Panamá: onde o futebol continua a ser sinónimo de Julio Dely Valdés
O avançado que colocou o futebol do Panamá no mapa: Dely Valdés
Em Itália chamavam-lhe Manteiga, pela capacidade de se esgueirar entre adversários. Em Espanha, tornou-se num dos melhores estrangeiros do Málaga. Mas, mais que tudo, foi ele que deu a conhecer ao mundo que no Panamá também se jogava futebol. Dely Valdéséo quadragésimo quarto dos 48 Cromos do Mundial, série que destaca um futebolista excêntrico, ou quase, de cada país que jogará na edição de 2026
Há um país que é uma ligação. Uma ligação entre as Américas, uma ligação entre o Atlântico e o Pacífico, uma ligação para o comércio internacional. E nesse país, há um antes e um depois de Julio Dely Valdés. Antes de Julio, o boxe, o basebol e o basquetebol eram a ligação, o futebol não era a ligação. Depois de Julio, o Panamá também passou a ser sinónimo de Dely Valdés. E Dely Valdés passou a ser uma ligação do seu país ao mundo.
Julio Dely Valdés, avançado versátil, mais móvel e chato para os defesas adversários do que um verdadeiro matador, nasceu em Colón, uma das pontas do Canal do Panamá, onde o seu pai trabalhava, em 1967. Se foi ele o primeiro a nascer ou Jorge, o seu gémeo, é um dado biográfico desconhecido. Mas ambos ficariam ligados para sempre, fosse pelos genes, pela data de nascimento ou pelo caminho que ambos trilharam no futebol, ainda que Julio tivesse sido mais bem-sucedido.
Uruguai, Itália, França, Espanha. A carreira internacional de Delyrio, alcunha que lhe deram quando jogava no Nacional de Montevidéu, passou por alguns dos melhores campeonatos mundiais, mas não começou bem. O seu irmão mais velho, Armando, era jogador do Argentinos Juniors quando Julio tentou a sua sorte num teste no clube que formou outro Armando, ou melhor, Diego Armando Maradona. Não ficou.
Mas não deixou a Argentina. Encontrou pouso no Deportivo Paraguayo, clube da comunidade paraguaia de Buenos Aires, na altura no 5º escalão do país, e foi de tal maneira prolífico que do outro lado do Rio da Prata alguém lhe prestou atenção, já o avançado tinha 22 anos. Dely Valdés foi então para o Nacional, para uma primeira experiência como profissional, sagrando-se campeão nacional em 1992.
Cruzar o charco para o Cagliari, de Itália, não foi um acaso. O clube sardo tinha forte presença uruguaia, a começar por Enzo Francescoli, e estava sempre de olho nos melhores talentos saídos do campeonato charrúa. Terá sido mesmo uma conversa com El Principe que convenceu Dely Valdés a assinar pelo clube. Em Itália, ganharia outra alcunha: Manteiga, por passar facilmente pelas defesas adversárias. Mais exageradas terão sido, na altura, as comparações com Marco van Basten, pela sua técnica, que aliava ao poderio físico.
Dely Valdés ainda é hoje o melhor marcador da história do Málaga
Getty Images
Duas boas épocas no Cagliari valeram-lhe a contratação para o PSG, onde se sagraria campeão da Taça das Taças em 1996. Seguiu para o Oviedo e depois para Málaga, onde se tornou referência para os adeptos e é, ainda hoje, o melhor marcador de sempre, com 47 golos, em igualdade com Salva Ballestra.
Se na Europa, Dely Valdés já era de corpo e alma um embaixador do então desconhecido futebol do Panamá, na seleção tanto ele como o irmão gémeo Julio, que fez carreira no Japão, nunca conseguiram o objetivo final de chegar a um Mundial. E como selecionador ficou perto, mas na qualificação para o Brasil 2014, um golo tardio dos Estados Unidos roubou o lugar de play-off à equipa. “Eu era o treinador principal e o meu irmão o adjunto. Foi muito difícil, estávamos tão perto e ao mesmo tempo tão longe de atingir algo único”, lamentou numa entrevista à FIFA.
Quatro anos depois, foi já como adepto, e à distância, que Dely Valdés viu o primeiro apuramento do Panamá para um Mundial. “Não podia berrar tudo o que queria porque estava em Espanha e o jogo foi durante a madrugada. Teria acordado os vizinhos”, brincou, numa conversa com o “Guardian”.
Como treinador, Dely Valdés assumiu-se como um disciplinador. Talvez venha de casa, ele que relembrou os pais como pessoas “pontuais, sérias e responsáveis” ao “Guardian”. O respeito que granjeou na Europa também lhe deu respaldo para tal. “Usei essa autoridade. Disse na altura a oito ou nove jogadores-chave que ao mais pequeno sinal de indisciplina estavam fora. E com isto os outros ficam a pensar: ‘Se ele corta a cabeça ao um tipo que líder…’”.
Ainda assim, mesmo com toda esta disciplina, o romantismo não abandonou Dely Valdés. Em 2020, foi convidado pela ESPN para escolher aquele que, para si, era o melhor jogador de sempre da América Central. E Dely Valdés optou por Jorge “El Mágico” González, avançado de El Salvador conhecido pela sua técnica e capacidade de drible estonteantes, um mago com a bola a quem a falta de disciplina (e talvez a nacionalidade) não permitiu voos mais altos.