Catar: Akram Afif, um mágico com os pés e com as mãos


Jornalista
Talvez fizesse sentido falar dos dois títulos de melhor jogador da Ásia, conquistados em 2019 e 2023, precisamente os dois anos em que o Catar surpreendeu ao conquistar o campeonato continental de seleções, a Taça da Ásia. Ou dos seis títulos pelo Al Sadd, o principal clube do país peninsular do Médio Oriente, com quem se diz ter um contrato para a vida.
Mas, antes de tudo, Akram Afif, o mais próximo de super-estrela que o Catar tem, é uma espécie de retrato-robô daquele país. Ou pelo menos do que hoje conhecemos como o Catar. O extremo de 29 anos é filho de mãe do Iémen e de pai nascido na Tanzânia, mas futebolista internacional pela Somália, que acabaria a carreira no futebol do emirado, um país de várias confluências, onde mais de 80% da população não é dali originária.
Afif não é só um produto biológico da emigração que chegou ao Catar, é ainda um produto futebolístico da Aspire, a academia de desportos fundada em 2004 para desenvolver atletas do Catar, num projeto estatal que culminou com a organização do Mundial 2022. Afif era a estrela da seleção da casa, mas as coisas não lhe correram particularmente bem: três derrotas em três jogos e apenas um golo marcado.
Seria um baque para os cataris, mas tal não retirou uma centelha de aura à mais importante fonte de talento e repentismo da seleção que agora, por mérito próprio, volta ao Mundial. Porque os dribles de Afif, uma certa fantasia que não retrai, uma rebeldia e inconformismo pouco comuns em países onde tal não é bem visto, não acontecem só com a bola nos pés. Afif também não é um tipo convencional.
Na final da Taça da Ásia de 2023, Akram Afif marcou um pouco habitual hat-trick de penáltis na vitória por 3-1 frente à Jordânia. No primeiro dos remates certeiros ofereceu aos adeptos um festejo também ele excêntrico: retirou das meias algumas cartas e com elas fez um truque de magia em frente às câmaras.
Irreverente, sem dúvida. Uma irreverência que também serve para encarnar o que uns chamarão de competitividade e outros simplesmente de batota. Há uns meses, depois do jogo que valeu a qualificação para o Mundial 2026, Akram Afif assumiu que pediu aos adeptos que estavam nas bancadas do Estádio Jassim bin Hamad, em Doha, para começarem a atirar objetos para o campo, numa altura em que o Catar vencia por 2-1 os Emirados Árabes Unidos, resultado suficiente para recolher o bilhete para o Campeonato do Mundo - em caso de empate, seria o rival a qualificar-se.
“Só mesmo para perder tempo. Disse-lhes para atirarem coisas para o campo para perdemos tempo”, revelou, com um sorriso e sem pejo, aos jornalistas durante uma cerimónia da confederação asiática.
Fora truques de magia e técnicas pouco ortodoxas para vencer, Akram Afif pode arrogar-se de ter no currículo alguns inéditos importantes. O atacante foi, por exemplo, o primeiro jogador do seu país a jogar na La Liga, com a camisola do Sporting Gijón, em 2016. Antes disso, Afif já tinha feito parte da sua formação em Espanha, no Sevilla e Villarreal, numa parceria com a Aspire.
Depois do Mundial sub-20, de 2015, foi convidado pelo Eupen, da Bélgica, clube do universo Qatar Sports Investment, estreando-se assim como profissional na Europa, antes de voltar ao Villarreal, que o emprestou ao Sporting Gijón. Apesar do talento, Afif nunca se adaptou ao futebol espanhol. Voltaria ao Eupen e por fim seria vendido ao Al Sadd, de Doha, onde finalmente explodiu, com 159 golos em 253 jogos, tornando-se figura incontestada do futebol catari.
Disse, depois da estreia na liga espanhola, estar a viver um momento muito maior que ele próprio: “Estou a representar o meu país, a minha seleção nacional e a academia Aspire. E estou a inspirar a próxima geração de jogadores para que acreditem que podem jogar na La Liga e em outras grandes ligas europeias”. Certo é que, depois de Afif, o futebol catari ainda não produziu qualquer jogador capaz de se impor fora de casa.
Na seleção do seu país, os 133 jogos já o colocam como o terceiro jogador catari com mais internacionalizações, ainda longe das 188 do histórico Hassan Al-Haydos. Mais golos que ele (41) com a camisola grená do Catar só Almoez Ali (60), jogador com um percurso similar, com origens na África Oriental e formação na Aspire.
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