Tribuna 12:45

O campeão que importou a cartilha dominante

O campeão que importou a cartilha dominante

Pedro Barata

Jornalista

Farioli chegou ao futebol português e, com uma fórmula muito na moda na elite, obteve registos históricos
MANUEL FERNANDO ARAUJO

Os húngaros. Os ingleses. Os brasileiros. Francesco Farioli.

A cronologia tem o seu quê de hipérbole, sejamos honestos. Não há sinais de uma vaga de fundo, não podemos assegurar que vão vir charters de treinadores de dégradé na barba e roupa preta justa ao corpo. Mas podemos constatar que, como outros no passado, houve um técnico vindo de fora capaz de importar para Portugal algo de diferente.

Farioli foi campeão com diversos registos historicamente bastante relevantes. A melhor primeira volta de sempre. Uma defesa de betão. Pode chegar a uma pontuação altíssima. Uma vantagem para os rivais que, provavelmente, dará contornos de contundência evidente ao êxito.

Só que a grande marca deste FC Porto 2025/26 é outra. O que fica é um campeão a jogar o jogo mais em moda entre a elite da bola. Há uns anos, a discussão no dilema treinador português vs treinador estrangeiro era feita num nível quase provinciano, em que se argumentava que os primeiros traziam “conhecimento da realidade” e “noção dos meandros dos bastidores” e os segundos carregavam “ideias novas” e “estilos diferentes”. Pois bem, eis um estrangeiro que, efetivamente, importou uma filosofia.

A pressão alta, com referências homem a homem; o jogo de duelos individuais permanentes; o foco nas bolas paradas, momento em torno do qual gira boa parte do resto da estratégia; os descontos de tempo; a rotação massiva, a obsessão pelo descanso para reservar as pernas para os momentos decisivos; o privilegiar de um certo perfil físico, chamemos-lhe o estilo Froholdt, resistente, agressivo, repetidor de esforços, leal à ideia, fiel aos padrões; uma certa linguagem de Linkedin, de motivação made in ChatGPT, com o “fogo interior” e “sermos a melhor versão de nós próprios”.

Farioli foi campeão com a cartilha dominante no topo do futebol. Pode-se gostar mais ou menos, pode-se questionar este futebol de papel quadriculado, com pouco caos, muito no parar e arrancar, isolando as ações umas das outras, cada jogada um momento trabalhado e pré-trabalhado, cada minuto gerido, não um esforço a mais, não uma corrida feita a menos, cada lance um prelúdio de uma bola parada. Pode-se debater a estética, a eficácia ficou toda com Francesco.

Froholdt, o símbolo desta conquista
SOPA Images

Victor Froholdt é, por isto, o grande símbolo do campeão. Tal como o treinador, veio de fora. Tal como a equipa, arrancou exuberante, fruto do choque de estilos, do aterrar perfeito da revolução Farioli no futebol cá do burgo. Quebrou a meio, porque tanta correria cansa o corpo, mas depois entrou a sapiência do treinador, apoiado por um mercado de inverno que vestiu o plantel com cinto e suspensórios, soluções e cobertura para todas as zonas do campo. Livre de ser titular nas demais competições, o dinamarquês, e com ele o coletivo, voou no sprint final. Froholdt, tal como este FC Porto, sai de 2025/26 revigorado, altamente cotado.

Há 10 meses, Villas-Boas teve de tomar uma decisão. Engolir as próprias promessas, abdicando de Anselmi e despedindo o segundo treinador em pouco mais de meio ano, ou ir para a nova temporada com uma aposta altamente fragilizada, correndo o risco de cair no síndrome Peseiro/Fernando Santos/Keizer/Schmidt/Lage, isto é, do técnico que resiste à pressão para despedir em maio mas que acaba no centro de desemprego em setembro. AVB abdicou de Anselmi, trouxe um italiano de convicções e, uma semana depois de cumprir dois anos de mandato, é campeão nacional.

A importância histórica deste êxito para um clube que lida especialmente mal com o insucesso viu-se no fervor dos festejos, até na ansiedade prévia à consumação do título, mesmo quando era evidente que este já não escapava. Façamos só uma pausa para sublinhar que os recados terem sido dirigidos ao Sporting, que a animosidade ter como destino Alvalade, é uma prova da grande alteração na correlação de forças no futebol nacional, um símbolo do muito que mudou recentemente. Há 10 ou 15 anos, nenhuma celebração do FC Porto tinha o adversário verde e branco no pensamento.

Os húngaros. Os ingleses. Os brasileiros. Francesco Farioli.

O novo campeão nacional deu-nos a provar da receita que marca o topo da cena internacional. Mostrou, também, que uma adequação entre política de mercado e ADN de treinador e a coragem para tomar decisões são características que ganham campeonatos.

Provou outro ponto: no nosso altamente desequilibrado futebol, em que as mesmas três equipas terminam no pódio na esmagadora maioria das edições, é perfeitamente possível estar longe do título num ano e, tocando as teclas certas — e até beneficiando da menor exigência de estar na Liga Europa, constatando que falhar uma vez a Liga dos Campeões não é um drama existencial —, chegar lá 12 meses depois. O Sporting 2020/21 ficara a 22 pontos do primeiro na época anterior, o Benfica 2022/23 estivera 17 pontos aquém do topo na campanha precedente, o FC Porto 2025/26 vinha de terminar a 11 pontos de um Sporting muito magro na pontuação para quem ganhou a liga.

