Muitas vezes penso que só fazia bem a certos clubes grandes uma travessia no deserto. Um jejum. Uma humilhação pedagógica. Uma Quaresma a sério. O Atlético vive nela há décadas. Sem Páscoa. Sem promessa de redenção. Talvez por isso tenha aprendido o essencial: no futebol, como na vida, não é a vitória, mas a permanência que nos salva
A noite fez-se dia e Domingo despontou. Sob a luz deste sol intransmissível, Lisboa reverberava na frieza de Janeiro. Os melhores dias são estes. Houvesse ainda capoeiras em Arroios, ouvir-se-ia o galo cantar antes do primeiro autocarro. E quando Lisboa acorda assim, faz-se o quê? O óbvio, que é sempre o mais difícil: apanha-se o transporte e vai-se para a Tapadinha, onde a bola rola fácil.
Dizer que chegar à Tapadinha para ver o Atlético jogar é regressar a um certo tempo do futebol seria cómodo. E seria injusto. Porque não é nostalgia. Quer dizer, também será um bocado disso, mas é outra coisa melhor. É alcançar, naquela colina, naquelas árvores, naquela vista impossível para o tabuleiro da ponte, uma possibilidade de redenção futebolística que julgávamos perdida para sempre — ou, quando muito, reservada aos clubes pequenos da província. Coisa que o Atlético não é. O Atlético é uma alma grande presa num corpo que a vida foi apertando. E é esse o seu encanto trágico: ser o que poderia ter sido e não foi. Mas sem ressentimento. Jovial. Um potencial ainda a tempo de ser cumprido. Como um teledisco de génio que nunca chegou a ser filmado para a “If You’re Feeling Sinister” dos Belle & Sebastian.
É que o Atlético nasceu para a grandeza. A inauguração do Estádio, com dois jogos e honras de Estado; as dezenas de filiais; a rivalidade a Ocidente com o Belenenses — espelho modesto da rivalidade a Norte entre Benfica e Sporting —; o próprio nome, “Clube de Portugal”, à Sporting: tudo isso denuncia uma ambição que não cabe em rótulos de pequeno. O Atlético não é pequeno. Está, isso sim, levemente contrariado.
Não vos vou contar a História. Se não sabem, tivessem estudado. Como eu, que não sabia e agora sei. Está escrita por quem, num acto de amor, a soube guardar.
Até porque há outra história a acontecer agora, diante dos nossos olhos convencidos que já viram tudo: o Atlético renasceu. À boca pequena, como convém aos segredos sérios, diz-se que alguma coisa se passa para os lados de Alcântara. Pois bem: é ver para crer. Como se viu no Atlético x Académica do passado Domingo.
Nas bancadas a mistura era resvés indecente. Entre antigos atletas, dirigentes e os velhos carroceiros de Alcântara, surge agora um pequeno exército improvável: miudagem de bigode, óculos de massa, brinco, meias brancas, outros com t-shirts da Blue Banana. O segredo começou a circular. É assim que estas coisas começam.
Mas, para ser franco, eu, que tenho sempre esta tendência de olhar para as bancadas, não consegui largar os olhos do relvado. O “ouro” — como lhe chamou Marinho, defesa esquerdo dos anos 80, oito épocas de isósceles ao peito, a cortar de carrinho nos pelados. Era impossível não o contemplar. O ouro estava ali mesmo: próximo, exposto, verde e protestante na recusa de qualquer mediação. A sul, a amplidão da ponte, do rio, do sonho, num desses geniais exemplos em que a arquitectura acerta por omissão.
E então, a meio da primeira parte, o número sete, Barandas, médio luso-angolano de baixa estatura e grande ousadia, marca um golaço à entrada da área. A fazer lembrar outras glórias, como Lopes Pequeno, mosqueteiro dos anos 40, de quem se escrevia, sem ironia, que era “o melhor médio direito português da actualidade”.
Nessa temporada gloriosa de 43/44, o Atlético — terceiro, atrás de Benfica e Sporting — protagonizou uma das maiores goleadas de sempre. Precisamente contra a Académica. Oito a zero. Uma humilhação vetero-testamentária, ali mesmo no Alvito. Este Domingo não foi assim. O marcador fixar-se-ia em 1-4. E tudo começaria a descambar doze minutos depois do golo de Barandas. António Montez marcou, e a Mancha Negra fez o que sabia: mandou a bancada abaixo. O muro cedeu, houve um ferido ligeiro, o jogo teve de parar. Poderia ter sido o fim daquela tarde de bola, a evacuação, o comunicado higiénico, o futebol do costume. Mas não. O que se viu foi outra coisa: gente que ajuda, aguarda e entende que aquilo também faz parte do futebol.
Então recomeça-se. Como sempre se recomeçou no Atlético.
Como depois dos pilares da ponte sobre o Tejo terem expulsado Alcântara de si mesma, forçando os seus moradores ao exílio. Como depois da derrota por 1-3 contra o Caldas, nesse 31 de Março de 1957 em que o Atlético desceu à Segunda, e caiu o Carmo e a Trindade. Como depois da trapalhada com os investidores chineses. E como agora mesmo se recomeça, com o tal Gifford Miller, vindo de Nova Iorque e da política, homem que parece saber o suficiente sobre o valor de um segredo para não o profanar à primeira tentação de lhe mexer. Recomeça-se como só o Atlético parece saber recomeçar. Mesmo que seja para perder por mais três. Não interessa. É que quando disse que o Atlético renasceu, limitei-me a parafrasear uma mentira que li não sei onde. O Atlético não renasceu; o Atlético persistiu (e persiste). Não se trata, por isso, de passar da morte à vida, mas da obscuridade à visibilidade, sem mudar de natureza.
Muitas vezes penso que só fazia bem a certos clubes grandes uma travessia no deserto. Um jejum. Uma humilhação pedagógica. Uma Quaresma a sério. O Atlético vive nela há décadas. Sem Páscoa. Sem promessa de redenção. Talvez por isso tenha aprendido o essencial: no futebol, como na vida, não é a vitória, mas a permanência que nos salva.
O Atlético não precisa de futuro, essa coisa altamente sobrevalorizada. Tem passado e tem presente. Tem um corpo. Tem cada vez mais gente. Tem um estádio onde o sol bate certo, um emblema que se desenha de memória, e um tricolor especialmente inspirado que faz umas camisolas à maneira. E uma bola, claro. Uma forma de estar no tempo que, quando rola, ainda rola limpa, justa, clara.
Pode-se ir lá por outras razões.
Mas para quem é de Lisboa e quiser futebol, que suba à Tapadinha.
Manuel Fúria é músico e vive em Lisboa.
Manuel Barbosa de Matos é o seu verdadeiro nome.
E escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico.
‘Odeio Futebol Moderno’ é um espaço de opinião sobre atualidades futebolísticas da perspetiva de um romântico entalado num tempo em que não se reconhece.