E o Benfica contra o Alverca, este Domingo? Houve Anísio. Mas houve também uma flauta transversal. Não viram? Era o Aursnes. E explico, porque o futebol, como a culinária, tem destas coisas: também se pode mexer a massa de um bolo com uma flauta transversal. Funciona. O problema vem depois, quando se quer tocar. Para isso inventaram-se as colheres de pau. Durante demasiado tempo, o Benfica tratou Aursnes como colher de pau. Mas ele era flauta. E agora, que Mourinho o devolveu à sua função natural, há música no futebol do Benfica. Ele joga. Faz sorrir. E a nós, povo dado à superstição, volta a pôr-nos a acreditar. Só lhe falta um bigode.
É que o bigode, amigos, o bigode é a marca do futebol português. Uma declaração de carácter. Esqueçam tudo o que foram aprendendo, entretanto. Uma cabeça lisinha como a do Aursnes pode ser eficiente, mas nunca será inteiramente nossa. O nosso futebol exige sinais. Exige defeito visível. Exige exagero. Exige um bigode.
E foi assim que me lembrei do Chalana. O pai de todos os bigodes. Um arbusto moral. Eterno e impenetrável como tudo o que faz de nós verdadeiramente humanos. Ontem teria feito 67 anos. Dia 10 — claro. Não podia ser outro: nasceu num dia 10, como morreu num dia 10, como, nas costas, trouxe um 10 inscrito. Como se, no seu caso, não tivesse aderido a um número, mas tivesse sido escolhido por ele. Transportado. Elevado.
O que faz sentido. Porque Chalana era só ele. Tudo o que mostrava em campo era seu. Inventado por si. Fruto espontâneo daquele génio. Filho único do próprio desígnio, foi autor de um compêndio de gestos e fintas que outros incorporaram no repertório. Futre, por exemplo, ensaiava a finta dele nas travessias de cacilheiro para Lisboa e, embalado pelo Rio Tejo, acabou por lhe acrescentar aquela jinga particular. E Figo? Figo agigantou-se a repetir sempre o mesmo movimento — uma finta só, obsessiva. Tenha ou não vindo de Chalana, o pequeno Luís ia ver os jogos do Benfica num tempo em que todos copiavam o original. Como o meu irmão mais velho. Como todos os que estavam vivos naquele tempo. Quando aparece um génio, a nossa reacção é sempre a mesma: imitá-lo para sempre.
Chalana foi o primeiro. E é preciso dizê-lo: foi o primeiro jogador que nos partiu o coração. O nosso primeiro grande desgosto. O mesmo terceiro anel que fazia bruá quando Chalana puxava as meias para cima no aquecimento, nunca recuperou verdadeiramente da sua saída. E todos os festejos de golo nunca mais foram os mesmos: passaram a ser exercícios de memória, coreografias da saudade. E talvez tivesse sido essa a melhor justificação para mandar o Estádio da Luz abaixo: tentar acabar com a dor à força de dinamite e de uma bola de demolição.
Nós já sangrávamos e ainda não sabíamos: era o prenúncio de 1995, do mercantilismo pós-Bosman, da incapacidade do Benfica em guardar os seus.
E depois o Benfica foi buscar o Vando ao Braga. Coitado do Vando. Era óptimo jogador, mas não era Chalana. Foi aí que alguém pôs a tocar a Sister’s Jeans, dos Rolling Blackouts Coastal Fever. E instalou-se esta sensação de abandono.
Eis o que quero dizer: nenhum jogador é substituível. E nunca se recupera da saída de um jogador. Não se repete João Pinto, nem Poborsky, nem Gamarra. Nunca mais haverá um Aimar. E quando — inevitavelmente — o mandarem embora, não haverá outro Anísio.
Vejam o Rafa: independentemente das não-renovações e das tontices de o irem buscar numa altura destas, quando vemos Rafa jogar, regressa uma alegria que já não se via desde que partiu. Uma troca de bola de pátio das traseiras; de paralelo e descampado. Essa especificidade de cada um, esse dom intransmissível de si próprio, é preciso reconhecer. E depois saber guardar.
E é preciso um para reconhecer o outro. O Chalana tinha essa virtude. Ele sabia onde morava o talento, antes sequer dos próprios acreditarem nele. Quando Jesualdo Ferreira foi despedido, em 2002 foi ele, enquanto treinador interino, que mostrou ao mundo qual a verdadeira posição do Miguel. E se não fosse o Chalana não havia Bernardo Silva: foi ele que o viu antes de todos e o convenceu a não desistir quando, em pequeno, sofria as agruras de ser mais baixo do que os outros. Há quem crie escola e depois há quem deixe descendência.
E depois há o Adriano, lá de Santo Tirso. O Benfica tinha vindo participar num torneio a Famalicão. Embora nem sequer tenha jogado contra o Benfica, Adriano deu nas vistas. “Revejo-me no teu estilo de jogo, rapaz”, ter-lhe-á dito Fernando Chalana. E então foi a casa dele, para o levar para Lisboa. Imagine-se: o Chalana nas Caldas da Saúde! No café da sede do Caldas ninguém podia acreditar que era mesmo ele, ali, onde Judas perdera as botas. Os pais, prudentes, disseram que não. É o que é. Foi o que foi. A vida, tantas vezes contingente e confusa, segue quase sempre por estes atalhos invisíveis. Mas o Chalana viu-o.
Já repararam? Este texto é sobre o Chalana, mas está cheio de outras pessoas: Aursnes, o Miguel, Futre e Luís Figo, Poborsky e Bernardo, ou o meu amigo Adriano; e até tem espaço que chegue para o terceiro anel do Estádio da Luz. Não é por acaso. Ou por outra: não poderia ser de outra maneira. Certos jogadores de futebol — certas pessoas que vêm a este mundo — são como sementes. De uma roseira. E assim, só se lhes alcança verdadeira justiça quando se enumeram as flores que dela brotaram. Dos espinhos que no seu caule se foram formando. E então Chalana já não é dez, mas cem. Então, Chalana, ultrapassa os algarismos. É mil. Somos todos. Somos nós.
Manuel Fúria é músico e vive em Lisboa.
Manuel Barbosa de Matos é o seu verdadeiro nome.
E escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico.
‘Odeio Futebol Moderno’ é um espaço de opinião sobre atualidades futebolísticas da perspetiva de um romântico entalado num tempo em que não se reconhece.