O que se passou

Tudo sobre o FC Porto campeão aqui: a crónica da vitória diante do Alverca, o essencial do fariolismo, a análise de Tomás da Cunha, o perfil de Froholdt, as notas do plantel e Thiago Silva, 22 anos depois.

Em Famalicão, o Benfica, com polémica, empatou a dois. Continua a incerteza sobre o futuro de Mourinho, ainda e sempre desejado em Madrid.

O Sporting, no acerto de calendário, acentuou a crise de resultados, com um algo caricato empate com o Tondela. Ainda assim, dois dias depois houve cerimónia de renovação de Rui Borges, com longas explicações de Frederico Varandas. O Francisco Martins conta.

O SC Braga ganhou vantagem nas meias-finais da Liga Europa, batendo o Friburgo. Istambul está mais perto, como escreve a Lídia Paralta Gomes. Também na UEFA, PSG-Bayern ofereceram um espetáculo pouco visto. O Diogo Pombo recapitula-o.

O andebol português é cada vez mais pintado a verde e branco.

Tem acompanhado a série dos cromos do Mundial? A cada dia, uma figura, como Hakan Şükür, Mido, Iván Kaviedes ou Romário.

Mais um capítulo da “Previsão do Tempo”, da Lídia Paralta Gomes.

Zona mista

Quando as pessoas começam a correr, não vão correr 10 quilómetros. Vão correr dois ou tres quilómetros. Portanto, as sapatilhas são completamente irrelevantes. Muitas vezes, antes de começarem, as pessoas já querem gastar demasiado dinheiro sem ainda experimentarem aquilo que é a corrida.

A frase, cautelosa, é de Hugo Medeiros, praticante de triatlo e criador de conteúdos sobre treino e gadgets, ouvido pelo Francisco Martins. A reportagem sobre as ‘supersapatilhas’ explica o mundo que ajudou Sabastian Sawe a bater as duas horas na maratona, a mais mítica das corridas em que o segundo classificado também foi histórico.

O que aí vem

Segunda-feira, 4
⚽ A jornada 32 da I Liga termina com o Sporting a receber o Vitória SC (20h15, Sport TV1)
⚽ Na II Liga, há FC Porto B-Felgueiras (18h00, Porto Canal) e o Torreense, lutando pela subida, recebe o Penafiel (18h00, Sport TV4)
⚽ Na Escócia há embate de goleadores portugueses pelo título: Hearts, do terceiro melhor marcador Claudio Braga, contra Rangers, do quinto melhor marcador Chermiti. Em Itália, Cremonese-Lazio (17h30, Sport TV2) e Roma-Fiorentina (19h45, Sport TV2). Em Inglaterra, o Chelsea é visitado pelo Forest de Vítor Pereira (15h00, DAZN) e o City, no forcing final pelo título, vai a Liverpool defrontar o Everton (20h00, DAZN). Em Espanha, o invulgarmente aflito Sevilha contra a Real Sociedad (20h00, DAZN).
🎱 Segundo dia da final do Mundial de snooker, entre Shaun Murphy e Wu Yize (12h45, Eurosport 1)

Terça-feira, 5
⚽ O primeiro finalista da Liga dos Campeões será conhecido: Arsenal-Atlético (20h00, Sport TV5)
⚽ O Palmeiras de Abel Ferreira no Peru, diante do Sporting Cristal (23h00, Sport TV1)

Quarta-feira, 6
🤾 Na sequência do empate do João Rocha, o Sporting visita o Aalborg, estando obrigado a ganhar para ir às meias-finais da Liga dos Campeões de andebol (19h45, Sporting TV)
⚽ Jogo do ano, parte II? Bayern-PSG (20h00, Sport TV5)
🎾 Mais um ATP Masters 1000, desta feita em Roma, no fantástico Foro Italico (10h00, Sport TV2)

Quinta-feira, 7
⚽ Um dos encontros mais importantes na história do Sporting Clube de Braga, buscando a segunda final europeia do clube: Friburgo-SC Braga (20h00, Sport TV5)
⚽ Ficaremos a saber o lote completo dos finalistas continentais. Na Liga Europa, Vítor Pereira, ao comando do Nottingham Forest recebe o Aston Villa (20h00, DAZN) e, na Liga Conferência, Estrasburgo-Rayo Vallecano (20h00, DAZN) e Palace-Shakhtar Donetsk (20h00, DAZN)
🎾 Masters 1000 de Roma (10h00, Sport TV2)
⚽ Após perder 2-1 na primeira mão, em Los Angeles, o Toluca de Paulinho recebe o LAFC para buscar a presença na final da Liga dos Campeões da CONCACAF (2h30, Sport TV4)
🚗 Começa o Rally de Portugal. Primeiro a cerimónia de abertura (14h00, Sport TV4), depois a especial 1, partindo de Águeda (15h00, Sport TV4)

