Mattias Grafstrom estava em Gales para uma reunião do IFAB (International Football Association Board), porventura a menos badalada das mais relevantes instituições do futebol, quando os jornalistas o interpelaram. Tinham ali uma das caras da FIFA, não a dos cortejos crónicos com os holofotes e dos afagos a quem detém poder, mas o seu secretário-geral. E de Grafstrom extraíram a frase número 33 (ou outro à vossa escolha) do manual para totós de declarações a usar no caso de surgir uma emergência e haver uma situação inconveniente com que lidar: “Vamos monitorizar os desenvolvimentos em torno de todos os assuntos em todo o mundo.”
Sem querer ser demasiado severo com Grafstrom, o dirigente da FIFA pouco mais além poderia ter ido. Justo será assumir, também, que ser questionado sobre os EUA, o Irão e o Mundial não foi propriamente uma bola curva, cheia de efeito e vinda de nenhures, que o apanhou desprevenido. “O nosso foco é que todas as seleções participem”, acrescentou à insípida reação, a possível, face ao aninhar de lençóis da sua organização, nos últimos tempos, com o responsável pelo facto de haver jornalistas num castelo de Cardiff, na reunião anual onde o foco é matutar sobre as regras do futebol, a perguntarem-lhe antes sobre bombardeamentos a mais de cinco mil quilómetros de distância.
Menos de um ano após a Guerra dos 12 dias, quando os EUA e Israel juntaram trapos para atacar o Irão, os dois uniram-se de novo no deflagrar de outro conflito que será batizado com outro nome e pôs, mais uma vez, a FIFA numa encruzilhada, a escudar-se em reações anódinas.
Não é a culpada por a quase 100 dias do Campeonato do Mundo uma das suas nações anfitriãs bombardear um dos 48 países participantes, mas, tendo a FIFA um presidente pródigo a estampar sorrisos na companhia de um líder político em concreto, a entidade que governa o futebol e se vende, em tese, como apolítica, pôs-se a jeito de a ótica das proximidades recentes de quem a governa funcionar em seu desfavor. E erguer agora mais sobrolhos.
Quando lhe perguntarem sobre a decisão de Donald Trump em reincidir no bombardeamento do Irão, desconfio que nada de substancial dirá Infantino. A FIFA é um lugar cinzento como a Terra é um planeta azul, se observadas ao longe há em ambas uma cor predominante e a da organização futebolística, assim pintada pela vagueza das suas normas, permitirá ao seu líder defender que não lhe cabe pronunciar-se sobre a soberania dos estados, os conflitos no mundo ou as decisões nos gabinetes de presidentes: no artigo 16º dos seus Estatutos, a FIFA pode “suspender associações que violem as suas obrigações”, entre as quais consta, segundo o 19º, cada membro “gerir os seus assuntos de forma independente e sem influência de atores externos”.
Infantino pronunciar-se-á acerca do imbróglio, chegue esse dia, com a cara de assíduo frequentador do escritório presidencial mais conhecido do mundo. A FIFA, como sabemos, não se mete em política. O seu presidente, sim. Ainda em fevereiro esteve alegremente no Conselho da Paz, análogo às Nações Unidas e criado por Donald Trump para ser o que ele não gosta que as Nações Unidas não sejam, onde foi fotografado a segurar um boné com as iniciais “USA” bordadas.
O problema, um de vários, a entroncar no beco inaudito de um anfitrão do Mundial iniciar duas guerras com um país qualificado para o torneio está na proximidade nutrida sem celeuma por Infantino com quem o trata por “my friend Gianni”.
O facto de o líder da instituição, em teoria, com dever de neutralidade, ser visita assídua da Casa Branca onde parece que assistimos a uma itinerância moderna do Monopólio — um dia por lá se decide atacar a Nigéria, noutro pensa-se em anexar a Gronelândia, pelo meio negoceia-se com as petrolíferas dos EUA a sua entrada na Venezuela, também atacada pelos EUA — foi agravando a perceção exterior da FIFA. Não melhorou quando Infantino atribuiu a Trump o Prémio da Paz, em dezembro. “Objetivamente, ele merece. Foi instrumental em resolver conflitos e salvar milhares de vidas”, justificou sobre o homem que já lançou ataques contra cinco países no seu segundo mandato.
É esta FIFA, com este Gianni Infantino, a quem se exigirá, primeiro, uma reação e, depois, uma gestão da crise que alastrou da geopolítica para o futebol, dois universos indissociáveis. Não tem precedentes um anfitrião de Mundial estar em guerra com uma nação participante com tão pouca antecedência em relação ao torneio e provável será que o Irão aja antes de a FIFA ser instada a fazê-lo: no domingo, Mehdi Taj, presidente da Federação Iraniana, disse, citado pela “Reuters”, ser “certo” que “depois destes ataques é difícil olhar com esperança” para o Mundial. O país poderá boicotar o Campeonato do Mundo.
