Cromos do Mundial

Usbequistão: Odil Akhmedov, o homem do quase que já não protagonizou a história, mas que poderá ter tido um dedo nela

Odil Akhmedov deixou 108 feitos pelo Usbequistão e marcou 21 golos
Odil Akhmedov deixou 108 feitos pelo Usbequistão e marcou 21 golos

Foi seis vezes o melhor jogador do Usbequistão mas também protagonista em algumas das maiores desilusões da seleção do país, que em 2014 e 2018 ficou a um pequeno passo da qualificação para o Mundial. A história chegou já com Odil, um médio versátil, taticamente inteligente, como dirigente da federação de um dos estreantes no Mundial 2026. Akhmedov é o quadragésimo primeiro dos 48 Cromos do Mundial, série que destaca um futebolista excêntrico, ou quase, de cada país que jogará na edição de 2026

Há algo de paradoxal na carreira de Odil Akhmedov, uma das maiores estrelas do futebol do Usbequistão, seis vezes considerado o melhor jogador do país. Paradoxal ou injusto, dependendo das sensibilidades. Akhmedov, um médio completo, fisicamente resistente e taticamente sagaz, esteve presente nas maiores desilusões vividas pela seleção nacional usbeque. A equipa da nação da Ásia Central, membro da FIFA desde 1994 como país independente, bateu na trave em 2014 e 2018, depois de outro falhanço épico em 2006, um par de anos antes da estreia de Akhmedov. E mal o médio se retirou, o Usbequistão conseguiu chegar à ansiada estreia em Campeonatos do Mundo.

Diga-se que é possível que Akhmedov, que cometeu a proeza de ser considerado o melhor jogador da temporada no Anzhi, da Rússia, quando Samuel Eto’o e Roberto Carlos faziam parte da equipa, tenha um dedo neste sucesso, já que mal deixou os relvados assumiu outro posto de responsabilidade, depois de arrumar a braçadeira de capitão: o de vice-presidente de uma federação que não se coibiu de criticar na hora do adeus. Mas já lá vamos.

Odil Akhmedov é fruto da escola do Pakhtakor FC, da capital Tashkent, o mais bem-sucedido clube do Usbequistão. Ali se estreou profissionalmente aos 18 anos e conquistou dois campeonatos antes de se mudar para o na altura muito endinheirado Anzhi. Um suposto interesse do Arsenal, confirmado pelo próprio Akhmedov, que via esse namoro como “uma vitória para todo o futebol usbeque”, não chegou a materializar-se.

Os traumas usbeques

Akhmedov seria campeão da China pelo Shanghai SIPG, em 2018, com Vítor Pereira no banco, mas o sucesso que ia vivendo nos clubes não encontrava paralelo na seleção, onde era líder e capitão.

O trauma vinha já de trás, antes do seu tempo: na 1ª mão do play-off final da fase de qualificação asiática para o Mundial 2006, frente ao Bahrain, o Usbequistão ganhava já por 1-0 quando teve direito a um penálti. Server Djeparov, outro histórico, fez o 2-0, mas o árbitro japonês do encontro vislumbrou jogadores usbeques a entrarem na área e anulou o golo. Pelas regras, o Usbequistão deveria repetir o penálti, mas o juiz da partida, de forma bizarra, marcou livre para o Bahrain.

O Usbequistão pediu que lhe fosse atribuída a vitória por 3-0, mas a FIFA decidiu que o jogo deveria ser repetido. E o Bahrain acabou por passar ao derradeiro play-off internacional com um empate 1-1 em Tashkent e um nulo em casa. Akhmedov terá sido um dos jovens a chorar em casa perante tamanho azar.

Médio num encontro do Usbequistão frente à China, em 2019
Fred Lee

Esta foi a desilusão número 1. A desilusão número 2 aconteceu na qualificação para o Mundial 2014, já com Akhmedov em destaque na equipa. Aí, o Usbequistão falhou a presença direta no Brasil por causa de um singelo golo: na última jornada bateu o Catar por 5-1, mas faltou-lhe mais um para ficar à frente da Coreia do Sul no grupo.

E ainda há a desilusão número 3. Na qualificação para o Mundial 2018 bastava uma vitória na última jornada da qualificação para chegar à Rússia. Mas, frente à Coreia do Sul (de novo a Coreia do Sul), o Usbequistão não saiu do nulo. A desilusão número 4 foi menos dramática, já que a antiga república soviética ficou longe do Mundial do Catar. E aí Akhmedov assumiu as responsabilidades, deixou a seleção e fez um raio-x, talvez decisivo para que, agora sem ele - mas talvez com ele -, o Usbequistão tenha garantido uma presença inédita no Campeonato do Mundo.

No adeus, em junho de 2021, Akhmedov deixou frases fortes: “O futebol não pode ser enganado. Se não mudarmos hoje, daqui a quatro anos vamos estar aqui a pedir perdão. Se os interesses do futebol não estiverem acima de todos, não vamos ter resultados”, começou por dizer, sublinhando a dificuldade do país em formar jogadores e a falta de “fundações”.

Estratégia que resultou

Certo é que já com Odil Akhmedov na vice-presidência da federação surgiram os primeiros resultados de um investimento estatal em infraestruturas, nomeadamente com a construção de relvados por todo o país e a renovação de 15 mil campos em escolas, refere a Reuters.

O Usbequistão, nação de 35 milhões de pessoas, com uma demografia imberbe, fomentou ainda uma rede de escolas dedicadas ao futebol, apoiando cerca de 65 mil jovens futebolistas, numa estratégia a longo prazo que está a ter efeitos imediatos: a equipa olímpica qualificou-se para Paris 2024, a sénior para o Mundial 2026 e um jogador usbeque chegou pela primeira vez à Premier League: Abdukodir Khusanov, do Manchester City.

Não foi em campo, mas Odil Akhmedov, hoje com 38 anos, conseguiu mesmo travar o ciclo de desilusões do seu país, a primeira nação da Ásia Central a jogar um Mundial. Quatro anos depois, não houve pedidos de desculpas, tentativas de explicar as desventuras, mas sim um momento histórico que não viveu como jogador, mas sim como dirigente.

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