Odeio Futebol Moderno

Manifesto Anti-Sintético

Uma coisa verde que parece relva, mas não é relva. Que não tem sequer a dignidade de um tapete. Uma carpete com ambições botânicas. Uma alcatifa vil e inodora que destruiu a réstia de esperança que ainda depositávamos na singeleza do futebol das escolinhas, dos arrabaldes e da província. O Sintético é a tragédia silenciosa do futebol português. E do desporto português. E da vida portuguesa. O futebol nasceu na relva, e à relva há de voltar

Fomos à bola ver jogar. Mas foi tudo mentira. Porque aconteceu sobre um sintético.

Sintético quer dizer falso.

Sintético quer dizer imitação.

Sintético quer dizer uma coisa que finge ser outra sem nunca chegar a sê-lo.

O Sintético chama-se assim, mas a única coisa que sintetiza é a aparência vegetal com a aspereza de uma fibra tecida numa zona industrial do planeta.

O Sintético é grotesco.

O Sintético é mau.

O Sintético é têxtil técnico.

Haverá o “VAR”. Haverá “bascular”. Haverá ainda o péssimo hábito de começar frases no infinitivo. Mas palavra mais abjecta do que “Sintético” não existe em todo o vocabulário do futebol. Porque Sintético é fraude. E Sintético é logro.

Uma coisa verde que parece relva, mas não é relva. Que não tem sequer a dignidade de um tapete. Uma carpete com ambições botânicas. Uma alcatifa vil e inodora que destruiu a réstia de esperança que ainda depositávamos na singeleza do futebol das escolinhas, dos arrabaldes e da província. O Sintético é a tragédia silenciosa do futebol português. E do desporto português. E da vida portuguesa.

O Sporting foi jogar contra o Bodø/Glimt, lá no condado de Norland, onde a neve começa e o futebol devia acabar. Perdeu por três. Disseram-nos que os noruegueses eram fortes, unidos, organizados, inspiradores. Pode ser. Mas o que não se disse vezes suficientes foi isto: Sintético. E era isso que se devia ter dito. Porque lá onde o Bodø/Glimt vive joga-se sobre uma mentira. E foi preciso virem ao Lumiar, onde a erva é erva, para levarem cinco e aprenderem alguma coisa sobre a verdade. O que venceu não foi apenas o Sporting. Foi a natureza.

Porque o Sintético mente no resultado.

E mente na promessa de eficácia.

O Sintético és tu e eu quando faltamos à verdade. O Sintético representa a norma que aceitamos por concessão: aquela novidade que ninguém pediu, ninguém exigiu, e que de repente está em todo o lado, substituindo o que estava bem como estava. Como o verbo “colocar”.

O Sintético é o triunfo do futebol moderno — e pior que isso não há. O Sintético esfola os joelhos, e os médicos queixam-se disso. O Sintético enche as chuteiras de bolinhas pretas que se espalham e infiltram nos estofos do carro e nos estofos da casa e nos forros da roupa, nos esconderijos das unhas, e no cabelo, como se fossem moscas mortas. Vocês não sabem, mas eu vou-vos contar: essas bolinhas pretas são moscas mortas. Mortas mesmo. O Sintético é tudo isto. E é pior. É assassino.

Porque o Sintético matou o Pelado.

E agora “Pelado” é uma daquelas palavras que se dizem sem que exista coisa alguma que lhes corresponda. Como “folhetim”. Como “Fangio”.

Mas o Pelado não merecia.

O Pelado nunca fez mal a ninguém.

O Pelado era bom.

O Pelado era honesto.

A bola podia ter caprichos, mas o ressalto era uma filosofia e cada passe uma negociação com o mundo. O Pelado era duro. Era pobre. Era imperfeito. Mas era nosso.

O Sintético foi inventado na China.

O Pelado foi inventado por Deus.

Mas mataram Deus. E o mau gosto da natureza humana triunfou sobre a Criação. O Pelado tinha jogadores. O Sintético tem utilizadores. O Pelado convocava adeptos. O Sintético seduz clientes.

Por isso digo:

Queimem as carpetes!

Arranquem as alcatifas!

Proíbam o Sintético!

E devolvam-no ao cesto das más ideias de onde nunca devia ter saído.

O futebol nasceu na relva, e à relva há de voltar. Quando não a há, que haja areia, cimento, madeira; que haja terra, que é o lugar onde a relva nasce. No dia em que aceitarmos jogar definitivamente sobre plástico, nesse dia o futebol deixará de ser um jogo. Passará a ser uma simulação. Sem lama. Sem vida.

E então teremos diante de nós não um campo, mas um cemitério.

E numa lápide, entre duas coroas murchas, poder-se-á ler:

“Aqui jaz aquilo a que um dia se chamou futebol.”

Manuel Fúria é músico e vive em Lisboa.

Manuel Barbosa de Matos é o seu verdadeiro nome.

E escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico.

‘Odeio Futebol Moderno’ é um espaço de opinião sobre atualidades futebolísticas da perspetiva de um romântico entalado num tempo em que não se reconhece.

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