Odeio Futebol Moderno

Um clube chamado Vitória

Que espécie de audácia leva um clube a chamar-se assim? “Vitória”. Não é um nome. É um desígnio. O Vitória mostra que há ordens de grandeza que não se medem pelos critérios habituais, mas pela rigorosa coincidência entre um clube e a intensidade com que uma cidade o apoia

E não é que o Vitória fez justiça ao nome? No futebol isso não é coisa pouca. É raríssimo. Imagine-se o Eléctrico. No caso do Vitória, é tudo. Como quando ganhou a Taça contra o Benfica, por exemplo. Ou em 96, quando, sem saber muito bem como, o Parma caiu com estrondo no D. Afonso Henriques. Lembram-se desse Parma? Deviam era lembrar-se daquele Vitória.

A cidade-berço foi Capital Europeia da Cultura em 2012. Mas dezoito anos antes já tinha tido, com José Carlos, Capucho e Vítor Paneira, a melhor ala direita do Velho Continente. E isso, perdoem-me o anátema, foi muito mais importante.

Pois bem. Desta vez foi a Taça da Liga; parente pobre do calendário, competição jogada com o fastio de quem preferia estar a fazer outra coisa qualquer. Mas isso de se achar que há competições maiores ou menores é uma mentira piedosa para quem as perde. Até porque os troféus não nascem importantes. Tornam-se importantes. Coisa que acontece à custa de finais épicas, de adversários à altura, de instantes em que o jogo parece entregue a uma força superior. Devia dizer que à custa de Charles e Ndoye. Mas tudo se revelou no gesto final de Beni Mukendi, quando atravessou, baliza a baliza, o campo, de joelhos.

Foi isso que aconteceu. O Vitória engrandeceu aquilo que tocou. E para isso é preciso uma certa vocação.

Repararam que já vamos no quinto parágrafo e ainda não escrevi “Guimarães”? Nem “Vitória de Guimarães”? Não foi lapso. Desde pequeno que oiço os meus primos de Guimarães dizerem “Vitória isto”, “Vitória aquilo", como se a palavra tivesse sido inventada exclusivamente para designar o clube da cidade. Sempre que faço o contrário, sou corrigido. Na melhor das hipóteses. Na pior, aprendo qualquer coisa sobre pertença e sobre a indecência de chamar as coisas pelo nome errado. É que, ainda que se saiba que existem outros Vitórias, em Guimarães o termo não tem plural. É singular. Absoluto.

Que espécie de audácia leva um clube a chamar-se assim? “Vitória”. Não é um nome. É um desígnio. Imagino a cena: uma assembleia fundadora, homens de bigode para pendurar balões, convicções maiores do que a realidade, e alguém levanta a voz para dizer — ou pensa dizer —: “Senhores, connosco é para ganhar. Tanto assim é que não perseguiremos a vitória: seremos a Vitória.” Ainda que haja teses em contrário, não há modelo estrangeiro que explique isto. É um excesso muito nosso. Um excesso português.

Quanto mais a norte se sobe, mais português Portugal fica. Não por acumulação, mas por irradiação. O núcleo dessa “portugalidade” está na cidade onde tudo começou. Como sempre levou muito a sério a sua própria saga — a real e a mítica — Guimarães sabe-o. E os vimaranenses, ao interiorizarem essa centralidade histórica, dilataram-na através do seu clube de futebol. Como se ele fosse a forma contemporânea de continuar a História. E de D. Afonso Henriques, bordado no emblema das camisolas do Vitória, não deixar de a protagonizar. Num excepcional caso de total coincidência entre clube e cidade, formando uma entidade única: uma cidade em acto.

Fora de Guimarães, o adepto português vive de duplicidades. É quase sempre de dois clubes. O da terra e o grande. O que se sofre e o que se ostenta (ou vice-versa). Francisco Brito, vimaranense, homem de História e um dos meus alfarrabistas favoritos, diz que, numa terra desconfiada — como convém a tudo o que é minhoto —, foi o clube que conquistou a cidade. Isso ajuda a compreender a ocupação total do espaço simbólico; o momento em que um clube deixa de disputar afectos para passar a ser tudo, e de todos. É por isso que não há segundos clubes em Guimarães. Há um. E pronto.

Essa exclusividade não é a de quem resiste, é a de quem ataca. De quem rivaliza. É por isso que, na psique do vitoriano, os antagonistas naturais não são apenas Braga ou Boavista (de quando o Boavista era Boavista). São o Benfica, o Porto, o Sporting. O Vitória aponta sempre para cima. Num sistema métrico muito seu.

Isso manifesta-se nas grandes crises: em 2005/06, depois de chegar à fase de grupos da Taça UEFA, o Vitória fez um péssimo campeonato e desceu de divisão. No último jogo dessa época o estádio estava cheio. Na época seguinte também. Todos os jogos. Cheio.

Vê-se também nos jogadores que por lá passam — e por lá ficam. Sobretudo nos grandes. Paneira, escorraçado do Benfica por Artur Jorge, no auge do seu futebol. Neno, que se tornou prata da casa. Quaresma, que só podia ter jogado ali. No Vitória há uma inclinação tarantinesca para recuperar jogadores caídos em desgraça. Hoje é Nélson Oliveira quem reencontra, em Guimarães, a bola que deixara escapar naquele chapéu falhado — o último — ao serviço da Selecção. Um cemitério ao contrário, o Vitória.

É aqui que o meu preconceito contra os clubes médios começa a falhar: demasiado grandes para a pureza, demasiado pequenos para a fatalidade. O Vitória desmonta isto tudo, ao mostrar que há ordens de grandeza que não se medem pelos critérios habituais, mas pela rigorosa coincidência entre um clube e a intensidade com que uma cidade o apoia.

No final do jogo, o Presidente, António Miguel Cardoso, disse que a partir de agora o Vitória teria de se habituar a estar nestes palcos. Percebo o ponto. Ainda assim, por vezes até os Presidentes precisam de ser desenganados: há clubes que se habituam aos palcos, e depois há outros que habituam o palco a eles.

Um clube chamado Vitória não pode empatar com a vida. Para quem, no Sábado, se surpreendeu com o resultado da final da Taça da Liga, convém esclarecer: não houve surpresa nenhuma. Houve exactidão.

Manuel Fúria é músico e vive em Lisboa.

Manuel Barbosa de Matos é o seu verdadeiro nome.

E escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico.

‘Odeio Futebol Moderno’ é um espaço de opinião sobre atualidades futebolísticas da perspetiva de um romântico entalado num tempo em que não se reconhece.

Tem alguma questão? Envie um email ao jornalista: tribuna@expresso.impresa.pt