Odeio Futebol Moderno

Rui Costa, o destruidor de Ferraris

O que o resultado da primeira volta das eleições do Benfica revelou é simples e terrível: perante Rui Costa, qualquer adversário seria sempre o usurpador, o vilão. Noronha é o irmão mais velho da parábola: o que ficou em casa; fiel, sensato e previsível, mas a quem ninguém dá um abraço, nem mata o vitelo gordo e que, pelo contrário, todos castigam por ser lúcido

Diz a ciência política que, quando muitos saem de casa, é porque o poder está em perigo. É o sinal dos tempos, o rumor da insurreição. Mas no Benfica, tudo acontece ao contrário. No Sábado, os sócios que saíram de casa aos milhares , em fervor devocional para ir votar (cantando, discutindo, oferecendo finos a desconhecidos), deixaram tudo na mesma. Uma revolução às avessas.

O benfiquista que, nesta primeira volta, votou na continuidade, convencido de que participava, agia e decidia, apenas confirmou as paredes do cubículo em que se habituou a viver. E votou como quem fecha uma janela. O tal voto record não seria, então, esse inequívoco sinal de vitalidade democrática, mas antes uma prova de clausura. Todos se mexem, mas ninguém sai do sítio. A verdadeira viagem, a que implicaria risco, mudança e contacto com a realidade, ainda está por cumprir.

O que explica isto?, perguntará o meu amigo que me lê. Não se sabe. Não se explica o Benfica. Há coisas que não se pensam, sofrem-se. Como compreender que um presidente sem títulos, sem pulso, sem voz, continue a ser o eleito da maioria? Presumir-se-á que é da sua naturalidade. Ponderaremos aquele olhar tristonho, o cabelinho lambido que sobrevive há trinta anos, e concluiremos, talvez, que o benfiquista não vota num presidente, mas na sua própria juventude. A resposta à inquietação é parecida com esta, sim, mas talvez seja um pouco mais funda.

Explico. A hermenêutica mais popular da parábola do Filho Pródigo é a que se centra no perdão do filho que regressa a casa. Nada contra. Mas, para haver perdão, teve de haver pecado; e dos complicados. Sejamos sérios: o filho foi um estroina do piorio; exigiu que lhe antecipassem a herança, espatifou tudo, e voltou quando já não tinha onde cair morto. Ora, o verdadeiro protagonista da história é o pai. São os seus braços abertos que verdadeiramente importam. O pai é o milagre e a ruína. E é aqui, leitor, neste fragmento novo-testamentário, que reside o busílis da questão: o amor sem juízo do pai. O amor sem juízo do benfiquista.

O voto em Rui Costa é como o carro novo que o pai do estroina lhe continua a dar, depois de ele ter espatifado o décimo brinquedo. Só que este brinquedo, sabemos, é um Ferrari — o próprio Jorge Jesus o disse. O erro de Rui Costa esfuma-se, assim, no amor que o benfiquista tem por ele. E, como ama demais, o benfiquista vê de menos. Esquece-se das vitórias. Agarra-se à lembrança do miúdo com o número 10 e o rosto lavado de melancolia.

Porque o pai que ama perdoa até o filho que volta só para abrir uma empresa no quintal da casa paterna. E assim se passaram quatro anos, nos quais o grande legado — preparem-se para o sarcasmo, que nem é meu, é de Vieira — foi o bicampeonato do Sporting. Rui Costa é um homem que é um milagre de conservação moral: envelhece e continua inocente.

Foi preciso um portista (um portista, vejam bem!), Rodolfo Reis, vir dizer o que nenhum benfiquista ousa murmurar: “para os sócios do Benfica, ganhar, perder ou empatar é a mesma coisa.” E é mesmo. Porque o Benfica, esse velho império do sagrado, deixou de medir a eternidade nas pernas que marcam golos, passando a medi-la em olhos que vertem lágrimas.

O que este resultado revela é simples: perante Rui Costa, qualquer adversário seria sempre o usurpador, o vilão. Noronha é o irmão mais velho da parábola: o que ficou em casa; fiel, sensato e previsível, mas a quem ninguém dá um abraço, nem mata o vitelo gordo e que, pelo contrário, todos castigam por ser lúcido.

Em todo o caso, no Benfica, a história ainda está em aberto. Na parábola, o irmão mais velho fica, fiel, à porta da festa. É como se o festim ainda não tivesse terminado, e ainda haja tempo para o bom irmão entrar. Falta-lhe a última volta. Quem sabe, o benfiquista poderá ainda redimir esse irmão; o que ficou a cuidar das coisas em vez de andar a espatifar Ferraris.

Manuel Fúria é músico e vive em Lisboa.

Manuel Barbosa de Matos é o seu verdadeiro nome.

E escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico.

‘Odeio Futebol Moderno’ é um espaço de opinião sobre atualidades futebolísticas da perspetiva de um romântico entalado num tempo em que não se reconhece.

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