Na temporada passada escrevi que o Benfica era de “Gelo e Mármore”. Assim mesmo com maiúsculas nos adjectivos. Foi um surto de fanfarronice, daquela de quem se sente autorizado a rotular equipas de futebol como se fosse um Mário Filho ou um Carlos Pinhão.
Aquele Benfica era assim mesmo. Um Benfica mineral. Sobre o miserando eclipse de jogadores portugueses, prevalecia então uma singular aliança étnica formada pelos bisnetos do Império Viking e do Império Otomano. Daí o gelo escandinavo: Schjelderup, Bah, Dahl e Aursnes. Daí o mármore mediterrânico: Kökçü, Aktürkoğlu e Pavlidis. Havia outros é certo, mas estes eram os mais proeminentes.
Ora, e apesar da mixórdia de nações tentando entender-se com uma bola nos pés, hoje ninguém me convence de que o cognome não continua actual. Continua. E não é porque no último jogo tenham alinhado de início dois ucranianos, dois argentinos, um bósnio, um sueco, um luxemburguês, um colombiano, um grego (bolas que isto cansa) e um moço de Famalicão, que o Benfica passaria a chamar-se Sport Lisboa e Babel, Liga de Cavalheiros Planetários ou Entreposto Transfronteiriço da Luz. Até podia. Até fazia sentido. Mas, no Moreirense x Benfica do passado Domingo, dois jogadores marcaram a partida. Dois jogadores que são os protagonistas do Benfica actual — os nossos melhores dois. Este texto é sobre eles. Aursnes e Pavlidis. Um é feito de gelo, o outro é feito de mármore.
E é pelo último que começo.
Pavlidis, o impassível. Pavlidis, a estátua. O colosso. Um jogador que parece não se mexer e que, por isso mesmo, pede economia. Claro que isto é falso. Mas o futebol vive destas mentiras úteis. Diz-se que ele é impassível para não termos de admitir o que realmente nos incomoda: que marca golos sem alegria, como quem persevera num castigo. Marca e continua zangado. Marca e não perdoa: nem os adversários, nem os colegas, nem o próprio Benfica.
Em cada golo, Pavlidis parece reclamar para si a frustração de um clube desencontrado nas derrotas previsíveis, nas vitórias pouco convincentes, nas exibições sem brilho. Como se dissesse: faço a minha parte, agora façam a vossa. E ainda assim vai somando números, já no topo da lista dos melhores marcadores. Pavlidis, rocha metamórfica que, do calcário submetido ao calor e à pressão, deixa de ser o que era para se petrificar no estado definitivo de uma ferida, na beleza impossível da violência convertida em forma. Não há metáfora mais cruel para um avançado do Benfica.
Depois Aursnes. Um nome que ninguém sabe pronunciar. Um nome que todos rosnam. E por isso é melhor chamar-lhe outra coisa. Como o Rui Malheiro, que o trata por “Canivete norueguês”. Ou então “Serviço Público”; tal é a sua vocação para assegurar que as coisas funcionam. É impressionante. É preciso um médio esquerdo? Lá vai Aursnes. Um defesa direito? Lá vai Aursnes. Um defesa-central, um ponta-de-lança, um guarda-redes? Manda vir o Aursnes. Ficámos sem roupeiro, sem treinador, sem presidente? Não há crise: chama o Aursnes.
O homem é de tal maneira competente que, se o multiplicássemos, podíamos ter uma equipa só de Aursnes, uma estrutura só de Aursnes — e estaríamos certamente melhor. Pelo menos mais discretos e parcimoniosos. O gelo, vítreo e semitransparente, para além de elegante, não se dá por ele. Não se impõe, infiltra-se. Corre invisível em canais subterrâneos até, um dia, decidir mostrar-se no esplendor de um rio ou no infinito de um oceano. Como naquele magnífico chapéu oferecido aos adeptos: assim mesmo porque sabia, assim mesmo porque podia. Assim mesmo porque foi preciso alguém fazer as vezes de Di María.
Lentamente — é sempre assim que acontece nas tragédias —, o Benfica vai-se encontrando. Em quê, não sabemos. Provavelmente ninguém está interessado no assunto, desde que a equipa ganhe. Mas nós, os que tememos que o lugar para onde se avança seja um daqueles sítios sem alegria — nem lirismo, nem a felicidade plena do reencontro —, nós queremos saber. Porque tememos aquela espécie de pós-câmara da humilhação, onde o homem se descobre dominado pela frieza e pela eficácia. Ideias em tudo distantes do Benfica, clube quente e esbanjador.
Quando aí chegarmos, o título desta crónica não terá sido apenas um repente literário, mas um diagnóstico, um aviso. Terá sido, sim, uma sentença. É que, seja o que for que Mourinho pretende (se é que verdadeiramente tem um plano a médio prazo), uma coisa é certa: nesta equipa do Benfica não se joga com a franqueza do pé nu, própria das grandes sagas de outros tempos. A arquitectura agora é outra. O chão é de gelo. E as paredes são de mármore.
Manuel Fúria é músico e vive em Lisboa.
Manuel Barbosa de Matos é o seu verdadeiro nome.
E escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico.
‘Odeio Futebol Moderno’ é um espaço de opinião sobre atualidades futebolísticas da perspetiva de um romântico entalado num tempo em que não se reconhece.