Odeio Futebol Moderno

O Diabo veste Adidas

Um clube pode fazer parcerias, pode lançar edições especiais, pode convidar o artista oficial do regime estético dominante para desenhar o que quiser. O que não pode é negociar o seu próprio emblema. A sensação que se tem é que o Benfica funciona numa espécie de piloto-automático do previsível: é o artista do momento, manda-se vir e logo se vê. Faltou só aquela cláusula simples que diz que no emblema não se mexe

Recebi um SMS do Benfica. Acontece. Imagino que não seja muito diferente com outros clubes. Não nutro particular interesse nesta correspondência unilateral. São sempre umas inutilidades vagas a propósito de temas tão variados quanto arbitrários: seguros de saúde, animais de estimação, uns descontos em pronto-a-vestir e, lá de vez em quando, futebol.

Desta vez o assunto era arte. Arte urbana e vestuário. A nova camisola do Benfica concebida sob a direcção criativa de Vhils: uma colaboração que, garante-nos o texto de apresentação, “eleva esta peça a um novo patamar de criatividade e autenticidade.”

Confesso que, ao ler “eleva a autenticidade”, senti um — digamos — sobressalto. A autenticidade, quando é verdadeira, não se eleva: impõe-se. Às vezes até cheira mal. A ideia de domesticar o futebol de rua sob a tutela de uma direcção criativa tem qualquer coisa de comovente e de trágico ao mesmo tempo. É como se alguém resolvesse declarar o instinto às finanças.

Vhils já foi isso. Um gesto de ruptura. Nesse tempo escavava rostos nos edifícios, revelando os nervos ocultos da cidade, marcando no betão qualquer coisa de áspero e subterrâneo. Mas esse tempo passou e o sistema tem o dom de absorver: a cidade engole o que a desafia para nos devolver devidamente reenquadrado. Calha a quase todos. Hoje, Vhils é o artista escolhido para retratar Presidentes da República, o que não é propriamente uma acusação, mas um sintoma. E assim, da fractura exposta que palpitava nas alvenarias lisboetas, nasceu um decorador de interiores.

Ora, o Benfica decidiu que o manto sagrado precisava dessa espécie de verniz oficial. Talvez para se mostrar mais sofisticado. Mais fresco. Mais jovem. Sei lá. Fosse o que fosse, não lembrou a ninguém, lá no departamento, que “celebrar o futebol de rua” através de uma edição de luxo é uma dessas contradições que se anulam a si próprias. É impor hierarquia e mediação precisamente sobre aquilo que é anti-hierárquico e espontâneo. É tornar vertical o que nasceu horizontal. E cobrar cem euros. Tudo isto suportar-se-ia, não fosse o que viria a seguir.

Pois. O emblema. Andam outra vez a brincar aos emblemas. Depois de anos a denunciar o malfazejo desenho de 1999 — essa águia imprudente que parece agarrar o pneu da roda de bicicleta em vez da faixa com a divisa — chegámos finalmente às Assembleias de Revisão Estatutária de 2024, onde se fixou expressamente que o emblema não admite versões monocromáticas e deve respeitar a definição estatutária. Discutiu-se, deliberou-se, votou-se. Foram horas disto. Horas. E ficou resolvido.

Damos de barato que o emblema actual ainda não esteja restaurado. A época já estava em curso quando os novos estatutos entraram em vigor e os equipamentos já definidos. Mas apresentar uma camisola especial com o emblema a preto e branco não pode ser um descuido inocente. É agir como se o símbolo maior do clube pudesse ser relativizado ao sabor de uma inspiração do momento, menosprezando a deliberação dos sócios. Não é por acaso: os símbolos são o lugar onde o poder se legitima. Dispor deles não é uma questão de desenho; é um acto de jurisdição.

Um clube pode fazer parcerias, pode lançar edições especiais, pode convidar o artista oficial do regime estético dominante para desenhar o que quiser. O que não pode é negociar o seu próprio emblema. Porque o emblema não é mercadoria; somos nós — e é antes de nós. Quando um clube começa a usar o seu símbolo como acessório decorativo está a substituir a lógica da memória pela lógica do mercado comportando-se como marca.

A camisola do Vhils não peca por ser feia. Peca por estar errada.

A sensação que se tem é que o Benfica funciona numa espécie de piloto-automático do previsível: é o artista do momento, manda-se vir e logo se vê. Faltou só aquela cláusula simples que diz que no emblema não se mexe.

É que uma organização pode perseverar na adversidade: aguentará derrotas e maus treinadores, incompetência e maus presidentes. Mas não aguenta que se tratem os símbolos como mutáveis. É tocar no que não devia ser tocado. A instituição até pode continuar — e continuará, como tantos que o fizeram continuam — mas deixa de ser o que é para passar a ser outra coisa. E ninguém dá pelo momento exacto em que isso acontece.

Manuel Fúria é músico e vive em Lisboa.

Manuel Barbosa de Matos é o seu verdadeiro nome.

E escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico.

‘Odeio Futebol Moderno’ é um espaço de opinião sobre atualidades futebolísticas da perspetiva de um romântico entalado num tempo em que não se reconhece.

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