O jornalismo é um puro ato de altruísmo. Fazê-lo é ouvir as notícias de outros e entregá-las a outros. Porém, a figura que está lá no meio, o jornalista, não existe apenas para etiquetar a encomenda. Deve avaliar a importância, confirmá-la, ouvir todas as partes, duvidar, esculpi-la com detalhes que a sua curiosidade venha a obter, relacionar os factos com informações passadas ou futuras, torná-la percetível e, nos tempos que correm, apelativa. Está proibido de ser um mero encaminhador. Quem faz jornalismo não se pode aproveitar dele para benefício próprio ou torná-lo numa plataforma para terceiros manipularem a informação em prol de causas que não se encaixam no bem comum.
Ser jornalista é apenas uma convicção. “48% apresenta níveis elevados de esgotamento; 38% apercebem-se de problemas mentais decorrentes do próprio trabalho jornalístico; cerca de 50% trabalham mais de 40 horas por semana; um terço considera que há um ‘desequilíbrio ruinoso’ entre a vida pessoal e a profissional.” Todos estes dados relativos ao contexto português nos foram prestados, em 2023, pelo “Inquérito Nacional às Condições de Vida e de Trabalho dos Jornalistas”. A precariedade tem metástases em todo o lado. No início deste ano, a secção de desporto do “The Washington Post” deixou de existir na sequência de uma onda de despedimentos que abrangeu mais de 300 jornalistas da publicação.
Estar à mesa com um grupo de incompreensíveis seres dedicados a esta ocupação pode ser aborrecido. Por vezes, parecem não saber falar sobre as leviandades da vida, estando sempre a trazer assuntos relacionados com uma atividade que, apesar dos seus defeitos, tem muito mais qualidades. Refletir sobre a profissão é uma dessas virtudes. Há um debate em torno do jornalismo que só interessa a quem o faz. Títulos, estruturas de peças, fontes a contactar... tudo pode acender uma discussão apaixonada. Depois, há os temas mais amplos, como os dilemas éticos ou as diferenças editoriais entre órgãos de comunicação social.
Criticar abertamente os pares é deselegante. Uma vez que Fabrizio Romano é de outra casta, talvez não fique mal fazer alguns reparos.
Fabrizio Romano é um especialista em transferências que noticia os maiores negócios do futebol mundial. A quantidade de furos publicados nas redes sociais garantiu-lhe uma imensa plateia de pessoas à espera da próxima movimentação de mercado. Tem 27 milhões de seguidores no X, 30 milhões no Facebook, 43 milhões no Instagram e 21 milhões no TikTok.
Numa entrevista recente à CBS, o italiano definiu-se como sendo “50% jornalista, 50% criador de conteúdo”. Ou seja, aceitou equiparar-se a influencers que vivem de parcerias com marcas para fazerem render a estimulação feita ao algoritmo. Nessa mesma conversa, admitiu que gostava de aprender a falar árabe, porque “isso pode ser parte do futuro”. O comentário não foi muito distinto da propaganda que Cristiano Ronaldo costuma fazer ao campeonato da Arábia Saudita a propósito das toneladas de dinheiro que lhe pagam para jogar e promover o país ao mesmo tempo.
A semelhança retórica era um sinal. Recentemente, Fabrizio Romano publicou um vídeo em que destacava o “papel humanitário global da Arábia Saudita”. Como se não fosse claro, assinalou-o como publicidade. Alheio a incompatibilidades, aceitou ser pago para limpar a imagem a um regime e o disfarce de jornalista caiu.
Na gravação, destacava as ações do King Salman Humanitarian Aid and Relief Centre, parceiro da UNICEF desde 2015. Os projetos enumerados incluíam o Iémen, onde os bombardeamentos de uma aliança de países liderados pela Arábia Saudita causaram a morte de milhares de civis entre 2015 e 2022, ataques que mereceram a condenação da ONU. Obviamente, que esta inconveniência não foi mencionada. Também não há referência ao homicídio do colega Jamal Khashoggi, crítico do príncipe saudita Mohammed bin Salman. O máximo que se pode saber a partir das palavras de Fabrizio Romano é o valor recorde pago por um jogador, não o número máximo de penas de morte aplicadas pela Arábia Saudita em 2025.
Fabrizio Romano tem informações que todos desejam e partilha-as antes dos outros. Não é isso que os jornalistas querem? Caso se importem com a manutenção da integridade e em serem livres para contar todos os lados da história, não.
Não assim há tanto tempo, o guru que foi adiantando detalhes da ida de Kylian Mbappé para o Real Madrid noticiou o empréstimo do jogador do Rio Ave, Noah Santos, ao Leça. O nome talvez não lhe seja familiar. Falamos de um extremo que não estava a render na Académica e, em janeiro de 2025, trocou de ares. Na prática, embora o passe continue a pertencer ao Rio Ave, tratou-se de uma mudança da 3ª para a 4ª Divisão. Talvez existam algumas pistas para o súbito interesse na carreira de um jogador cujo post a divulgar a transferência conteve um erro no nome do prodígio em causa.
Em 2024, o antigo diretor de marketing do Vålerenga, Mehran Amundsen-Ansari, veio a público expor que Fabrizio Romano, através de uma empresa, contactou os noruegueses para oferecer os seus serviços. A proposta incluía conteúdo sobre jogadores disponíveis no mercado e publicações sobre o clube em si. Um post custaria mais de 1000€ e um vídeo promocional atingia praticamente os 5700€, segundo o formulário a que o “Idrettspolitikk.no” acedeu. Na última janela de mercado, Fabrizio Romano anunciou em simultâneo com o FC Porto a chegada de Thiago Silva aos dragões.
