Odeio Futebol Moderno

O Inverno Melancólico de Rafa Silva

Rafa nunca trouxe apenas futebol. Trouxe sempre qualquer coisa a mais, e paradoxalmente, qualquer coisa a menos: estados de alma, silêncios, aquela espécie de melancolia manifestada em arrancadas súbitas seguidas de longos períodos de ausência. Há nele qualquer coisa de Joy Division, de tardes curtas, de luz que nunca chega a ser plena

Há jogadores de futebol que trazem alegria. Há jogadores de futebol que trazem currículo. Há outros até que trazem estrutura. E depois há aqueles — singularíssimos casos de imprevisibilidade crónica — que trazem tragédia. É o caso de Rafa.

Rafa nunca trouxe apenas futebol. Trouxe sempre qualquer coisa a mais, e paradoxalmente, qualquer coisa a menos: estados de alma, silêncios, aquela espécie de melancolia manifestada em arrancadas súbitas seguidas de longos períodos de ausência. Há nele qualquer coisa de Joy Division, de tardes curtas, de luz que nunca chega a ser plena.

É como se pensasse demais. Como se, naquele semblante fechado, quase introspectivo, existisse um mundo próprio, imenso, apenas acessível nas raras exteriorizações de um carácter invulgar. Como quando não quis ser só mais um na selecção nacional, abdicando de uma família da qual nunca se sentiu membro. Ou como quando soubemos que o seu objectivo de vida seria a presidência do Benfica.

Com Rafa nunca se sabe. É tarde de génio ou de encoberto? Noite de clarão ou de sombra? De Rafa ou Anti-Rafa? É isso que o persegue como um pássaro negro.

E a sua grandeza obtusa está nessa ambivalência. A mesma que nos obriga a esta certeza absoluta, dita com fervor e irritação: se marcasse todos os golos que inventa, seria o Messi.

Rafa, o quase-Messi. Rafa, o quase-Rafa.

Há nele qualquer coisa dessa tristeza que João Vieira Pinto também padecia. Aquela lassidão de quem traz uma farpa encravada na alma. Só que o que em João Pinto se resolvia pela abnegação e pelo sentido de dever — que o resolveram como jogador —, em Rafa impôs-se como excesso, fragmentário, incapaz da totalidade. Como um Bernardo Soares. Como um Jim Stark de Rebel Without a Cause.

O título engana. Stark não é rebelde; é um desalinhado moral. É Rafa: alguém que luta sem saber exactamente contra quê, incapaz de habitar o mundo tal como o mundo se lhe apresenta. Como se o talento e a beleza não resolvessem nada. Como se os seus falhanços não resultassem de falta de capacidade, mas de excesso de conflito interior. Não preguiçoso, nem cínico, mas desorientado. Numa tensão permanente entre aquilo que é e aquilo que dele é esperado.

Terá Rui Costa ponderado nisto quando iniciou conversas com o Beşiktaş? Terá o iminente resgate de Rafa sido sopesado com a devida prudência? A resposta é evidente; e vai custar os milhões que faltaram para a renovação falhada que o empurrou para uma saída a custo zero, depois de já ter custado vinte milhões ao Braga.

Ora, mais milhão, menos milhão, o valor simbólico é sempre o mesmo: o preço da nostalgia. Se voltar, Rafa regressará por conforto emocional. Porque não assusta. Porque já cá esteve. Porque já nos fez felizes; mesmo que de forma incompleta. Numa palavra: por preguiça.

(E, já agora que se abre essa porta, tragam também o Gaitán, o Matic ou o Valdo. Tragam todos. Façam um desfile. Transformem o Seixal num museu de cera. E, se forem sérios, tragam também o Eusébio. O futebol português delira com impossibilidades sentimentais.)

Rui Costa encarna a metáfora perfeita do presidente que prefere a segurança do passado ao risco do futuro. Não por cálculo, mas por natureza: vive sustentado pela memória gloriosa do Benfica e pelo seu passado como jogador. Dois passados que muitos adeptos fundem num só, confundindo deliberadamente aquilo que ainda sobra do Benfica com aquilo que ainda sobra de Rui Costa.

Futuro, nem vê-lo. Talvez porque pressinta que não fará parte dele. Talvez porque, quando a porta do gabinete se fecha e fica sozinho, rodeado dos fantasmas que o observam do alto dos quadros fixados nas paredes, Rui Costa saiba, no fundo, com aquela lucidez resignada que só os ídolos envelhecidos possuem, que o tempo passa. E que nós passamos com ele.

Quando o Benfica se agarra a Rafa Silva como solução para o presente, mostra que não faz a mínima ideia do que quer ser. Procura apenas sentir o que já sentiu. Procura voltar a uma sensação familiar. Como o adicto a quem se administra só mais uma dose. De melancolia. Neste Inverno permanente.

Manuel Fúria é músico e vive em Lisboa.

Manuel Barbosa de Matos é o seu verdadeiro nome.

E escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico.

‘Odeio Futebol Moderno’ é um espaço de opinião sobre atualidades futebolísticas da perspetiva de um romântico entalado num tempo em que não se reconhece.

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