouro, ganharia, em 1999, uma votação para eleger o melhor futebolista - e desportista - austríaco do século.

A sua carreira internacional fechou-se com o Anschluss. Foi sempre dando desculpas para não atuar pela seleção unificada. Jamais representou outra equipa nacional que não a sua. Se os nazis o calaram ou taparam a sua decisão fatal será questão que, possivelmente, jamais terá resposta.

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