Se o fizer, a FIFA poderá multá-lo (sim, com dinheiro a pagar) por se retirar da prova. Se o Irão não o fizer, a entidade “decidirá exclusivamente” e tomará “qualquer ação que ache necessária”, lê-se nas regras redigidas pela própria para a edição de 2026. Incluem a hipótese de poder “decidir substituir” unilateralmente o Irão por outra seleção — poderia ser a dos Emirados Árabes Unidos, equipa com o atual melhor ranking da Confederação Asiática de Futebol. Ou a do Iraque, caso não vença o play-off de apuramento (contra o Suriname ou a Bolívia). Mas isto é uma divagação, porque no cinzento dos regulamentos nada está previsto para uma situação destas.
É tão pouco crível, de momento, visualizar a seleção do Irão, já qualificada para o Mundial, a viajar para os EUA no verão como improvável será a repetição de um cenário, caso mantenha a participação no torneio, visto na edição de 1998, quando as duas equipas se defrontaram e o capitão iraniano ofereceu flores brancas, a cor da paz, ao homólogo norte-americano antes de os jogadores posarem em conjunto para a fotografia. Já o era antes desta nova guerra deflagrada no sábado: o Irão é um de 39 países a cujos cidadãos a administração de Trump nega vistos de entrada no país. Atletas e staff de seleções desportivas são uma exceção, mas nenhum adepto iraniano poderá viajar para o Mundial.
Infantino há muito que se terá inteirado de ser um sortudo incurável enquanto estiver à frente da FIFA, bafejado pelo gracejo de a cada quatro anos, mal a bola comece a rolar, os adeptos se esquecerem de tudo o que está fora daquele hectare de relva. Praia do irracional, o futebol é vivido com emoção. Venha o que vier quanto ao Irão, escalado para jogar em Los Angeles (contra Bélgica e Nova Zelândia) e Seattle (Egito) na fase de grupos, quem vibra com a bola tende a ficar anestesiado face a tudo o resto.
Caso o Irão, aliás, jogue o Mundial, a FIFA terá uma embrulhada com que lidar no seu maior palco onde costuma impor a jogadores, treinadores e seleções a sanitização apolítica que o seu presidente se abstém de adotar. Em 2018, Infantino também se sentou ao lado de Vladimir Putin, no Mundial da Rússia, após o país invadir e anexar a Crimeia, na Ucrânia.
Até lá, de uma forma ou de outra, não surpreenderá se a entidade frisar que está a monitorizar a situação. Com um presidente já publicamente tão confidente da pessoa que decidiu colocar o anfitrião do Mundial em guerra com um dos países qualificados para lá jogar, a perspetiva de a FIFA ser próxima de Donald Trump volta à baila. E isso é um problema.
O que se passou
Zona mista
Se se provar que o meu jogador não respeitou esses princípios [da tolerância e contra o racismo] que são os meus e os do Benfica, a carreira desse jogador com o treinador José Mourinho e com o Sport Lisboa e Benfica chega a um fim. Não sou um letrado, mas também não sou um ignorante.
As palavras são de José Mourinho, treinador dos encarnados, ditas em conferência de imprensa, espaço que já não visitava há algum tempo, sobre Gianluca Prestianni, argentino investigado pela UEFA devido ao alegado insulto racista que proferiu contra Vinícius Júnior.
O que vem aí
Segunda-feira, 2
⚽ A 24ª jornada da I Liga encerra com o Gil Vicente-Benfica (20h15, Sport TV1). Mais ou menos à mesma hora, na La Liga, há um Real Madrid-Getafe (20h, DAZN1).
Terça-feira, 3
🏀 NBA: os Boston Celtics, de Neemias Queta, jogam contra os Milwaukee Bucks (00h30, Sport TV2).
⚽👩 A seleção nacional feminina defronta a Finlândia, em Vizela, no arranque da fase de apuramento rumo ao Mundial de 2027 (18h45, RTP1).
⚽ Na Taça do Rei, em Espanha, o Barcelona acolhe o Atlético de Madrid na 2ª mão dos quartos de final (20h, Sport TV2) após perder por 4-0 no primeiro jogo.
⚽🏆 O Sporting recebe no Estádio de Alvalade o FC Porto na 1ª mão das meias-finais da Taça de Portugal (20h45, RTP1).
