Há coisa de dois anos, neste mesmo espaço, falava da entrada do Fundo Soberano na Arábia Saudita (PIF) no ténis, aos poucos, numa reação de contenção de danos dos tradicionais cartolas da modalidade a uma possível OPA hostil que já parecia decorrer no golfe. Para evitar que os sauditas arrombassem as portas e lhes roubassem o pão, o ATP e a WTA abriram-lhes umas janelas.
Lamentava então que não demoraria muito até o desporto deixar de ser algo universal, democrático, culturalmente relevante, com raízes, para passar a ser propriedade e luxo de gente pornograficamente endinheirada. Não me lembrei, ingenuamente, que precisamente essa falta de raízes, essa visão de quem olha para o desporto como um negócio e não como parte de determinada sociedade, é que poderia muito bem fazer cair o castelo de areia.
E, assim, aqui estamos, dois anos depois, a ver chegar zunzuns de que a Arábia Saudita se fartou dos brinquedos. Ou melhor, fartou-se dos brinquedos que não dão dinheiro, porque quando não há cultura formada ou raízes só o Relatório e Contas conta. Já nem o sportswashing parece relevante. Há duas semanas, os golfistas que nas últimas temporadas viraram as costas à PGA a troco dos milhões oferecidos pelo PIF, investidor máximo do novíssimo circuito LIV Golf, começaram a ouvir notícias de que a torneira saudita pode fechar no final deste ano. Diz a BBC que a LIV já terá perdido bem para lá de mil milhões de euros desde que se formou, em 2021. E não havendo grandes perspetivas, assumidas pelos seus diretores, de que o circuito gere dinheiro na próxima década, os sauditas terão perdido o interesse. Os golfistas que saíram a mal dos circuitos tradicionais poderão ter de pagar multas de milhões se quiserem voltar a competir profissionalmente.
Há mais. Com a Vision 2030, estratégia saudita apresentada em 2016 para diversificar uma economia demasiado dependente do petróleo, a sofrer reformulações atrás de reformulações - até a supercidade Neom está cada vez menos super -, vão caindo outros investimentos. No snooker, o país rasgou um contrato de 10 anos para organizar o Saudi Arabia Snooker Masters, que se ficou por duas edições. O torneio oferecia mais de 500 mil euros ao vencedor, um prize money só equivalente ao do Mundial. Os jogadores afirmam que não receberam qualquer explicação por parte dos organizadores para o cancelamento da prova.
No ténis, ficou a meio também o contrato de Jedá para organizar as Next Gen ATP Finals, torneio anual que junta os jovens mais promissores do ténis. A Arábia Saudita também não renovou o contrato com a WTA para Riade continuar a ser a cidade anfitriã do torneio final do circuito feminino. O país desistiu ainda de organizar os Jogos Asiáticos de inverno (!) de 2029, que teriam lugar na estância de Trojana, que seria construída no âmbito do projeto Neom, que soma deslizamentos, não na neve artificial, mas sim no orçamento e prazos.
O futebol parece, para já, passar algo incólume, ainda que os cheques que levaram Cristiano Ronaldo ou Karim Benzema para a península já não sejam os mesmos. Nos últimos dias, o PIF vendeu parte significativa da sua presença no Al-Hilal a um fundo privado saudita - isto se houver algo de verdadeiramente privado no país.
Ao “Guardian”, um antigo funcionário do Ministério do Desporto saudita assegurou que os investimentos do PIF vão focar-se mais em atividades que possam trazer “retorno financeiro” e benefícios a longo prazo para o país que, neste contexto, tem um Mundial de futebol para organizar em 2034. Que vai obrigar à construção de 11 novos estádios, além de infraestruturas públicas para receber equipas e adeptos. Em dezembro, o jornal britânico noticiava também que vários escritórios de arquitetura responsáveis pelos projetos do Campeonato do Mundo estavam a receber pedidos da organização para submeterem novos projetos, mais em conta.
