Os anos 90 foram cruéis. Lentíssimos. Uma década inteira de arrefecimento moral para qualquer benfiquista digno desse nome. E, enquanto nós definhávamos, nessas alvoradas de desmoralização e enfrentamento pueril, havia uma presença constante, rés-vés obscena: Jorge Nuno Pinto da Costa nas televisões, nos jornais, nas nossas casas. Um homem que ensinava, dia após dia, como se mandava em Portugal.
Disse que já não mora entre nós? Menti. No futebol ninguém morre. Para quem sabe que o sobrenatural sustenta toda a esquina e fresta da existência — à espera de que a atenção se detenha nos sinais que o denunciam — o antigo presidente do Porto está vivo. Vivo e salgado. Hoje encarnado em qualquer um que tenha poder e mande alguma coisa nesta engrenagem chamada futebol português. Frederico Varandas, a título de exemplo. Mas poderia dizer Rui Costa, Villas-Boas — ou qualquer outro dirigente que, em momento algum, tenha mostrado caminho diferente.
Pinto da Costa mostrou como se dirige um clube de futebol em Portugal; ninguém mostrou que se poderia fazer as coisas de maneira diferente. E houve quem se tenha feito vaso. Receptáculo. Corpo disponível para a encarnação de um espírito antigo. É o Fantasma do Natal Passado.
Não sei nada de dirigismo desportivo; vejo-o até como uma dessas ramificações da parapsicologia e do ocultismo, tal como o próprio Pinto da Costa o instituiu, na qual nada é o que parece ser. Mas sou capaz de ouvir a truculência de um discurso, de constatar a pose defensiva do contra tudo e contra todos, de adivinhar que uma qualquer magia negra se esconde por detrás da ficção viciosa de que dominar os bastidores é uma prerrogativa do poder. Eis o que Pinto da Costa nos deixou como modelo. Eis o que todos julgam que têm de alcançar.
Dúvidas houvesse, quem esteve vivo durante o último Santa Clara vs Sporting ficou esclarecido. Esclarecidíssimo! Doze minutos! Doze minutos são uma eternidade. Uma tribo de Israel por minuto. Dá para ir de Odivelas ao Saldanha de bicicleta. Dá para cozer massa al dente e preparar um molho honesto. Dá para rever um texto de seiscentas palavras. Dá até para ouvir um disco de Karaoke No Mundo Das Trevas até ao fim e ainda sobrarem dois ou três minutos para o digerir. Mas não deu para decidir bem.
Fica-se a pensar no que o VAR, Rui Silva, esteve a fazer durante aquele tempo todo. Em que pensou. Se, acaso, aproveitou para ir à mercearia mais perto e regressar com dois quilos de esparguete. Ou se o relatório que alegadamente terá falsificado há uns anos — e pelo qual levou 20 meses de suspensão no âmbito do processo Apito Dourado — terá demorado igual tempo a preparar. O drama, amigos, não está na resposta. Está na pergunta.
A coisa é tão malfazeja que Pedro Pinto do Souto, antigo candidato à presidência do Sporting, escreveu, em carta aberta a Frederico Varandas, a pedir que o clube abandone a Taça de Portugal. “Tenho vergonha de ganhar assim”, disse. E acrescentou, com solenidade: “A teoria do ladrão que rouba a ladrão nunca pode ser um valor.”
E assim, num rasgo de contrição, o digno Sr. Souto expõe o dilema moral do Sporting de Varandas. A vítima que, assim que se põe a jeito, transforma-se no agressor. O injustiçado que, ao primeiro apito favorável, vende a alma.
Tempos recentes houve em que a conversa à volta dos novos protagonistas nas direcções de Benfica, Porto e Sporting, tendia para uma certa esperança. Reinava a expectativa de que sangue novo equivalesse a um modo igualmente novo (e por isso melhor) de governar o desporto profissional em Portugal. Mas isso, sabemos, é pura mistificação. Uma fraude piedosa. Aquele velho raciocínio que consiste em confundir novidade com bondade, juventude com carácter. Como se o mal tivesse prazo de validade e a data de nascimento fosse um argumento moral, e pudesse equivaler a uma purificação. Como se o poder, ao mudar de mãos, mudasse de natureza. Não muda.
O que Jorge Nuno Pinto da Costa nos deixou foi um clima. Um ar irrespirável. Um modo de estar e de fazer que habita os corredores, as salas, os regulamentos, a própria gramática do esférico. Numa palavra, deixou-nos a si próprio. O seu legado, e dos seus mínimos — Vieira, Loureiro, Pimenta Machado — está vivo este Natal. Anda por aí. Pulula entre nós, como um fantasma persistente.
Mas eles sabem. Eles viram. Os anos 90 (e os 2000, ainda ontem, ainda hoje) foram e são de todos nós. Ao serem eleitos — Costa, Varandas, Villas Boas — tiveram a oportunidade de romper com o passado. Tal como Ebenezer Scrooge. Mas fizeram as suas escolhas. Infelizmente este Natal passará por eles como passa por tantos: deixando-lhes a consciência iludida o bastante para aguentar a consoada.
A parte boa é que no futebol português os fantasmas regressam todos os anos. A parte má é que não precisam que se acredite neles. Basta-lhes haver quem ache que deles precise para sobreviver — ou então, como disse Diogo Clemente, capitão do Caldas, no final da partida contra o Sporting de Braga, para a Taça: “Ao futebol português perdoem-lhes, eles não sabem o que fazem.”
Manuel Fúria é músico e vive em Lisboa.
Manuel Barbosa de Matos é o seu verdadeiro nome.
E escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico.
‘Odeio Futebol Moderno’ é um espaço de opinião sobre atualidades futebolísticas da perspetiva de um romântico entalado num tempo em que não se reconhece.