A ida para a Tunísia foi um erro de interpretação. Francileudo dos Santos estava no Standard Liège, onde não se deu bem, e o empresário falou-lhe num país que ele não conhecia. Julgou que o representante o estava a convidar a prosseguir a carreira na Turquia. A semântica confundiu-o, mas não o fez reverter a decisão de deixar a Bélgica.
Acabou por assinar com os tunisinos do Étoile du Sahel e, inesperadamente, desbloqueou um leque de oportunidades nada previsíveis à nascença. Chegou com o estilo de sempre. O crucifixo preso ao pescoço pendia para fora da camisola e demorou algum tempo a perceber que o motivo da estranheza com que os muçulmanos o olhavam era o colar. Não foi o único aspeto da sua vida que levou tempo a ajustar. Com o passar das semanas também percebeu que tomar banho descascado era ousado demais.
O treinador do Étoile du Sahel era Jean Fernández, que lançou Zinedine Zidane no Cannes. Francileudo revelou uma veia goleador digna da Liga Francesa. Assim, acompanhou o técnico na mudança para o Sochaux. Durante o percurso do clube, desde a Segunda Divisão até à Taça UEFA, o avançado reuniu interessados. Não só clubes, mas também países se renderam ao jogador nascido em Zé Doca, uma cidade no estado brasileiro do Maranhão.
Faltavam apenas três semanas para a CAN quando Francileudo despachou as burocracias para obter a nacionalidade. Pelos vistos, na Tunísia continuaram a acompanhar o seu progresso e quiseram integrá-lo na equipa que participou na Taça das Nações Africanas, em 2004. Por cumprir o requisito de ter vivido no país durante dois anos, o Presidente da República concedeu-lhe o passaporte.
No Sochaux não ficaram agradados com a convocatória. Os dirigentes defenderam que a ligação de Francileudo à Tunísia era nula, algo que o jogador contrapunha com o facto de o filho ter nascido no país. Na verdade, a equipa francesa só não queria ficar sem aquele que marcou 17 vezes em 35 jogos nessa temporada. No entanto, o golo mais importante foi marcado na final da CAN 2004, contra Marrocos, a primeira competição que a Tunísia conquistou.
‘Leudo‘ não festejou o título mais importante na carreira. Mesmo assim, não deixou de ter outros momentos de sucesso. Perto do final dessa mesma época, conquistou a Taça da Liga, frente ao Nantes, com menor protagonismo pessoal do que o título obtido na seleção. Involuntariamente, centrou atenções quando celebrou com uma bandeira do Brasil. Os adeptos tunisinos ficaram ofendidos com o esquecimento da nacionalidade futebolística que tinha assumido nesse ano. Francileudo assumiu que errou ao não ter em conta o país que representava.
O castigo chegaria mais tarde, penalizando-o excessivamente. A Tunísia fazia os últimos retoques antes do Mundial 2006 num jogo amigável. Em cima da hora, Francileudo lesionou-se. Restava pouca margem para se pôr intacto para o torneio. Em 20 dias, fez três ressonâncias, tal a incógnita em relação ao problema que tantas dores lhe causava. A lesão começou a ser tratada como uma rutura muscular e o tratamento seguiu esse caminho até os especialistas perceberem que, na verdade, era uma lesão no ligamento do joelho.
Francileudo não tinha condições mínimas para participar no Mundial. Com esforço e uma injeção, estreou-se contra a Ucrânia. Foram 11 minutos que nunca mais ninguém esqueceu e dos quais todos lhe falavam quando, no final da carreira, regressou a Zé Doca para trabalhar no departamento da câmara municipal.
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