Os New York Knicks ofereceram algo novo à sua cidade: a alegria impossível
Adeptos dos New York Knicks festejam na Times Squere, em Manhattan, depois da equipa confirmar o seu primeiro título da NBA desde 1973
DAVE SANDERS/The New York Times
A festa da vitória dos New York Knicks, que conquistaram a NBA pela primeira vez desde 1973, foi diferente porque os eventos de mobilização em massa em Nova Iorque tendem a estar associados a tragédias insuportáveis: o 11 de Setembro, o furacão Sandy, a COVID. Talvez a surpresa desta campanha tenha sido o facto de as experiências partilhadas na cidade poderem ser boas, alegres e simples
Matt Flegenheimer/The New York Times
NOVA IORQUE— Então é assim que isto se sente. São risos, lágrimas, piruetas, convulsões, mosh pits, buzinas de camiões, burlar a lei, tocar trompete, tocar sinos de vaca, cantar desafinado, acender charutos, a noite toda — lembrando-nos de recordar tudo isso, como se os adeptos dos New York Knicks alguma vez fossem esquecer.
É abraçar estranhos com tanta força que eles voam pelos ares, dar fist pumps aos taxistas enquanto estes avançam lentamente por entre o delírio de betão, dar um high five às crianças nos ombros (e aos adultos nos ombros), trepar a semáforos, árvores e andaimes para agitar a bandeira da equipa mais alto, roubar cones de sinalização e usá-los como chapéus porque são laranja.
São lágrimas que molham o pavimento em frente ao Madison Square Garden, onde, há várias gerações, os nova-iorquinos saíam a caminhar, desiludidos, após uma derrota, após uma decepção, após mais uma crueldade.
É como dançar em fila ao som de Frank Sinatra numa ciclovia da Broadway (“Começai a espalhar as notícias…”) enquanto um homem ali perto se põe de pé no banco de uma paragem de autocarro para fazer um anúncio a ninguém e a todos em particular (“Senhoras e senhores! Acabámos de testemunhar um momento históricooooooo!”) — e é todo o quarteirão a responder com gritos primitivos e guturais que agitam cães e bebés, civilizações e memórias de familiares que teriam adorado esta equipa.
“NEW YORK KNICKS! «NEW YORK KNICKSSSSSSSSSSSSS!”.
É assim que isto se sente.
Ao longo dos 53 anos, na sua maioria desanimadores, muitas vezes caóticos, ocasionalmente emocionantes e que puseram constantemente à prova a fé dos adeptos entre os dois títulos dos Knicks, os adeptos questionavam-se naturalmente como seria celebrar a equipa pela qual a cidade mais se importava, pelo menos uma vez, tal como outras cidades com equipas queridas já tinham feito inúmeras vezes.
Adeptos emocionados após a conquista dos Knicks
LEXI PARRA/The New York Times
Essa sempre foi a pergunta errada; a sua premissa foi rejeitada com entusiasmo na madrugada de domingo, entre as pessoas a surfar no tejadilho dos carros, os fogos de artifício e as crianças pré-adolescentes a insultar os adversários derrotados dos Knicks, e as garrafas de champanhe vazias, abandonadas nas calçadas, ainda a vibrar quando o sol nasceu.
Aqui seria sempre diferente, porque Nova Iorque é um caso à parte — pelo seu tamanho, pela sua amplitude, pela sua indomável autoconfiança — uma cidade que se vive ao máximo, de perto, para aqueles que têm a sorte e o masoquismo suficientes para o tentar.
É diferente porque o basquetebol é o desporto da cidade, o reino dos tabuleiros metálicos a tilintar, do Rucker Park e das t-shirts do Bacon Egg & Threes e um homem com um moicano laranja e azul a saltitar como um rapaz no recreio de domingo de manhã, enquanto uma mulher com um lenço laranja e azul dançava o twerk com dezenas de novos amigos num trailer de um camião.
É diferente porque, apesar de toda a sua genialidade confusa, há tão pouco nesta cidade que seja universalmente sentido: é rica e falida, é dos Mets e dos Yankees, é impiedosa e generosa, é enorme e nunca pareceu tão pequena como nos últimos tempos, quando se pensou que talvez pudesse ver algo que tantos adeptos dos Knicks acreditavam que nunca veriam antes de morrer.
É diferente porque os eventos de mobilização em massa em Nova Iorque tendem a estar associados a tragédias insuportáveis: o 11 de Setembro, o furacão Sandy, a COVID. Talvez a surpresa desta campanha tenha sido o facto de as experiências partilhadas na cidade poderem ser boas, alegres e simples.
“É história”, disse baixinho um agente da polícia numa barricada na Sexta Avenida, admitindo que tinha estado a dar espreitadelas no telemóvel a meio do jogo, quando os seus superiores não estavam a ver. “Estás aqui, aproveita”.
“É puro... aí está!”. Bill Bradley, membro do Hall of Fame da última equipa campeã, em 1973, exclamou da sua cadeira na festa de acompanhamento do jogo, depois de os Knicks terem vencido o Jogo 1. “A bola ou entra ou não entra. Não há ambiguidade nem dúvida sobre o que acabou de acontecer.”
Na manhã de domingo, ainda pairava, nestas ruas alucinantes, pelo menos alguma dúvida sobre o que acabara de acontecer, mesmo que o excesso de confiança dos adeptos tenha sido uma constante nos playoffs deste ano.