Eu, se fosse a FIFA ou qualquer outra organização que tenha entregue em mãos o seu desporto ao dinheiro saudita, estaria preocupada. E estaria preocupada porque este filme já foi visto na China, na Rússia. Uma cultura desportiva não se cria com um plano a quatro anos, à conta de cheques batidos para diversificar a economia ou lavar mais branco os atropelamentos aos direitos humanos. Não há aqui amor desinteressado pelo desporto, pela competição, uma visão de envolvimento da população para a criação de futuro. E quando assim é os projetos duram o durar a paciência de uns quantos milionários. Ninguém pode dizer que não foi avisado.
O investimento saudita no desporto não terminará, claro, de um momento para o outro. Nomeadamente nos desportos mais rentáveis, como o futebol ou o boxe. Os restantes, eventualmente, retornarão a paragens um niquinho mais modestas, mas onde vão, seguramente, sentir o amor de quem olha para o desporto como parte da sua essência. E aí pode não haver muito dinheiro, mas também não há castelos de areia.
O que se passou
O FC Porto venceu o Estrela da Amadora e com o deslize do Sporting nas Aves pode mesmo ser já campeão no próximo sábado. E o Benfica, que ganhou ao Moreirense, tem agora o 2º lugar nas mãos.
Sporting e Torreense vão disputar uma final da Taça de Portugal diferente, até porque haverá uma equipa da II Liga no Jamor.
E, de repente, alguém pelo menos assustou Tadej Pogačar no seu terreno. E até tem sobrenome português: Paul Seixas, o único a, por momentos, conseguir acompanhar o esloveno na Liège-Bastogne-Liège.
Carlos Alcaraz, campeão em título, vai deixar o quadro de Roland-Garros mais pobre. A culpa é de uma arreliadora lesão no pulso.
Todos os arguidos do processo Saco Azul, incluindo Luís Filipe Vieira, foram absolvidos.
Gianluca Prestianni foi sancionado por seis jogos, três dos quais com pena suspensa, depois dos alegados insultos racistas do Benfica-Real Madrid.
O Benfica é, pela sexta vez consecutiva, campeão nacional feminino de futebol.
Zona mista
Como os meus objetivos são mais altos, encarei este título como um passo intermédio. Quero mais
Filipa Pipiras é a primeira portuguesa a conseguir o estatuto de Grande Mestre feminina de xadrez e ao nosso André Manuel Correia falou das rotinas e dificuldades de conjugar torneios internacionais com a carreira de xadrezista, num país em que é impossível viver do que o tabuleiro lhe dá
O que aí vem
Segunda-feira, 27
⚽ Na I Liga, o Casa Pia joga em casa do Gil Vicente (20h15, Sport TV1) e na II Liga, o Chaves recebe a Oliveirense (18h, Sport TV+)
⚽ O Manchester United joga com Brentford na Premier League (20h, DAZN)
🎾 ATP 1000 de Madrid (14h, Sport TV2)
Terça-feira, 28
⚽ Liga dos Campeões, meias-finais: PSG-Bayern Munique (20h, Sport TV5)
⚽ II Liga: Feirense-Torrense (18h, Sport TV+)
🎾 ATP 1000 de Madrid (10h, Sport TV2)
🏀 NBA, play-offs: Boston Celtics-Philadelphia 76ers (0h, Sport TV3)
Quarta-feira, 29
⚽ I Liga: Sporting-Tondela (20h15, Sport TV1)
⚽ Champions, meias-finais: Atlético Madrid-Arsenal (20h, Sport TV5)
🎾 ATP 1000 de Madrid, quartos de final (13h, Sport TV2)
Quinta-feira, 30
⚽ Liga Europa, meias-finais: SC Braga-Friburgo (20h, Sport TV5). Siga também o Nottingham Forest-Aston Villa (20h, DAZN)
🎾 ATP 1000 de Madrid, quartos de final (12h, Sport TV2)
Sexta-feira, 1
⚽ II Liga: Marítimo-Leixões (15h30, Sport TV1)
