Portugal: a namorada polícia em Saltillo e o Porsche amarelo de Paulo Futre, o terceiro melhor pé esquerdo de sempre
Paulo Futre somou 41 internacionalizações com Portugal, três delas foram no Mundial de 1986
Diz-se que, se não viesse do país que vem, teria conquistado a Bola de Ouro no ano em que se sagrou campeão europeu pelo FC Porto e rumou ao Atlético de Madrid para se tornar el portugués. Os maus hábitos, implementados quando começou a fumar aos 12 anos, não o travaram e ainda detém o recorde de jogador mais jovem estrear-se pela seleção. Representou Portugal no Mundial 1986, que ficou na história por motivos extra-futebol. Futre éo quadragésimo sétimo dos 48 Cromos do Mundial, série que destaca um futebolista excêntrico, ou quase, de cada país que jogará na edição de 2026
Há todo um potencial concorrente de reality show em Paulo Futre. É algo que não está dentro de si, mas sim que ocupa toda a chapa da sua personalidade. Em 2022, a TVI espremeu umas gotas desse sumo ao introduzi-lo, durante alguns dias, como convidado no Big Brother Famosos. Foi a amostra possível do que pode oferecer num regime de clausura mediática.
Para Futre nunca foi cedo demais. Começar as traquinices precocemente pareceu tratar-se de uma estratégia para aproveitar a vida. Nunca falou em excesso. Apenas manteve a língua em forma. Discussões? Nenhuma. Com ele, só existiam “caldinhos”.
Ser tão avantajado em excentricidade poupou-o ao doseamento da mesma. Não perdeu tempo e, logo nos primeiros dias em Madrid, contratado pelo Atlético, apresentou-se às ruas de Porsche amarelo. Todos ficaram a saber quem era el portugués. A história do mítico veículo até começou em Itália. Paulo Futre estava pronto a ser apresentado como jogador do Inter. Pinto da Costa sentou-se à mesa com o presidente nerazzurri e alcançou um acordo para que o jogador fosse para o campeonato pelo qual tinha uma panca.
O Atlético de Madrid atravessava um processo eleitoral e Jesús Gil y Gil estava capaz de tudo para vencer e então entrou em contacto com o presidente do FC Porto para desviar Futre, porque precisava de um trunfo que lhe garantisse mais votos. Pinto da Costa sentiu o desespero e, na madrugada anterior à reunião, renovou contrato com o jogador. O novo vínculo aumentava a cláusula de rescisão de 200 mil contos para 400 mil. Gil y Gil tinha que sacrificar quase €2 milhões para ter um argumento que convencesse os sócios rojiblancos de que era a melhor opção para liderar o clube.
Paulo Futre estava no auge. Conquistou a Liga dos Campeões em 1987 pelo FC Porto e, no final do ano, só foi superado por Ruud Gullit na votação para a Bola de Ouro, derrota que o deixou pouco convencido e que geralmente se atribui à nacionalidade portuguesa, até então pouco valorizada enquanto selo de qualidade.
Gil y Gil ainda refilou, mas pagou o preço atualizado e pôs-se à disposição para satisfazer os caprichos da sua loquaz medida eleitoral. Ao chegar a Madrid, foram a um stand de automóveis escolher o carro que lhe tinha sido prometido. Entre pinturas pretas, azuis e até vermelhas, Futre escolheu um Porsche amarelo. Facilmente reconhecível nas ruas da capital espanhola, as viagens eram feitas a acenar às pessoas que reagiam à passagem do espampanante veículo.
Gil y Gil atrás de Paulo Futre, no Atlético de Madrid
Matias Nieto
A fragrância do pé esquerdo, sempre pronta a colaborar com mais uma finta, acicatava a fúria dos defesas espanhóis que o brindavam com entradas deslizantes sobre relvados empapados. A quem o derrubava, contou no documentário sobre a sua pessoa disponível na Opto, dizia: “Sou português. Tens que trazer a bala e a pistola para me tirares de dentro do campo.”
