Odeio Futebol Moderno

Sporting-Porto: tempo de vilões

Toda a verdadeira inimizade é um amor ao contrário. Nesta analogia o Sporting equivale ao Van Drago e o Clubber Lang ao FC Porto. Hoje eles estão diferentes: Drago voltou a ser o temível representante de uma nação imperial e orgulhosa; e Clubber Lang, depois de algumas intermitências, voltou a assustar como todo o bom rufião insolente. E o Rocky, bem, o Rocky está na primeira metade do terceiro filme

Todo o clássico tem sempre um vilão. O Sporting-Porto tem dois. E dois vilões fazem sempre um grande espectáculo. Nem parece bem um jogo de futebol. É como ver um combate entre Ivan Drago e Clubber Lang, se tal sortilégio fosse possível. O espectador olha para ali, sente-se moralmente desalojado, mas não consegue tirar os olhos do acontecimento.

Poder-se-ia pensar que isto são palavras malfazejas de um empedernido benfiquista destilando azedume para cima dos adversários. Não é assim. Toda a verdadeira inimizade é um amor ao contrário. Ivan Drago e Clubber Lang são, de longe e em toda a história da grande dramaturgia pugilística, os vilões mais temíveis de que há memória. Magnéticos. Impossíveis. Um estrondo. O pobre Rocky apanhou pancada de meia-noite. Foi esmagado, humilhado, atirado às cordas como um saco de batatas. No fim ganhou, é verdade — mas antes levou tareias bíblicas, daquelas que fariam chorar uma estátua.

Quando era miúdo confesso que não era assim. Não me importava que ganhasse o Ivan Drago (como é natural, nesta analogia o Sporting equivale ao Drago e o Clubber ao Porto). É que o Clubber Lang era especialmente forte. Demasiado forte. Para quem cresceu acima da linha do Mondego era terrível, amigos. Aquelas Segundas-feiras. Aqueles abismos matinais de enfrentamentos escolares. Aquela sensação de entrar numa sala de aula como quem caminha para o esquadrão de fuzilamento. Por isso era como se ainda sobrassem vestígios da aliança Benfica-Sporting na final da Taça 1980, contra o Porto. O episódio mais surreal de que há memória no futebol em Portugal. Tão contra-natura que até a combinação cromática doía nos olhos. Preferir que o Sporting vencesse era, não direi natural, mas higiénico. Como o Sporting de então era um clube higiénico. Um Ivan Drago subnutrido. Além disso, não havia sportinguistas na minha turma. Três ou quatro solitários benfiquistas tentando não se afogar num mar de hostilidade.

Mas hoje os vilões estão diferentes. Drago voltou a ser o temível representante de uma nação imperial e orgulhosa. E Clubber Lang, depois de algumas intermitências, voltou a assustar como todo o bom rufião insolente. E o Rocky, bem, o Rocky está na primeira metade do terceiro filme. É a versão aburguesada. Convencido de que o mundo é seu. Os cinturões pendurados por cima da lareira. As fotografias com governadores civis e cantoras de Las Vegas. Os músculos ainda nos braços, mas esquecidos da própria força. A terrível doença da prosperidade: o indivíduo ganha tudo, acumula tudo, e perde a única coisa que interessa: a fome.

O Benfica já não ganha nada que se veja há bastante tempo, mas comporta-se assim. Como aqueles campeões que começaram a acreditar demasiado na sua própria lenda.

Na terça-feira à noite, o que se viu foram dois esfomeados. Duas equipas inconformadas, cada uma à sua maneira, a agigantarem-se uma diante da outra. Futebol, ideias, convicção, vontade de ganhar. Aquilo que o Benfica tem sido pouco capaz de oferecer. O contrário deste Rocky; não propriamente velho, mas instalado.

Há sempre um momento, tarde e a más horas, em que o herói aparece de roupão.

Mas era bom que tivesse visto o mesmo que eu vi. Que tivesse olhado para o ringue e percebesse a assustadora certeza de já não ser ele que lá está. Aquela fome pertence agora aos outros. Aquela violência vital, aquela pressa de conquistar o mundo, mudou de esquina.

As ruas à volta do Estádio de Alvalade confirmam a monstruosidade em marcha. A polícia de choque, os pastores alemães, o trânsito parado. Enquanto o Benfica dorme descansado, os outros transpiram. Em laboratórios ou em caves húmidas: inquietos, prontos, de punhos em riste. E a cidade sustém a respiração.

Alguém corra a avisar o Sr. Balboa que o combate já começou; e aproveite, também, para lhe dizer que as grandes civilizações não caem por ataque externo, mas por saciedade.

Manuel Fúria é músico e vive em Lisboa.

Manuel Barbosa de Matos é o seu verdadeiro nome.

E escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico.

‘Odeio Futebol Moderno’ é um espaço de opinião sobre atualidades futebolísticas da perspetiva de um romântico entalado num tempo em que não se reconhece.

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