“Knicks em quatro jogos!”, gritaram durante todo o mês, até perderem o terceiro jogo. “Knicks em cinco jogos!”, repetiam ao saírem do Madison Square Garden naquela noite — e, finalmente, com precisão e não apenas como um desejo, ecoando pelos bairros na madrugada de domingo, ressoando nas paredes, nos camiões do lixo e nos tetos dos vagões do metro.
Adepto do New York Knicks à espera do metro em Harlem
SHURAN HUANG/The New York Times
No entanto, este momento nunca pertenceria só aos criadores de conteúdo mais barulhentos que se filmavam na Sétima Avenida, nem aos foliões mais turbulentos que subiam a táxis e carrinhas da polícia sem motivo aparente.
Esta foi uma noite para os fãs mais discretos, que só podiam assistir aos jogos sozinhos (para o bem de todos) e que nunca duvidaram, mesmo quando duvidaram profundamente; para os fãs de longa data que um dia vão chorar ao pensar nesta equipa (e que hoje choram só de pensar que um dia vão chorar); os novos residentes locais agora consagrados como verdadeiros nova-iorquinos; as crianças do pré-jardim de infância a mordiscar os bagels laranja e azuis que recentemente foram colocados nas suas lancheiras.
“Muito feliz”, disse Albie, um menino de 5 anos com os olhos ainda sonolentos, acordado pelos pais para participar na festa pós-jogo em Brooklyn, nos braços do pai, com o dedo apontado para o céu.
O facto de os jogadores parecerem compreender a cidade, tal como a cidade procurava compreendê-los, contribuiu para isso.
O seu melhor jogador, Jalen Brunson, era baixo (para o basquetebol), subestimado (pela sua última equipa) e tinha-lhe sido incutida (pelo pai, um antigo jogador dos Knicks) a ideia de que vencer aqui significaria mais do que vencer em qualquer outro lugar.
A melhor jogada da equipa — um lançamento em suspensão lateral, desafiando a lógica, que garantiu a vitória, de OG Anunoby no Jogo 4 — parecia ter-se transformado, no ar, numa futura estátua cuja placa diria algo verdadeiramente comovente sobre a tenacidade de Nova Iorque.
“Refletimos todos os nossos fãs e os seus estilos de vida”, tinha afirmado Karl-Anthony Towns, o pivô que cresceu do outro lado do rio, em Nova Jérsia, e ficou conhecido como Bodega KAT, no início da série. “E o que é preciso para ter sucesso em Nova Iorque.”
Os nova-iorquinos aceitam de bom grado um certo grau de infelicidade inerente, em nome daquela ideia de que “quem consegue aqui, consegue em qualquer lugar”: a renda é demasiado alta, o metro está em péssimo estado e a população de ratos é demasiado resistente.
Durante a maior parte da história moderna da cidade, os Knicks fizeram parte desse cenário, uma constante sombria no meio de mudanças constantes. Há aquele cliché enfadonho sobre o “minuto nova-iorquino”. E os 53 anos de Nova Iorque? Este lugar escapou à falência, construiu (e reconstruiu) torres, e viu nascer as carreiras de Jay Z, J. Lo e J. Seinfeld.
Disseram-lhe para ir para o inferno e ela recusou. Elegeu um bilionário, um socialista e um tal de Bill de Blasio. Tem-se referido a Donald Trump como um figurão tagarela, um vendedor de bifes, arguido e um presidente cuja presença no Jogo 3 levou os fanáticos dos Knicks, de todas as tendências políticas, a questionarem-se sobre uma maldição presidencial.
Mas, por outro lado, esta temporada dos Knicks — que desafia o azar, dá vida e é de um absurdo total — tem tido uma forma de distorcer o espaço, o tempo e a memória.
Foi uma longa espera de mais de 50 anos para os nova-iorquinhos verem um título da sua equipa favorita
SHURAN HUANG
Será que eles realmente não perderam durante um mês e meio? Será que conseguiriam realmente abalar o gigante francês dos Spurs, Victor Wembanyama, que desenhava tranquilamente no Gramercy Park entre os jogos?
Por que é que pessoas sensatas, pessoas equilibradas — pessoas com famílias, carreiras, pensões e uma visão de futuro — afirmavam que estas eram as melhores noites das suas vidas?
Talvez os sexagenários se tenham sentido novamente como crianças, porque era isso que eram quando a equipa ganhou o último título. Talvez os millennials se tenham sentido novamente como crianças por terem sido transportados para os anos 90, quando a equipa chegou pela última vez à final e os rostos marcados pelo tempo que agora pontuavam a multidão no Garden — Patrick Ewing, John Starks, Allan Houston, Latrell Sprewell — estavam colados nas suas paredes.
Ou será que todos se sentiram como crianças, pelo menos um pouco, porque tudo isto começou a parecer quase mágico — os lances divinos, as reviravoltas milagrosas, a alegria incontrolável?
E quem, senão uma criança, poderia pensar assim? “Lembrem-se!”, gritou um vendedor de t-shirts à porta de uma carrinha halal na Sexta Avenida, no início da manhã de domingo, exibindo a sua mercadoria aos fieis. “Lembre-se deste dia!”