Sexta-feira, 8
🚗 Parte de Mortágua novo dia no Rally de Portugal (7h35, Sport TV4)
🚴 Começa o Giro d’Italia. O pelotão, em que pedalarão os portugueses Afonso Eulálio, Nelson Oliveira e António Morgado, compete nas primeiras três tiradas na Bulgária. Etapa 1, Nessebar-Burgas (11h30, Eurosport 1)
🎾 Masters 1000 de Roma (10h00, Sport TV2)
⚽ Luís Castro, ao comando do Levante, tenta fugir à descida: na jornada 35, recebe o Osasuna (20h00, DAZN). Em França, o segundo classificado, o Lens, contra o Nantes (19h45, Sport TV3)
🥋Judo, Grand Slam de Astana (13h00, Sport TV6)

Sábado, 9
🚗 Terceiro dia do Rally de Portugal, com início em Felgueiras (7h00, Sport TV4)
⚽ Na Premier League há Liverpool-Chelsea (12h30, DAZN), o Fulham de Março Silva diante do Bournemouth (15h00, DAZN), Sunderland-Manchester United (15h00, DAZN) e, na luta pelo título, City-Brentford (17h30, DAZN). Na La Liga, Sevilla-Espanyol (15h15, DAZN) e, na Serie A, Lazio-Inter (17h00, Sport TV2)
🚴 Etapa 2 do Giro: Burgas-Veliko Tarnovo (9h45, Eurosport 1)
🎾 Masters 1000 de Roma (10h00, Sport TV6)

Domingo, 10
🚗 O derradeiro dia do Rally de Portugal começa em Vieira do Minho (8h00, Sport TV4)
⚽ No duelo português pela manutenção, também com o título em jogo, Forest-Newcastle (14h00, DAZN) e West Ham-Arsenal (16h30, DAZN). Em Espanha há El Clásico: Barcelona-Real Madrid (20h00, DAZN). Em Itália temos Milan-Atalanta (19h45, Sport TV2), em França há PSG-Brest (20h00, Sport TV3)
🎾 Masters 1000 de Roma (10h00, Sport TV6)
🚴 Etapa 3 do Giro, entre Plodvid e Sofia, a última na Bulgária (11h00, Eurosport 1)

Hoje deu-nos para isto

A 13 de setembro de 2025, o autor destas linhas escrevia: “A Vuelta é de Vingegaard, mas João Almeida sai de 2025 com a convicção de que vencer uma grande volta é uma questão de tempo”. A ideia assentava no fantástico ano que o ciclista português fizera, triunfando em corridas por etapas, levando Jonas aos limites na Vuelta, conquistando o Angliru, mostrando-se mais ofensivo, arrojado, ganhador. Era uma versão 2.0. do caldense, já sem medo de assumir que a meta era tornar-se o primeiro corredor nacional a ser o melhor numa prova de três semanas. E com capacidade para tal.

Ora, logo na altura, Rui Silva, que de desporto sabe umas coisas e partilha-as por aqui, respondeu ao referido texto, através das redes: “Discordo muito destas noções de algumas coisas serem uma questão de tempo no desporto, individual e coletivamente. As janelas de oportunidade são demasiado voláteis, seja para Celtics, Roglic, Inglaterra…”. Pois bem, oito meses volvidos, esta advertência tem habitado o meu pensamento.

Após uma fantástica época anterior, João Almeida vive meses difíceis
Dario Belingheri

“Não me estou a sentir muito bem na bicicleta”, confessou João Almeida no fim de março. Ia fazer exames, análises sanguíneas, para detetar as razões de um estranho e invulgar apagão competitivo, uma anomalia no senhor regularidade.

A indesejada, mas não totalmente surpreendente, decisão foi comunicada no fim de abril: o português não estará no Giro, seu grande objetivo para a primeira metade da temporada. Esteve doente, não conseguiu preparar-se em condições, não encontra o nível a pedalar.

Aqui entra o tal comentário do Rui Silva. João Almeida faz 28 anos no verão e, subitamente, a campanha em que, na sequência do excelente 2025, poderia somar a tal grande volta, está a ficar condenada à frustração. O tempo passa, o rei-sol continua ditatorial, há novos fenómenos surgindo.

Mea culpa. Talvez acreditar na ideia da “questão de tempo” seja excessivamente otimista. Entretanto, o Giro, que arranca da Bulgária na sexta, tem em Jonas Vingegaard não o grande favorito à rosa, mas o grande favorito a acabar com largos minutos sobre a concorrência. Portugal terá Afonso Eulálio, que em 2025 se mostrou em bom plano, António Morgado, debutando em três semanas, e Nelson Oliveira, que caso termine ficará com 23 grandes voltas concluídas em 23 iniciadas, igualando o recorde do polao Sylwester Szmyd.

Quanto a João Almeida, terá de fazer mais uma ‘almeidada’. Uma recuperação das que tão bem sabe. Será a melhor resposta para os crentes que viraram descrentes, para os descrentes que se mantêm descrentes, para todos.

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