Enquanto pioneiro no estrangeiro, levou para Espanha um sentimento patriótico de quem, disse ele, nunca ficou imune a uma pitada de discriminação. No entanto, também foi para expandir a portugalidade alegada por Mário Soares, na altura em que era Presidente da República, para o deixar adiar o serviço militar obrigatório. “Este gajo não vai para a tropa, vai dizer ao mundo que isto não é assim”, recordou o antigo jogador numa paráfrase muito livre.
Os desvios precoces
Paulo Futre preserva o recorde de jogador mais novo de sempre a jogar pela seleção portuguesa, embora Geovany Quenda tenha estado perto de quebrar o registo. Tinha 17 anos, seis meses e 24 dias quando tal aconteceu. No Mundial 1986, altura em que estala o caso Saltillo, já tinha atingido os 20 anos. Os jogadores reclamavam melhores condições financeiras, nomeadamente que lhes fosse atribuída uma maior fatia dos acordos publicitários estabelecidos pela Federação Portuguesa de Futebol. No meio das reivindicações, Futre viveu outras aventuras.
O Hotel La Torre, no México, era visitado regularmente por mulheres e o jogador mais verdinho da convocatória de José Torres também arranjou companhia. Não se prendeu a uma pessoa qualquer. Como contou à Lusa, aproximou-se de uma “namorada polícia”. “Depois de sermos eliminados do Mundial, voltámos ao local do estágio, onde ficámos mais três ou quatro dias antes do regresso a Portugal. Nessa altura, já era eu que conduzia o carro dela, mostrava o cartão da polícia, era sempre em frente, não parava nem em operações stop. Sentia-me o rei de Saltillo.”
A juventude foi um poço de irreverência. Se não fosse futebolista, Futre gostava de ser astronauta. Caso tivesse seguido esse caminho, talvez neste momento já existissem empresas de mudanças a transportarem móveis para Marte. No entanto, o percurso alternativo mais verosímil foi a mecânica. “Tinha uns 13 anos quando deixei a escola. Chumbei por faltas e o meu pai tira-me da escola e põe-me a trabalhar como bate-chapas.” Tal como contou em 2017 numa entrevista à Tribuna Expresso, as viagens solitárias entre o Montijo e o Estádio Nacional, local de treino do Sporting, permitiam desvios e aos 12 anos era um ávido fumador.
O Mundial 1986 ficou marcado pelo caso Saltillo. Mesmo assim, Futre entreteve-se com outros assuntos
David Cannon
Recrutado por Aurélio Pereira, foi para os leões com 11 anos e estreou-se na equipa principal com 17. Sem espaço no plantel, a equipa de Alvalade equacionou um empréstimo. “Eu estava para ir para a Académica. Depois, aparece o presidente Pinto da Costa. Com todo o respeito à minha mãe, às mulheres, às meninas, eu tinha 18 anos e ia para uma cidade académica, de estudantes. Como é que ia chegar ao domingo, ao dia de jogo, a 100%?”, interrogou-se no programa “FC Porto em Casa”, realizado durante a pandemia.
Pinto da Costa colocou-o debaixo da asa e levou-o para o norte. Apesar de ter feito a formação no Sporting, onde treinava com um colete de pesos para ganhar força, aprendeu mais algumas coisas no FC Porto. “O professor João Mota [preparador físico] e os meus colegas mais velhos diziam para eu não fazer amor, ou sexo, como quiserem, dois dias antes do jogo. Se o jogo fosse ao domingo, sábado e sexta-feira não havia nada. A verdade é que levei esta lição até ao fim da minha carreira.”
Ao longo da vida, recolheu apenas dois autógrafos. As limitadas assinaturas foram pedidas aos únicos canhotos que o superam, identificou no programa “El Cafelito“, de Josep Pedrerol. “Só vi dois muito melhores que eu: Messi e Maradona.” Representar os deuses na terra não parece uma função péssima.