México: Jorge Campos, o pequeno grande guarda-redes das camisolas escaganifobéticas


















































































































































































































Jornalista
Para uma parte significativa dos adeptos de futebol chegará como uma surpresa que a resposta à pergunta “Que futebolista viu uma das suas criações ser exposta no Museu de Artes Decorativas de França em 2024?” seja o nome de um guarda-redes mínimo, com não mais do que 1,70m e que nunca jogou na Europa. Já para quem viu o Mundial de 1994 de ponta a outra, com o entusiasmo febril de quem nada mais tinha naquelas semanas de verão tórrido, o nome Jorge Campos trará consigo algumas das mais nostálgicas recordações de um futebol feito de outras peles e camadas. E outras cores.
Esteve lá sim, exposto na capital da moda, o seu equipamento berrante, com bocados amarelos, verdes, cor de rosa, laranja, como que pintado com marcadores fluorescentes, aqueles para destacar palavras importantes num texto. Foi o próprio Jorge Campos que o desenhou, como desenhou outros equipamentos com que jogou. Aborrecia-o de morte o preto dominante que, na verdade, até usou por uma vez (heresia!) no spot publicitário da Nike em que se juntou a Figo, Rui Costa, Maldini, Kluivert, Ronaldo, entre outros, para derrotar uns terríveis diabinhos, destruídos por fim com a força do pontapé-canhão de Eric Cantona e um “au revoir” que é uma das coisas de que a mitologia do futebol é feita.
Mítico também era Jorge Campos, rapaz nascido numa família de posses junto às águas quentes de Acapulco, no México, e que se tornou professional no Pumas, da capital mexicana, onde a presença de Adolfo Ríos na baliza o levou a assumir inicialmente o papel de avançado. Chegou a marcar 22 golos em 1989/90, antes de fazer marcha-atrás para a baliza, ainda que com Campos para a frente fosse sempre o caminho.
Com 1,70m, tamanho anormalmente atarracado para alguém que tem de defender uma área entre os postes de 2,44 metros de altura e 7,32 metros de largura, Jorge Campos apaixonava pela agilidade, a destreza, a audácia e o destemor ao sair da baliza, pelo atrevimento de pegar na bola e iniciar uma jogada de ataque, sempre vestido com as cores mais garridas e alegres. Para o mexicano não havia amarras que o prendessem à área, o que também lhe valeu uns ocasionais golos sofridos que poderão entrar na galeria dos apanhados do futebol. Sempre de mangas curtas e tamanho vários números acima, voava com a leveza de uma ave canora e não temia o choque ou aferrar-se aos lances mais junto à relva.
Esteve no Mundial de 1994, também no de 1998, onde se vestiu de forma mais comedida. Ainda assim, surpreendeu frente aos Países Baixos ao usar a camisola verde com motivos aztecas do equipamento oficial, com calções azuis. No de 2002 foi convocado, mas não jogou.
Um pequeno pedaço de trivia mais esquecido é que Jorge Campos foi o primeiro estrangeiro contratado para a novíssima MLS, em 1996, ainda a sorver a popularidade que o Mundial de 1994 lhe havia trazido por terras norte-americanas. Jogava pelos LA Galaxy e assim voltou a viver junto ao mar - a primeira paixão do guarda-redes nem sequer foi o futebol, mas sim o surf. Nesses tempos em que intercalava temporadas no futebol norte-americano com a época mexicana, chegou a dizer aos jornalistas que sentia sempre alguma pressão quando jogava, mas nunca como quando se atirava à água com a sua prancha e temia o aparecimento de tubarões.
Tem alguma questão? Envie um email ao jornalista: lpgomes@expresso.impresa.pt
