Odeio Futebol Moderno

Dr. Mourinho, Sr. José, e um igual chamado Madrid

Sobretudo nos melhores momentos, há qualquer coisa em José Mourinho que insiste em ajustar contas em vez de abraçar a alegria. Uma frase que se atravessa. Uma farpa desnecessária. Um comentário infeliz. No jogo contra o Real Madrid foi isso que apareceu: era o momento perfeito para dar palco ao Dr. Mourinho, mas veio o Sr. José em estado puro, incapaz de aceitar a vitória sem esmagar alguém pelo caminho

José Mourinho é um homem dividido. Chamar-lhe-ão Mister, como tem de ser. Mas há nele também um Dr. Mourinho e um Sr. José, numa versão futebolística e menos elegante do Dr. Jekyll e Mr. Hyde. O Dr. Mourinho é o profissional aplicado, o estratega brilhante. O Sr. José é outra coisa: vive do ressentimento, alimenta-se do conflito, prospera na humilhação alheia. Onde um vence, o outro exige reparações.

Apesar de, com o tempo, o Dr. Mourinho ter passado a exercer algum controlo sobre o Sr. José, ele está ali, sempre à espreita. E, sobretudo nos melhores momentos, há qualquer coisa em José Mourinho que insiste em ajustar contas em vez de abraçar a alegria. Uma frase que se atravessa. Uma farpa desnecessária. Um comentário infeliz. Uma alquimia que consiste em transformar esperteza saloia em ciência exacta, e vingança miúda em discurso de vitória.

No jogo contra o Real Madrid foi isso que apareceu. A noite fora grande. Intensa. Daquelas que nos lembraremos daqui a cem anos. Mourinho tinha acabado de vencer. Com mérito. Era o momento perfeito para dar palco ao Dr. Mourinho: reconhecer o jogo, o adversário, a grandeza do momento. Mas não. Em vez da alegria e da grandeza, vieram a vingança e a mesquinhez. Aquela coisa sobre “os críticos que se suicidam nas varandas” mostrou o Sr. José em estado puro, incapaz de aceitar a vitória sem esmagar alguém pelo caminho, de permitir que um momento alto não fosse contaminado por uma azedia persistente.

O Benfica, quando é Benfica, pertence a outra ordem moral. A sua grandeza sempre esteve ligada a uma certa ideia de dignidade. Saber ganhar. Saber perder. E saber, sobretudo, ser magnânimo quando vence. A bazófia nunca lhe assentou bem; já a altivez fleumática, própria das grandes linhagens que não precisam de sinalizar estatuto, sim.

A vitória contra o Real Madrid foi um desses raros momentos de reencontro. Durante noventa minutos apareceu o Benfica verdadeiro, o da memória. O Benfica que existe tanto para quem o viu grande, como para quem apenas o recebeu como mito. Como se o Real tivesse atravessado seis décadas, vindo directamente daqueles impossíveis anos 60 para acordar o Benfica de um longo torpor, lembrando-lhe com o silêncio austero dos gigantes quem o Benfica realmente é.

Mas depois do apito final e das palavras aziagas do Sr. José, o problema não terminou. Pelo contrário, propagou-se. Como um vício disfarçado de virtude analítica. Na rádio, Gabriel Alves, o decano do comentariado desportivo nacional, cumpriria o seu papel histórico de apequenar o Benfica. O Real tem estrelas, mas não tem equipa, disse-nos. Está desencontrado, a meio caminho, uma soma de talentos ainda por organizar.

Tudo verdade. Rigorosamente verdade.

Mas eis o erro. E a má-fé de ignorar a grandeza quando ela acontece.

Senão vejamos, uns dias depois, nas respectivas competições nacionais. Durante noventa minutos o Benfica não conseguiu mais que o empate contra o Tondela, décimo sétimo no campeonato. Durante noventa minutos, o Real não conseguiu mais que o empate contra o Tondela lá do sítio — o Rayo Vallecano, décimo oitavo da classificação. Um acaso, chamado penálti por assinalar, ditou a sorte do Benfica. Um acaso, chamado penálti assinalado no décimo minuto de compensação, resolveu o problema do Real. O Real actual está exactamente como o Benfica actual: são duas equipas irregulares, capazes de noites sublimes e de tardes penosas. Em ambas se verifica exactamente a mesma incapacidade de controlar as equipas pequenas. A mesma dificuldade em impor autoridade. A mesma sensação de que o talento existe, mas pouco mais.

É isto que é preciso dizer ao Gabriel Alves e a todos os que, como ele, não perdem ocasião: não há aqui um gigante aleijado contra um herói improvável. Há equivalência. E é isso que torna a vitória do Benfica verdadeiramente épica. Não venceu uma caricatura de soberanias ultrapassadas. Venceu um igual. No plano táctico e emocional: exactamente igual.

Diminuir essa vitória é não perceber nada. Ou pior: fingir que não se percebe. O Benfica não ganhou porque o Real está pior organizado ou tacticamente frágil. Ganhou porque, naquele inoportuno momento, recordou quem é. Como se precisasse de ver a sua imagem reflectida na superfície do Real Madrid.

Agora, que no espaço de poucas semanas vamos jogar um contra outro tantas quantas as vezes que jogámos em sessenta anos, talvez se possa tirar do acontecimento algum benefício pedagógico. Uma espécie de terapia de choque. Do convívio com o velho companheiro latino, o barómetro perdido dos irremediavelmente grandes. Mensuráveis apenas entre criaturas da mesma espécie.

Manuel Fúria é músico e vive em Lisboa.

Manuel Barbosa de Matos é o seu verdadeiro nome.

E escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico.

‘Odeio Futebol Moderno’ é um espaço de opinião sobre atualidades futebolísticas da perspetiva de um romântico entalado num tempo em que não se reconhece.

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