Classificar Matthias Sindelar como um declarado opositor do regime nazi seria um exagero. Dizer que se tratou de um dissidente ou de um vocal crítico seria fugir à verdade. Ainda assim, as frases anteriores não impedem que se tenha tornado um símbolo de recusa, um emblema da não colaboração. Fonte de orgulho pátrio, de orgulho austríaco.
O momento fundamental deu-se a 3 de abril de 1938. Sindelar fora o grande futebolista da Áustria da década anterior, obtendo fama e admiração internacionais. Contava já 35 anos, não se encontrava no auge, aqueles já não eram tempos do fulgor vivido previamente, quando a equipa por si capitaneada chegou a marcar 101 golos em 31 encontros nos três anos até ao Mundial 1934. Mas, a 3 de abril de 1938, Sindelar mantinha-se líder, referência.
O Anschluss, a anexação da Áustria pela Alemanha de Hitler, dera-se semanas antes. Para o celebrar, as autoridades nazis organizaram o Anschlusspiel, ou jogo da anexação. No estádio Prater, em Viena, a equipa da casa tinha como missão sorrir perante o seu próprio funeral.
Seria o último encontro da Áustria até ao fim da Segunda Guerra Mundial. Uma das melhores seleções de então, semi-finalista no Campeonato do Mundo em 1934, medalha de prata nos Jogos Olímpicos 1936, era absorvida pela Alemanha, passando os seus jogadores a serem selecionáveis para o conjunto do país invasor. A Áustria tinha presença garantida no Mundial que teria lugar pouco depois daquele 3 de abril de 1938, mas, apagada da competição, não chegaria a colocar um pé em França.
A ocasião pedia um diplomático empate. E, a partir deste ponto, as crónicas daquele dia tornam-se mais discordantes entre si, a história ganha asas e vida própria ao longo das décadas.
Há jornais do dia seguinte que escrevem que a equipa austríaca, superior, desperdiçou propositadamente várias ocasiões de golo na primeira parte. Até que, a 20 minutos do fim, Sindelar e Karl Sesta, seu colega, fartaram-se do desperdício. A Áustria ganhou 2-0. Nos tais relatos de veracidade difícil de verificar, entre o real e o mitificado, há quem assegure que Sindelar celebrou efusivamente em frente de uma tribuna cheia de dirigentes nazis.
Os meses seguintes acentuaram a narrativa de pouca simpatia da estrela com os novos governantes do país. Em agosto, comprou um café que era de Leopold Drill, um judeu que, de acordo com a nova legislação, não podia ser dono daquele negócio, pagando-lhe uma generosa quantia. Como gerente do espaço, Sindelar foi sempre muito pouco lesto a seguir as ordens para colar cartazes de promoção nazi.
A Gestapo tinha um ficheiro sobre ele. O seu café era vigiado. Descreviam-no como social-democrata e pró-judeu, conexão ampliada por jogar no Áustria Viena, o clube da burguesia judaica, e ser originalmente da Morávia — nasceu Matěj Šindelář, num território hoje integrado na Chéquia e então parte do império Austro-Húngaro, tendo-se mudado para Viena aos dois anos e visto o seu nome ser germanizado —, região de onde muitos judeus foram para a grande cidade imperial, mas a sua família era católica.
O mito do génio dissidente, do não alinhado com os horrores de Hitler, adquiriu outra dimensão a 23 de janeiro de 1939. Gustav Hartmann, amigo de Sindelar, entrou no apartamento de Camila Castagnola, sua namorada, e encontrou o casal sem vida. A justificação oficial foi inalação de monóxido de carbono, veredicto aceite pela polícia após dois dias de investigações. É fácil pensar como os parágrafos anteriores se conjugam com esta morte, aos 36 anos, para que as conspirações e teorias ganhem dimensão.
Friedrich Torberg, escritor austríaco, dedicou-lhe um poema em que sugeria que Sindelar se suicidara, tendo como causa dessa fatal decisão o Anschluss. Num documentário da “BBC“, um amigo do jogador apoia este tese, justificando a pressa com o fim das investigações oficiais com a vontade que os nazis tinham em classificar o sucedido como um acidente, para que pudesse haver um funeral digno - segundo as normas nazis, quem se suicidasse não poderia ter cerimónias fúnebres com honras de Estado - e não criar um mártir.
A ideia de assassinato também tem os seus partidários. O que parece factual é que, dias antes da morte de Sindelar e da namorada, um vizinho queixara-se de uma chaminé com defeito, apontada como culpada da morte do casal.
A Wunderteam
O talento de Matthias para a bola levou-o, aos 15 anos, para o Hertha Vienna. De lá foi para o Áustria Viena, onde foi campeão, triunfou na Taça, ergueu a Taça Mitropa, um dos primeiros torneios internacionais de clubes, juntando húngaros, checoslovacos, italianos, jugoslavos e austríacos
Avançado habilidoso, o físico frágil era compensado pela técnica, a agilidade e a inteligência. “Tinha um cérebro nas pernas”, escreveu o crítico de teatro Alfred Polgar. No pós-Primeira Guerra Mundial, falar de futebol nos cafés de Viena era uma importante tendência cultural, discutindo-se o jogo, táticas, estilo. Sindelar era o apogeu do ADN dominante, o triunfo do cérebro sobre o músculo, fantasista, imaginativo. Chamavam-lhe o ‘homem de papel‘, pela fraca estrutura física, ou o ‘Mozart do futebol‘.
A idiossincrasia dos cafés, aquela explosão intelectual em torno da bola, encontrou expressão coletiva na Wunderteam, a seleção nacional. Com flexibilidade de movimentos e um estilo de passes curtos, influenciou os húngaros, anos depois, e, indiretamente, teve ramificações na Holanda do futebol total e no Barcelona e na Espanha de muitas décadas posteriores.
Sindelar, o grande herói daquela era de ouro, ganharia, em 1999, uma votação para eleger o melhor futebolista - e desportista - austríaco do século.
A sua carreira internacional fechou-se com o Anschluss. Foi sempre dando desculpas para não atuar pela seleção unificada. Jamais representou outra equipa nacional que não a sua. Se os nazis o calaram ou taparam a sua decisão fatal será questão que, possivelmente, jamais terá resposta.