🎾 ATP 1000 de Madrid, meias-finais (15h e 19h, Sport TV2)
Sábado, 2
⚽ I Liga: Moreirense-Estrela (15h30, V+), Arouca-Santa Clara (15h30, Sport TV1), Nacional-AVS (15h30, Sport TV2), Famalicão-Benfica (18h, Sport TV2) e FC Porto-Alverca (20h30, Sport TV1) - e pode estar aqui o jogo do título
⚽ Na Serie A, o Nápoles joga em casa do Como (17h, Sport TV3). Em França, o PSG recebe o Lorient (16h, Sport TV4). Na La Liga joga-se o Valencia-Atlético Madrid (15h15, DAZN) e o Osassuna-Barcelona (20h, DAZN)
⚽ II Liga: Oliveirense-Lourosa (11, Sport TV1)
🎾 WTA 1000 de Madrid, final (16h, DAZN)
🏍️ Superbikes, com Miguel Oliveira: GP Hungria, corrida 1 (14h30, Sport TV4)
Domingo, 3
⚽ I Liga: Casa Pia-Tondela (15h30, Sport TV1), SC Braga-Estoril (18h, Sport TV1) e Rio Ave-Gil Vicente (20h30, Sport TV1)
⚽ II Liga: Portimonense-Chaves (11h, Sport TV1) e Paços de Ferreira-Feirense (14h, Sport TV+)
⚽ Na Premier League há clássico: Manchester United-Liverpool (15h30, DAZN)
⚽ Serie A: o Milan joga em casa do Sassuolo (14h, Sport TV2), a Juventus recebe o Hellas Verona (17h, Sport TV2) e o Inter o Parma (19h45, Sport TV2). Na La Liga, o Real Madrid desloca-se ao estádio do Espanyol (20h, DAZN)
🎾 ATP 1000 de Madrid, final (16h, Sport TV6)
Hoje deu-nos para isto
Uma semana depois de Lightning, um robô humanóide, ter sido mais rápido numa meia-maratona do que qualquer homem ou mulher de carne e osso alguma vez conseguiu ser, o humano deu novas provas de relevância. Sabastian Sawe tornou-se, em Londres, no primeiro homem a correr a Maratona em menos de duas horas, uma daquelas barreiras que há duas ou três décadas pareciam impossíveis de quebrar, até deixarem de ser.
Ainda estamos todos meio embriagados com o que se passou no domingo nas ruas de Londres, que nem nunca foram as mais propícias a recordes (Berlim era o palco predileto), mas em breve talvez falemos de 26 de abril de 2026 com o mesmo peso do momento, em agosto de 2009, em que Usain Bolt parou o relógio dos 100 metros em 9,58 segundos. Até porque o etíope Yomif Kejelcha também correu abaixo das duas horas e Jacob Kiplimo, 3.º, abaixo do anterior recorde mundial. Impressionante.
Mas, é certo, no recorde da Maratona humano também há qualquer coisa que vai para lá da simples condição de homem com pernas, pulmões, coração. Nos pés de Sawe (e de mais quatro atletas do top 5) estava o resultado de uma guerra tecnológica entre fabricantes de sapatilhas. As super-sapatilhas de Sawe são tão leves (97 gramas) que o queniano, conta o “El Pais”, quando as recebeu, acreditou que a caixa estava vazia. Não foi só um atleta que ganhou esta batalha, também foi a Adidas que bateu a Nike, marca usada por Eliud Kipchoge em 2019, quando o queniano, num evento de marketing e com a companhia de 41 lebres e outros auxílios, correu abaixo das duas horas. A marca não foi oficial e por isso será rapidamente esquecida pela história: em condições normais, Sabastian Sawe foi ainda mais rápido que Kipchoge com ajudas. Desta ninguém se vai esquecer
Também é por isso que, por outro lado, o tempo redondo de 1h59m30s vai durar muito menos do que os 9,58s de Bolt. Cairá não só à medida da evolução do homem, mas também da engenharia. Chegará o dia em que se terá de falar de um travão tecnológico, como aconteceu com a natação em 2010, com os famosos fatos de poliuretano?
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