Apesar das práticas que não lhe salvam a independência, Fabrizio Romano vai continuar a ter mais reconhecimento do que imprensa de respeito. Uma boa conduta ética nunca ajudou ninguém a ganhar seguidores, mas vai continuar a ser o que separa o jornalismo de outras profissões. Estamos perdidos no dia em que as notícias forem feitas para nos enganar.
O que se passou
Zona mista
“Fiquei impressionado com o Paul. Ele é uma grande máquina”
Estará Tadej Pogačar a ganhar uma sombra? A pitoresca Strade Bianche foi arrebatada pelo esloveno, que a venceu pela quarta vez. Porém, o luso-francês Paul Seixas fez por merecer o reconhecimento. O corredor da Decathlon ficou em segundo lugar. Se, em momentos cruciais, tivesse companhia melhor do que Isaac Del Toro, nada interessado em perseguir o companheiro de equipa que seguia na frente, a resistência de Seixas podia ter durado mais tempo.
O que vem aí
Segunda-feira, 9
⚽ I Liga: Tondela-Rio Ave (20h, Sport TV1)
🏀 NBA: Oklahoma City Thunder-Denver Nuggets (23h30, Sport TV1)
Terça-feira, 10
⚽ Liga dos Campeões: Galatasaray-Liverpool (17h45, DAZN1), Atlético Madrid-Tottenham (20h, DAZN1), Atalanta-Bayern Munique (20h, DAZN2) e Newcastle-Barcelona (20h, Sport TV5)
🤾 Liga Europeia de andebol: Skaderborg-FC Porto (17h45, Porto Canal) e Benfica-Kristianstad (20h, Benfica TV)
Quarta-feira, 11
🏀 NBA: San Antonio Spurs-Boston Celtics (00h, Sport TV1)
⚽ Liga dos Campeões: Bayer Leverkusen-Arsenal (17h45, DAZN1), PSG- Chelsea (20h DAZN2), Real Madrid-Manchester City (20h, DAZN1) e Bodø/Glimt-Sporting (20h, Sport TV5)
Quinta-feira, 12
⚽ Liga Europa: Estugarda-FC Porto (17h45, Sport TV5) e Celta-Lyon (20h, DAZN3), Nottingham Forest-Midtjylland (20h, DAZN2) e Ferencváros-SC Braga (20h, DAZN1)
🏑 Liga dos Campeões de hóquei em patins: SCRA Saint-Omer-FC Porto (19h, Porto Canal)
🤾 Liga dos Campeões de andebol: Sporting-Dínamo Bucareste (19h45, Sporting TV)
Sexta-feira, 13
⚽ Campeonato Nacional Sub-19: FC Porto-Sporting (15h, Porto Canal)
Sábado, 14
⚽ Bundesliga: Bayer Leverkusen-Bayern Munique (14h30, DAZN3)
⚽ Premier League: Arsenal-Everton (17h30, DAZN1), Chelsea-Newcastle (17h30, DAZN2) e West Ham-Manchester City (20h, DAZN1)
⚽ I Liga: Arouca-Benfica (20h30, Sport TV1)
🏀 NBA: Boston Celtics-Washington Wizards (22h, Sport TV2)
🏐 Voleibol: final Taça de Portugal feminina (21h, Sport TV6)
Domingo, 15
🏎️ Fórmula 1: Grande Prémio da China (7h, DAZN)
🚴 Ciclismo: termina o Tirreno-Adriatico e o Paris-Nice (Eurosport 2)
⚽ Futsal: final da Taça da Liga (18h, Canal 11)
🏐 Voleibol: final Taça de Portugal masculina (16h, Sport TV3)
⚽ I Liga: FC Porto-Moreirense (20h30, Sport TV1)
🎾 Ténis: final de Indian Wells (21h, Sport TV2)
Hoje deu-nos para isto
Quando há um SC Braga-Sporting e um Benfica-FC Porto na mesma jornada, o cenário mais espetacular é que a classificação sofra reviravoltas. Pelo menos, que os momentos de forma se invertam em prol de alguma incerteza.
No entanto, tal como na primeira volta, os dois clássicos terminaram empatados e as distâncias entre as equipas do topo mantiveram-se. A sete pontos da liderança, José Mourinho acha “difícil” que o Benfica venha a ser campeão. No início da época, cogitou-se quanto à preponderância que os confrontos diretos podiam ter na I Liga. Aparentemente, não foi em dérbis e clássicos que o Benfica perdeu a luta, pois continua com o registo limpo de derrotas, mas foi o primeiro candidato a abandonar a corrida.
A época anterior traumatizou Francesco Farioli a um nível tão profundo que o italiano vai reprimindo o entusiasmo. Com o Ajax, também levava sete pontos de vantagem a cinco jornadas do fim e perdeu a Eredivisie. Após empatar na Luz, o italiano salientou que “ainda há 27 pontos para disputar”, algo que “vai exigir atenção num campeonato muito competitivo”. Mais do que olhar para o Benfica, é preciso olhar para o Sporting que está ali, no segundo lugar, a quatro pontos.
Para o FC Porto, ainda há onde deslizar. Na próxima jornada, recebe o competente Moreirense. Quanto a deslocações, vai a Braga e ao Estoril. A Liga Europa, entalada no meio de tudo isto, constitui um desafio extra. Também o Sporting ainda se encontra na Liga dos Campeões, sendo que, no campeonato, não despachou os compromissos com os rivais. Em abril, há dérbi de Lisboa, em Alvalade.
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