Catar: Akram Afif, um mágico com os pés e com as mãos
Akram Afif fez os três jogos do Catar no Mundial de 2022 e marcou um golo. Ao todo, tem 129 internacionalizações
Duas vezes considerado o melhor jogador asiático, o extremo catari é o mais próximo de super-estrela irreverente do país. E faz por isso: na final da Taça da Ásia de 2023, o avançado que foi o primeiro jogador do Catar a jogar na La Liga festejou um golo fazendo um truque de magia para as câmaras de televisão. Afiféo quadragésimo segundo dos 48 Cromos do Mundial, série que destaca um futebolista excêntrico, ou quase, de cada país que jogará na edição de 2026
Talvez fizesse sentido falar dos dois títulos de melhor jogador da Ásia, conquistados em 2019 e 2023, precisamente os dois anos em que o Catar surpreendeu ao conquistar o campeonato continental de seleções, a Taça da Ásia. Ou dos seis títulos pelo Al Sadd, o principal clube do país peninsular do Médio Oriente, com quem se diz ter um contrato para a vida.
Mas, antes de tudo, Akram Afif, o mais próximo de super-estrela que o Catar tem, é uma espécie de retrato-robô daquele país. Ou pelo menos do que hoje conhecemos como o Catar. O extremo de 29 anos é filho de mãe do Iémen e de pai nascido na Tanzânia, mas futebolista internacional pela Somália, que acabaria a carreira no futebol do emirado, um país de várias confluências, onde mais de 80% da população não é dali originária.
Afif não é só um produto biológico da emigração que chegou ao Catar, é ainda um produto futebolístico da Aspire, a academia de desportos fundada em 2004 para desenvolver atletas do Catar, num projeto estatal que culminou com a organização do Mundial 2022. Afif era a estrela da seleção da casa, mas as coisas não lhe correram particularmente bem: três derrotas em três jogos e apenas um golo marcado.
Seria um baque para os cataris, mas tal não retirou uma centelha de aura à mais importante fonte de talento e repentismo da seleção que agora, por mérito próprio, volta ao Mundial. Porque os dribles de Afif, uma certa fantasia que não retrai, uma rebeldia e inconformismo pouco comuns em países onde tal não é bem visto, não acontecem só com a bola nos pés. Afif também não é um tipo convencional.
Na final da Taça da Ásia de 2023, Akram Afif marcou um pouco habitual hat-trick de penáltis na vitória por 3-1 frente à Jordânia. No primeiro dos remates certeiros ofereceu aos adeptos um festejo também ele excêntrico: retirou das meias algumas cartas e com elas fez um truque de magia em frente às câmaras.
Irreverente, sem dúvida. Uma irreverência que também serve para encarnar o que uns chamarão de competitividade e outros simplesmente de batota. Há uns meses, depois do jogo que valeu a qualificação para o Mundial 2026, Akram Afif assumiu que pediu aos adeptos que estavam nas bancadas do Estádio Jassim bin Hamad, em Doha, para começarem a atirar objetos para o campo, numa altura em que o Catar vencia por 2-1 os Emirados Árabes Unidos, resultado suficiente para recolher o bilhete para o Campeonato do Mundo - em caso de empate, seria o rival a qualificar-se.
“Só mesmo para perder tempo. Disse-lhes para atirarem coisas para o campo para perdemos tempo”, revelou, com um sorriso e sem pejo, aos jornalistas durante uma cerimónia da confederação asiática.
A experiência em Espanha
Fora truques de magia e técnicas pouco ortodoxas para vencer, Akram Afif pode arrogar-se de ter no currículo alguns inéditos importantes. O atacante foi, por exemplo, o primeiro jogador do seu país a jogar na La Liga, com a camisola do Sporting Gijón, em 2016. Antes disso, Afif já tinha feito parte da sua formação em Espanha, no Sevilla e Villarreal, numa parceria com a Aspire.
Depois do Mundial sub-20, de 2015, foi convidado pelo Eupen, da Bélgica, clube do universo Qatar Sports Investment, estreando-se assim como profissional na Europa, antes de voltar ao Villarreal, que o emprestou ao Sporting Gijón. Apesar do talento, Afif nunca se adaptou ao futebol espanhol. Voltaria ao Eupen e por fim seria vendido ao Al Sadd, de Doha, onde finalmente explodiu, com 159 golos em 253 jogos, tornando-se figura incontestada do futebol catari.
O extremo num recente encontro de preparação com a Irlanda
Charles McQuillan
Disse, depois da estreia na liga espanhola, estar a viver um momento muito maior que ele próprio: “Estou a representar o meu país, a minha seleção nacional e a academia Aspire. E estou a inspirar a próxima geração de jogadores para que acreditem que podem jogar na La Liga e em outras grandes ligas europeias”. Certo é que, depois de Afif, o futebol catari ainda não produziu qualquer jogador capaz de se impor fora de casa.
Na seleção do seu país, os 133 jogos já o colocam como o terceiro jogador catari com mais internacionalizações, ainda longe das 188 do histórico Hassan Al-Haydos. Mais golos que ele (41) com a camisola grená do Catar só Almoez Ali (60), jogador com um percurso similar, com origens na África Oriental e formação na Aspire.