Quarta-feira, 4
🎾 Arranca o torneios Masters 1000 de Indian Wells, nos EUA (a partir das 19h, Sport TV6)
⚽ É uma semana para as taças um pouco por toda a Europa: em França, o Marselha recebe o Toulouse (20h, Sport TV3) e, por Itália, a Lazio acolhe a Atalanta (20h, Sport TV2). Mas não em Inglaterra, onde a Premier League rola e o Nottingham Forest de Nuno Espírito Santo visita o Manchester City de Bernardo Silva, Rúben Dias e Matheus Nunes (19h30, DAZN) e o United de Bruno Fernandes e Diogo Dalot vai a Newcastle (20h15, DAZN).
Quinta-feira, 5
🏀 NBA: New York Knicks-Oklahoma City Thunder (00h, Sport TV2).
🎾 Masters 1000 de Indian Wells (a partir das 19h, Sport TV6).
⚽ Também o Olympique Lyonnais, de Paulo Fonseca e Nuno Moreira, joga da Coupe de France frente ao Lens (20h10, Sport TV1), a surpresa desta época do futebol gaulês.
Sexta-feira, 6
🎾 Masters 1000 de Indian Wells (a partir das 19h, Sport TV6).
🏉 Quarta jornada do torneio das Seis Nações: Irlanda-Gales (20h10, Sport TV4).
⚽ Começa a 25ª jornada da I Liga com o Famalicão-Arouca (20h15, Sport TV1). Em França, o PSG de Vitinha, João Neves, Nuno Mendes e Gonçalo Ramos recebe o AS Monaco (19h15, Sport TV2).
Sábado, 7
🏀 NBA: os Celtis de Neemias volta a campo para se medirem contra os Dallas Mavericks (00h, Sport TV1).
🏉 Torneio das Seis Nações: Escócia-França (14h10, Sport TV6), jogo que pode decidir o campeão, e Itália-Inglaterra (16h30, Sport TV6)
🎾 Masters 1000 de Indian Wells (a partir das 19h, Sport TV6).
⚽👩 Portugal recebe a Eslováquia, em Barcelos, no segundo encontro da qualificação para o Campeonato do Mundo feminino de 2027 (16h, RTP1).
⚽ Continua o campeonato nacional: Alverca-AVS (15h30, Sport TV), Moreirense-Nacional (14h30, V+), SC Braga-Sporting (18h, Sport TV) e Estoril Praia-Casa Pia (20h30, Sport TV).
Domingo, 8
🏎️ Arranca a temporada de 2026 da Fórmula 1 com o Grande Prémio da Austrália, em Melbourne (4h, DAZN).
🏉 Portugal joga a meia-final do Rugby Europe Championship (o Seis Nações B) contra a Espanha (14h50, Sport TV6).
⚽ Mais I Liga: Estrela da Amadora-Gil Vicente (15h30, Sport TV), Benfica-FC Porto (18h, BTV) e Santa Clara-Vitória (20h30, Sport TV).
Hoje deu-nos para isto
No que a contos de fadas diz respeito, o Bodø/Glimt tomou as atenções, como não, na última semana, ao eliminar o Internazionale da Liga dos Campeões, ganhando em Milão após vencer na sua modesta casa no Círculo Polar Ártico, albergue para cerca de oito mil pessoas na terra onde vivem pouco mais de 50 mil. O pequeno clube norueguês onde jogam na sua maioria noruegueses é a história mais cintilante de improbabilidades no futebol desde a erupção do Leicester, em 2016, quando foi campeão da endinheirada Premier League.
Mas, ali ao lado, igualmente no frio nórdico, o Mjällby já tinha feito explodir, em novembro, a sua interpretação de desafio às odes: vindo de uma aldeia de pescadores nem com dois mil habitantes, onde há quem diga que reparamos lá ter chegado quando já não houver mais estrada para andar, o clube foi o mais do que improvável campeão da Suécia. Foi apenas a sexta vez em que participou na primeira divisão do país.
Conseguiu-o com um diretor de scouting em part-time, e teletrabalho, que era carteiro pela manhã, e com um treinador a lidar com uma leucemia. Tinha como adjunto Karl Marius Aksum, hoje técnico principal do Mjällby. O Pedro Barata falou com ele, um homem confiante e bastante seguro de si: aos 34 anos, só a época passada teve a sua primeira experiência no futebol profissional porque a sua formação principal era em perceção visual, área na qual se doutorou.
Da sua especialidade vieram, aliás, palavras elogiosas para um certo jogador português: “Vitinha possui o nível mais elevado de scanning que já vi. Fá-lo melhor que Xavi, porque o jogo está mais rápido e ele olha em redor em movimento, em velocidade, conduz a bola e descobre espaços enquanto olha para todo o lado.” De um lugar de improbabilidade vem a sabedoria, e uma história, que provam como por entre as frestas apertadas do futebol dos magnatas e fundos de investimento ainda passam façanhas de superação.
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