Odeio Futebol Moderno

Tochadas, Ultras, ou os Últimos dos Homens Trágicos

Só os muito degradados ao nível do comentário de pós-jogo poderão olhar para um denso manto de fumo e ver apenas um problema de visibilidade. Nações inteiras construíram-se a partir da esperança de que do nevoeiro surgisse um rei. Os ultras, com todas as suas deformações, pertencem ainda a uma espécie de homens que não desistiu inteiramente dessa expectativa

Há um homenzinho que vive dentro de nós, sempre pronto a fazer-se ouvir. Eu chamar-lhe-ia, para este caso, o homem-útil. É uma figura muito característica do nosso tempo. Não tolera o exagero, desconfia do risco e toma por civilização a eliminação metódica de tudo o que perturba. É insuportável.

No Benfica-Porto de Domingo passado, quando os Diabos Vermelhos fizeram o que os Diabos Vermelhos fazem desde que há Diabos Vermelhos e incendiaram simbolicamente o mundo, lá surgiu ele, a tossir princípios, como um deputado municipal a discutir higiene urbana numa sessão de plenário. “Isto prejudica.” “Isto não pode acontecer.” “Isto é inadmissível.”

O homem-útil é bem-intencionado. Mas não percebe uma coisa elementar: o futebol não é uma actividade útil. Se assim fosse, não existiria. Ninguém precisa daquilo para nada. Onze homens atrás de uma bola, cachecóis às riscas, cânticos gritados até à afonia, ausências difíceis de justificar, alegrias sem cabimento e tristezas que nos arruínam a semana inteira. Só traz problemas. Mas é essa a beleza: o futebol existe precisamente porque há no homem qualquer coisa que não quer servir para nada. Qualquer coisa de bélico, de poético e de cerimonial. Que quer apenas manifestar-se.

Talvez por isso a figura encardida do ultra continue a guardar qualquer coisa de mais nobre do que toda a assepsia do futebol moderno. O que neles subsiste interessa por uma razão simples: a sede de verdade, amordaçada no coração do homem-útil, manifesta-se no ultra como vertigem da perda de medida, do risco, da oferenda, do esquecimento de si. Não são outra humanidade; são a humanidade em estado febril.

No estádio contemporâneo, são dos últimos a conservar qualquer coisa do homem trágico, desse homem antigo que intui que, para se revelar, a verdade precisa de espessura, densidade, nevoeiro. Não surge sob a luz branca da transparência higiénica. Surge em clarões, no meio do fumo, quando alguma coisa arde.

Compreendo que se queira ver o jogo. E até me esforço por ser sensível aos que culparam as claques pelo golo sofrido logo após a interrupção do Benfica-Porto da época passada. Mas também os sinos interrompem o silêncio. E as procissões atrapalham o trânsito. Também a paixão, quando é verdadeira, suspende por momentos o curso normal dos acontecimentos. O homem-útil quer um futebol que funcione. O homem trágico quer um futebol onde ainda possa ocorrer qualquer coisa de irreparável. Entre um e outro está toda a distância que separa o VAR do Anel dos Nibelungos.

Em muitos estádios, já quase tudo o que havia de rito foi abolido. Às claques tiraram os tambores. Tiraram as bandeiras. Tiraram espaço e legitimidade estética. E até o direito de parecer outra coisa que não uma anomalia. O futebol moderno foi-lhes subtraindo todas as formas de manifestação, como quem vai arrancando, um a um, os membros a um corpo. Restou o fogo que, sabe-se lá como, conseguem levar lá para dentro. E, com ele, a possibilidade de fazer descer sobre nós uma atmosfera que não pertence ao universo do entretenimento, mas ao da aparição.

Por isso, no Domingo passado, enquanto o homem-útil viu apenas uma interrupção de quatro minutos, houve quem visse a alma do adepto a ganhar corpo. O invisível tornado visível. E, nessa fumarada, o ardor, a febre, a fome.

Sabe-se que o nevoeiro não é um simples acaso meteorológico. É uma categoria espiritual. Só os muito degradados ao nível do comentário de pós-jogo poderão olhar para um denso manto de fumo e ver apenas um problema de visibilidade. Nações inteiras construíram-se a partir da esperança de que do nevoeiro surgisse um rei. Os ultras, com todas as suas deformações, pertencem ainda a uma espécie de homens que não desistiu inteiramente dessa expectativa.

Há, nas tochadas, qualquer coisa de wagneriano em versão popular e suburbana. A memória de que uma comunidade só se reconhece plenamente quando se junta em redor do fogo e do brado. Talvez seja torpe. Será quase sempre contraproducente. Mas é um sinal de vida. E convém não desprezar o que ainda arde.

Manuel Fúria é músico e vive em Lisboa.

Manuel Barbosa de Matos é o seu verdadeiro nome.

E escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico.

‘Odeio Futebol Moderno’ é um espaço de opinião sobre atualidades futebolísticas da perspetiva de um romântico entalado num tempo em que não se reconhece.

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