Inglaterra: Paul Gascoigne e a tristeza dos recantos sombrios da mente
Paul Gascoigne, um viciado em vícios que era brilhante com a bola nos pés: fez 57 jogos pela Inglaterra e esteve no Mundial de 1990
Foi amado pelo público, tornando-se o preferido dos ingleses depois do Mundial 1990. Mas as marcas de uma infância dura e de uma personalidade viciada no vício empurraram-no para a depressão, para o álcool, para o jogo, para más escolhas. Gazza, um dos mais talentosos futebolistas da sua geração,vive há quase três décadas lutando contra si próprio. Gascoigneéo quadragésimo sexto dos 48 Cromos do Mundial, série que destaca um futebolista excêntrico, ou quase, de cada país que jogará na edição de 2026
Há uma reportagem no arquivo da RTP sobre as férias de verão que Paul Gascoigne passou em Portugal em 1991. Na peça, o internacional inglês diverte-se de maneiras variadas, quase sempre com garrafas por perto. A certa altura, entretém-se dando tiros com uma espingarda de brincar. O alvo é uma fotografia sua, acertando Gascoigne em cheio em si próprio.
Seria difícil imaginar melhor metáfora para a vida do filho de Gateshead, em frente a Newcastle, do outro lado do Tyne. Um carismático talentoso a alvejar-se a si próprio, magoando-se a si mesmo, destruindo-se pouco a pouco, mas sem travões.
Gary Lineker, que partilhou relvado com gigantes, descreve Gazza como “o mais hábil tecnicamente” com quem jogou. Mas a criatividade e a chispa brilharam efemeramente, sucimbindo perante o peso de um demasiado potente cacharolete.
Gascoigne, que se chama Paul John em homenagem a Paul McCartney e John Lennon, cresceu num quarto de uma habitação social, com casa de banho partilhada. A sua infância foi marcada pelas convulsões que o pai frequentemente tinha. O pequeno Gascoigne sofreu, também, episódios de espasmos.
O vício cedo entrou-lhe pelo corpo, como um vírus que se instalou sem sair. O vício ou os vícios. Ou talvez o vício de ter vícios. Foi agarrado pelo álcool, cocaína, tabaco, bebidas energéticas, fast food. Mas o primeiro foram as máquinas de jogo e esteve umbilicalmente ligado a outra esquina negra da sua mente: a morte, a proximidade com a morte, a obsessão com a morte.
Para financiar o uso de máquinas de jogo, Gascoigne, ainda nem sequer um adolescente, começou a fazer pequenos roubos em lojas. Quando tinha 10 anos, foi encarregue de tomar conta de Steven Spraggon, de seis anos, o irmão de um amigo, levando-o a um dos locais onde tinha por hábito furtar. Durante a transgressão, o pequeno Steven correu para a estrada, foi colhido por um carro e morreu. Paul assistiu a tudo e culpou-se eternamente.
Já adulto, voltou a declarar-se réu. Um amigo não resistiu aos excessos de uma noite em agosto de 1998 e Gazza, outra vez, não se perdoou.
Três meses antes do episódio, o inventivo jogador representou Inglaterra pela 57.ª e derrradeira ocasião. Dois meses depois, iniciou, pela primeira vez, sessões para tratar o alcoolismo, após ter dado entrada num hospital na sequência de beber 32 shots de whisky. A partir dali, seria na prática um ex-jogador à espera da confirmação do ponto final.
De “gordito” a ídolo
Nem sempre o tom foi tão triste, claro. Gascoigne sempre foi controverso, num flirt com as fronteiras do aceitável, mas havia talento, muito talento. Jack Charlton, o técnico que o fez estrear na equipa principal do Newcastle ainda menor de idade, descrevia-o como “um pouco gordito” e com o “ar de qualquer coisa menos de jogador”. O rapaz comia chocolates e afins, mas o perfume dos pés encantava.
