NBA

No basquetebol e na vida, Bam Adebayo é um gigante que nunca parou de crescer até chegar aos “malucos“ 83 pontos

Bam Adebayo teve uma noite de carreira frente aos Wizards: marcou 83 pontos, o segundo melhor registo de sempre num só jogo da NBA
Bam Adebayo teve uma noite de carreira frente aos Wizards: marcou 83 pontos, o segundo melhor registo de sempre num só jogo da NBA
Megan Briggs

Superar o recorde de Kobe Bryant estava tudo menos escrito. Bam Adebayo cresceu apenas com a mãe numa casa pré-fabricada e sem luxos. Quando chegou à NBA, tinha limitações e era sobretudo especialista na defesa. Embora se tenha tornado num jogador completo, não era candidato a chegar aos 83 pontos num só jogo. Mais uma vez, desafiou o destino

Até à noite em que marcou 83 pontos, o melhor momento da carreira de Bam Adebayo era um lance defensivo. Jogava-se pelo título da Conferência Este. Jayson Tatum invadiu a área restritiva convicto de que ia afundar e forçar um segundo prolongamento no jogo 1. O poste dos Heat, qual controlador do espaço aéreo, tirou os pés do chão e desarmou-o. A equipa de Miami acabaria por eliminar os Celtics e seguir para a final, frente aos Los Angeles Lakers.

Eram tempos estranhos. A NBA foi enfiada numa bolha sanitária em Orlando para fechar as portas à pandemia. Contrariamente, Bam Adebayo vivia os primeiros momentos como estrela na liga norte-americana. Três anos após ter sido escolhido na 14ª posição do draft, foi eleito All-Star, algo que voltaria a acontecer em 2023 e 2024.

O jogador de 28 anos a ser saudado pelos colegas após marcar 83 pontos num jogo da NBA
Megan Briggs

Os Heat começaram a perceber que tinham um jogador com características especiais. Mesmo com 2,06 metros e 115kg, era rápido a atravessar o campo e, após ressalto defensivo, não tinha problemas em driblar até ao ataque. A qualidade de passe também sobressaía. Por ser tão completo, tem oito triplos-duplos na carreira.

A repartição dos contributos pelas várias colunas da estatística fez-lhe descontos no número de jogos de elevada marcação de pontos. Até alcançar o exorbitante máximo de carreira, Adebayo só tinha ultrapassado os 30 pontos em 31 ocasiões. Para efeitos, comparativos, LeBron James fê-lo 575 vezes. Além disso, só numa situação tinha ido além dos 40 pontos (em 2021).

Um jogo de loucos

Um estado espiritual em que parece impossível falhar. Instantes em que tudo está em sintonia. Circunstâncias em que alguém parece imparável. Os basquetebolistas chamam a esta sensação estar in the zone. Bam Adebayo, definitivamente, passou por ela na vitória frente aos Washington Wizards (150-129) quando ultrapassou os 81 pontos que Kobe Bryant marcou em 2006 e se tornou no segundo jogador com mais pontos de sempre num jogo da NBA, apenas atrás dos 100 de Wilt Chamberlain (1962).

Embora pouco interessados em vencer o jogo, os Wizards tentaram evitar que a história os recordasse como a equipa que foi dizimada por um só jogador. A certo ponto do último quarto, já sem hipóteses de lutar pelo triunfo, colocaram três jogadores à volta de Bam Adebayo para tentarem conter o vendaval. Outra opção foi fazerem faltas sobre jogadores aleatórios dos Heat para que fossem eles a dirigirem-se para a linha de lance livre e não aquele que estava mais inspirado.

Erik Spoelstra sobrecarregou Bam Adebayo com 42 minutos de utilização. “Quando ele chegou aos 50 pontos, pensámos: 'Talvez consiga chegar aos 60'. Quando chegou aos 60, simplesmente continuou. Pode muito bem chegar os 70. Não me atrevi a substituí-lo”, admitiu o treinador que não contou com os dois melhores marcadores da equipa, Norman Powell e Tyler Herro.

O treinador Erik Spoelstra rendido à exibição do poste
Megan Briggs

Bam Adebayo conseguiu os seus 83 pontos fruto de 20 lançamentos de campo concretizados, sete dos quais foram triplos. Incapazes de parar a sua musculatura, os Wizards enviaram-no 43 vezes para a linha de lance livre (recorde da NBA) de onde concretizou 36 desses tiros (outra marca inédita). O registo deixou “muito emocionado” alguém que chegou à liga como mero “defensor e ameaça vertical”, confessou o próprio. “O Wilt, eu e o Kobe. Parece maluco.”

Apenas seis jogadores no ativo chegaram à marca dos 70 ou mais pontos. Entre eles, com 73 em 2024, Luka Dončić foi quem mais perto ficou de alcançar Kobe Bryant. Estão espalhados pela NBA prolíferos marcadores de pontos, triplistas capazes de atingir uma marcação elevada com poucos lançamentos e jogadores que dominam a arte de ganhar lances livres. De Bam Adebayo podem-se esperar contributos relevantes para a conquista de um título, mas marcar 83 pontos num jogo merece pasmo.

As origens

Bam Adebayo é a demonstração de que ninguém é um produto acabado. Era um jogador com limitações quando chegou à NBA, mas foi na vida que deu o maior pulo.

Uma das primeiras pessoas que abraçou após a noite histórica foi Aja Wilson, namorada que detém o recorde de mais pontos marcados num jogo da WNBA (53). Seguiu-se a mãe, Marilyn. Em tempos, foram a única companhia um do outro. O pai, de origem nigeriana, deixou Marilyn a criar do bebé sozinha. Bam, envergonhado, não tinha a vida social mais desenvolvida de sempre.

No primeiro dos seus 28 anos de vida, Edrice Femi Adebayo derrubou uma mesa de centro enquanto assistia às peripécias dos Flintstones. Marilyn resolveu então dar-lhe uma alcunha em honra de uma das personagens, Bamm-Bamm Rubble.

Por 34 horas de trabalho numa quinta das redondezas, Marilyn recebia sensivelmente 200 euros. “Até aos 16 anos, não tinha noção de que era pobre. A minha mãe fez um grande trabalho e fez-me sentir que tinha o suficiente”, disse Adebayo, que passou a infância numa casa pré-fabricada na Carolina do Norte. “Nunca alguém ia pensar que um All-Star viria dali.

Bam Adebayo apresentou números modesto nos primeiros tempos na NBA, mas já conseguiu ser três vezes All-Star
Megan Briggs

O talento para o basquetebol desenvolveu-se precocemente e a Universidade de Kentucky notou-o. Bam fez parte de uma equipa recheada de jogadores a quem de adivinhava um futuro promissor, como De'Aaron Fox ou Malik Monk. Chegou à NBA após apenas um ano na NCAA.

Na terceira época como profissional, em 2019/20, os números dispararam. Chegou aos 15,9 pontos, 10,2 ressaltos e 5,1 assistências, superando os 8,9 pontos, 7,3 ressaltos e 2,2 assistências referentes a 2018/19. Os Miami Heat desfizeram eventuais dúvidas e quiseram assegurar a continuidade do jogador a longo prazo.

Um ano antes do contrato de rookie acabar, assinou uma extensão de $163 milhões para as cinco épocas seguintes. Com parte desse dinheiro, ofereceu uma casa à mãe no dia do seu 56º aniversário.

Após marcar 83 pontos, Bam Adebayo imaginou o que lhe diria naquele momento Kobe Bryant, alguém que “idolatrava ao crescer”.

“Provavelmente, dir-me-ia para o fazer de novo.”

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