Mesmo que não tenha ouvido de alguém que já estão vendidos, o adepto benfiquista sabe que Anísio e Banjaqui já se foram embora. Ainda lá estão, dirão alguns. Mas já não entre nós. Já estão em Espanha. Ou França. Ou Inglaterra. Ou nas Arábias. Tanto faz. A pergunta deixou de ser se vão sair: é apenas por quanto
Serão de Domingo. Benfica vs. Estrela da Amadora. Estrela da Amadora: equipa de nome belo e invulgar talento para nos alegrar com promessas transitórias. Como em 2001, quando Roger brilhou — e era mentira. Mentira cruel, como só os grandes génios, que nunca o seriam, são capazes de encarnar. Jogou como um génio. Instantes suficientes para nos cegar para sempre.
Vinte e cinco anos depois, frente às melhores camisolas da temporada — não é detalhe menor (qual o hipster que recusará ser fotografado no próximo Paredes de Coura com aquele tricolor a dizer “Centro Reciclagem da Amadora”?) — aconteceria outro milagre. Mas de natureza diferente. Anísio Cabral. Nome impossível. Idade impossível. Vindo dos confins de uma Lisboa impossível. Assistido por outro rapaz irreal, chamado Banjaqui. Marca no minuto exacto em que assenta os pés em campo. Minuto 84. A idade de Eusébio, caso fosse vivo, no dia do seu aniversário. Não é coincidência. No futebol, isso não existe.
Bem sei que todos estão a escrever sobre o mesmo assunto. Mas queriam o quê? Há momentos em que toda a realidade figura em segundo plano, silenciosa e irrelevante, diante do protagonismo implacável de certos acontecimentos. Não foi um. Foram dois. Dois miúdos. Dois negros. Dois nomes de antologia. Dois Eusébios. E, depois, há vícios que só se deixam ver quando se disfarçam de virtude. Como o entusiasmo.
O entusiasmo é uma espécie de pecado original do adepto moderno. Como Santo Agostinho, ansioso e anelante, o benfiquista volta sempre à sua fonte. E então sente que 2025/26 já valeu a pena. Que se dane o campeonato! Para as ortigas com as derrotas! No meio do pântano entrevê-se um jardim e, por breves segundos (brevíssimos mesmo), o Benfica deixa de ser um problema e volta a ser uma promessa.
E é aqui que quero chegar. O adepto mudou. O adepto benfiquista deixou, verdadeiramente, de ter esperança. Agora entretém-se com cálculos. E desistiu de se abandonar à ilusão, protegendo-se dela. E é assim que o vemos, em pleno estádio, a aplaudir com um olho no relvado e o outro no site de transferências. Percebemos isso no corpo. Já não há a mesma entrega. Celebra-se com um certo atrito. Vibra-se com prudência, desfasamento. E quem o poderá levar a mal por isso?
Mesmo que não tenha ouvido de alguém que já estão vendidos, o adepto benfiquista sabe que Anísio e Banjaqui já se foram embora. Ainda lá estão, dirão alguns. Mas já não entre nós. Já estão em Espanha. Ou França. Ou Inglaterra. Ou nas Arábias. Tanto faz. Os jornais imprimem-nos nas capas, fazem especiais biográficos sobre as suas origens, escavam bairros, fotografam mães, entrevistam treinadores da infância. Até acrescentam Stevan Manuel ao pacote — que não tendo jogado, já lá está também, com lugar reservado no avião. O jogo ainda mal acabou e a despedida já começou. A pergunta deixou de ser se vão sair. É apenas por quanto.
Há, aliás, uma terminologia comercial que se usa no futebol e que devia ser proibida. Alguma vem de cronistas neurasténicos, como este que vos escreve. É o caso de “entreposto”. Outra vem daquele optimismo inexplicável das redacções dos periódicos desportivos. É o caso de “montra”. “Montra”. Palavra sinistra. Palavra indecente. Faz lembrar aqueles bairros obscenos onde pessoas se expõem para as ruas de Amsterdão e Frankfurt. “Montra” — o princípio e o fim de uma ideia de futebol que transmudou clubes como o Benfica em paragens de autocarro, estações de serviço com hino e estatutos.
E é por isso que a alegria do adepto foi sendo substituída por este cinismo contemporâneo que nos protege do sofrimento. E que consiste, simplesmente, em não acreditar demasiado: amar menos, para perder menos.
Não espanta, assim, que o entusiasmo do adepto benfiquista tenha, hoje, a duração do minuto que demorou Anísio a marcar o seu golo de estreia. A realidade precipita-se como a saraiva destes dias. E o adepto aprende. Espera a capa do jornal. Talvez seja o Atlético de Madrid. Talvez por 63 milhões + objectivos. Talvez amanhã.
Um dia, então, pode ser que regressem. Possivelmente daqui a seis ou sete anos, com menos uma perna e o fastio de quem já viu tudo o que havia para ver. Nesse dia serão irreconhecíveis. Estranhos na sua própria casa. Como se acaso fosse possível perfilhar plenamente os filhos que se entregaram para adopção, no próprio dia em que foram dados à luz.
Manuel Fúria é músico e vive em Lisboa.
Manuel Barbosa de Matos é o seu verdadeiro nome.
E escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico.
‘Odeio Futebol Moderno’ é um espaço de opinião sobre atualidades futebolísticas da perspetiva de um romântico entalado num tempo em que não se reconhece.