A tristeza de Gascoigne depois da meia-final de 1990 tornou-se uma das imagens icónicas da seleção inglesa
Mirrorpix
Eleito o melhor jogador da liga inglesa em 1987/88, viria a assinar pelo Tottenham por mais de dois milhões de libras, um valor recorde para um britânico. Houve grandes contratos para Gazza, no Tottenham, depois na Lazio, ainda no Rangers, onde seria considerado futebolista do ano na Escócia. Em campo, ele era feliz, chegaria a escrever que “não se preocupava com a morte” enquanto jogava. Os recantos sombrios da mente não adquiriam papel principal.
No Tottenham brilhou, no Rangers — onde se tornou icónico o dia em que colocou uma cabeleira para dar as boas-vindas a Ginola e o momento em que defecou dentro das meias de um desconhecido italiano acabado de chegar a Glasgow, de seu nome Gennaro Ivan Gattuso — foi ídolo. No Euro 1996 apontou um sensacional golo à Escócia. Menos famosa foi a passagem pela Lazio.
Em Roma, a aventura começou logo a correr mal quando disse a Sergio Cargnotti, dono do clube, “tua figlia, grande tette”, ”tua filha, grandes mamas”. Afetado por lesões e pelo hábito de ganhar peso, Dino Zoff, o treinador, obrigou-o a perder 13 quilos antes da época 1993/94. A dada altura dessa temporada, com Gascoigne lesionado, o técnico sugeriu-lhe que tirasse férias, com Gazza a responder que era melhor não. Zoff insistiu e, no regresso, o jogador vinha com excesso de peso. ”Eu disse-lhe que era melhor não me mandar de férias, signor Zoff”, atirou o inglês.
Mas as semanas que eternizaram Paul Gascoigne na história da seleção inglesa foram no Mundial de Itália, em 1990. Chegou à fase final com somente 42 minutos oficiais feitos pela equipa nacional, mas agarrou um lugar e brilhou. Criou a Gazzamania, uma devoção coletiva por aquele talento. Nas meias-finais, frente à Alemanha, viu um amarelo que tira-lo-ia de uma eventual final. Chorou e as lágrimas causaram comoção na sociedade inglesa, sentimento reforçado pela tristeza após a eliminação.
”Antes de Paul Gascoigne, alguém tornou-se um herói nacional e um milionário garantido por chorar? Fabuloso. Chora e o mundo chora contigo”, escreveu Salman Rushdie sobre o amor inglês pelo então jovem jogador.
À medida que as temporadas avançaram, todos os vícios se conjugaram para Gascoigne. Os recantos sombrios da mente foram-se alastrando a todo o cérebro, cobrindo-o de sombras. Fez tratamentos para bulimia, transtorno obsessivo-compulsivo, bipolaridade, défice de atenção, alcoolismo.
Assumiu ter batido na mulher. Conduziu inúmeras vezes bêbedo ou sem carta. Foi um dos maiores alvos dos tabloídes. O Mirror Group Newsapapers, dono do ”Daily Mirror”, do ”Sunday Mirror” ou do ”The People”, hackeou-lhe o telefone, crime que, entre 2000 e 2010, levou à escrita de 18 artigos sobre Gazza, que confessou que a usurpação de privacidade o levou a comportamentos paranoícos e a contemplar suicídio. Em 2015, o grupo de media foi condenado a pagar-lhe cerca de 217 mil euros.
Paul Gascoigne deixou de ser jogador bem antes de deixar de jogar. A vida tem sido, nas últimas décadas, uma mal-sucedida tentativa de se proteger de si mesmo. Numa das últimas entrevistas que deu, confessou que vive no quarto vazio que o seu agente tem. Ainda bebe e descreve-se como um “álcoolico triste”. Os melhores dias, diz, são quando pega na cana e vai pescar. Os piores são quando se fecha. E bebe. E a morte e os demónios dançam diante de um dos maiores talentos que o país-berço do futebol produziu.