Cromos do Mundial

México: Jorge Campos, o pequeno grande guarda-redes das camisolas escaganifobéticas

Jorge Campos: um guarda-redes baixinho, colorido, mítico, que fez 106 jogos pelo México
Jorge Campos: um guarda-redes baixinho, colorido, mítico, que fez 106 jogos pelo México
Nasceu numa família de posses em Acapulco e não passou dos 170 centímetros de tamanho, mas isso não evitou que se tornasse num dos mais míticos guarda-redes do final do século passado. Ágil e corajoso, as suas camisolas garridas levaram-no até a um museu de Paris. Campos é o quadragésimo oitavo e último dos 48 Cromos do Mundial, série que destaca um futebolista excêntrico, ou quase, de cada país que jogará na edição de 2026

Para uma parte significativa dos adeptos de futebol chegará como uma surpresa que a resposta à pergunta “Que futebolista viu uma das suas criações ser exposta no Museu de Artes Decorativas de França em 2024?” seja o nome de um guarda-redes mínimo, com não mais do que 1,70m e que nunca jogou na Europa. Já para quem viu o Mundial de 1994 de ponta a outra, com o entusiasmo febril de quem nada mais tinha naquelas semanas de verão tórrido, o nome Jorge Campos trará consigo algumas das mais nostálgicas recordações de um futebol feito de outras peles e camadas. E outras cores.

Esteve lá sim, exposto na capital da moda, o seu equipamento berrante, com bocados amarelos, verdes, cor de rosa, laranja, como que pintado com marcadores fluorescentes, aqueles para destacar palavras importantes num texto. Foi o próprio Jorge Campos que o desenhou, como desenhou outros equipamentos com que jogou. Aborrecia-o de morte o preto dominante que, na verdade, até usou por uma vez (heresia!) no spot publicitário da Nike em que se juntou a Figo, Rui Costa, Maldini, Kluivert, Ronaldo, entre outros, para derrotar uns terríveis diabinhos, destruídos por fim com a força do pontapé-canhão de Eric Cantona e um “au revoir” que é uma das coisas de que a mitologia do futebol é feita.

Mítico também era Jorge Campos, rapaz nascido numa família de posses junto às águas quentes de Acapulco, no México, e que se tornou professional no Pumas, da capital mexicana, onde a presença de Adolfo Ríos na baliza o levou a assumir inicialmente o papel de avançado. Chegou a marcar 22 golos em 1989/90, antes de fazer marcha-atrás para a baliza, ainda que com Campos para a frente fosse sempre o caminho.

O guarda-redes mexicano em mais uma das suas fatiotas coloridas
Mike Powell

Com 1,70m, tamanho anormalmente atarracado para alguém que tem de defender uma área entre os postes de 2,44 metros de altura e 7,32 metros de largura, Jorge Campos apaixonava pela agilidade, a destreza, a audácia e o destemor ao sair da baliza, pelo atrevimento de pegar na bola e iniciar uma jogada de ataque, sempre vestido com as cores mais garridas e alegres. Para o mexicano não havia amarras que o prendessem à área, o que também lhe valeu uns ocasionais golos sofridos que poderão entrar na galeria dos apanhados do futebol. Sempre de mangas curtas e tamanho vários números acima, voava com a leveza de uma ave canora e não temia o choque ou aferrar-se aos lances mais junto à relva.

Esteve no Mundial de 1994, também no de 1998, onde se vestiu de forma mais comedida. Ainda assim, surpreendeu frente aos Países Baixos ao usar a camisola verde com motivos aztecas do equipamento oficial, com calções azuis. No de 2002 foi convocado, mas não jogou.

Um pequeno pedaço de trivia mais esquecido é que Jorge Campos foi o primeiro estrangeiro contratado para a novíssima MLS, em 1996, ainda a sorver a popularidade que o Mundial de 1994 lhe havia trazido por terras norte-americanas. Jogava pelos LA Galaxy e assim voltou a viver junto ao mar - a primeira paixão do guarda-redes nem sequer foi o futebol, mas sim o surf. Nesses tempos em que intercalava temporadas no futebol norte-americano com a época mexicana, chegou a dizer aos jornalistas que sentia sempre alguma pressão quando jogava, mas nunca como quando se atirava à água com a sua prancha e temia o aparecimento de tubarões.

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