E o preço das camisolas das selecções para o Mundial? Não sabiam? Pois saiu uma notícia sobre o preço exorbitante das novas camisolas da Nike e da reacção exasperada dos adeptos. Pudera. É um roubo. 110 euros por uma réplica; 160 por uma original. 160 euros. 160 euros são 32 contos. Trinta e dois contos por uma camisola de manga curta. A indignação é tal que se esgotaram os pontos de exclamação no teclado mesmo antes de começar a escrever o texto. 32 contos dava para mais de vinte cdês e ainda sobrava, dois pares de Doc Martens, das de biqueira de aço, e ainda sobrava, e quase, quase, dava para cometer uma loucura e comprar uma Super Nintendo com pistola e Super Mario World incluídos. Trinta e dois contos por uma camisola: eis o preço a pagar pelo amor ao sortilégio que se dá quando vinte e dois homens desatam a correr atrás de uma bola.
A reacção imediata é berrar, pois claro. Chamar gatunos às marcas e vampiros às federações e mafiosos aos departamentos de marketing. Tudo isso é atendível. Está certo. Mas está incompleto. Porque, por uma dessas magníficas ironias da vida moderna, a obscenidade do preço talvez possa guardar uma boa notícia.
E a boa notícia é esta: talvez a camisola lhes esteja a escapar das mãos.
Explico. O homem, esse animal feito de desejo e falta de memória, pensará, porventura, na camisola de futebol e imaginá-la-á como se tivesse sido sempre este objecto central, omnipresente, esta segunda pele do adepto contemporâneo. Mas não foi. Isso é uma ilusão retrospectiva. Sei de Colégios em Lisboa nos quais a ausência de farda oficial é compensada pelo uso diário — e às vezes bidiário — deste tipo de peça. E sei de Carnavais que trocaram o mito do Zorro pela lenda de Mbappé. Mas nos anos oitenta e noventa, quando a erva era mais verde e tudo parecia mais simples, a camisola de futebol não era esta peça de vestuário imperial que colonizava as ruas, o recreio, os concertos, os aeroportos, as tardes de Domingo e os perfis das redes sociais. Era uma coisa rara. Inaudita. E essa ausência não tinha a ver com preço. O filão comercial é que ainda não tinha sido descoberto, e os departamentos de marketing dos clubes e das marcas de material desportivo não tinham ainda percebido que podiam fazer do adepto um cabide ambulante.
Quem, no seu perfeito juízo, tinha uma camisola original do clube em 1992? Pouquíssima gente. Nem ricos, nem pobres, nem ninguém. Lá havia uma, de vez em quando, a brilhar num baldio. Seria do primo que ia a Espanha. Ou do tio emigrante. Ou do sortudo que conhecia alguém do departamento de futebol do Aves. Então, o amor ao futebol dependia de outras coisas mais rudimentares, mais improvisadas e mais plebeias. Coisas mais vivas como a réplica, a imitação barata, a camisola da feira de estampagem duvidosa e emblema mal cosido. Era o tempo da Abibas e da Retruck. Os gloriosos dias da Pamu e da t-shirt estampada na casa de fotocópias da esquina. Eram os tempos da criatividade de subsolo com que o povo sempre resolveu o problema de amar o que não podia comprar.
Ora, o que estas marcas estão agora a fazer, no alto da sua torre de marfim, é levar tão longe a lógica do desejo que acabam por reabrir a fenda pela qual o povo entrava. Querem a camisola como fetiche neste inferno de turistas? Querem-na fora do alcance do corpo comum? Muito bem. Pode ser o regresso da camisola clandestina.
Pode ser o regresso da réplica desavergonhada. Pode ser o regresso da invenção popular. Tinham medo dos Ultras? Pode ser o regresso de uma cultura de adeptos ainda menos obediente, ainda menos esterilizada pelos revendedores oficiais. Pode ser exactamente o contrário do que desejariam. Contrafacção: a palavra é curta para as possibilidades que se abrem.
Para quem gosta verdadeiramente de futebol, isto é muito mais interessante do que a conversa indignada sobre preços. Porque a conversa sobre preços ainda se move dentro da lógica deles. Continua a aceitar que a camisola lhes pertence, e que o problema está só em pedirem demasiado por ela. Mas o que eles não sabem é que a camisola nunca lhes pertenceu. E um dos erros do futebol moderno é precisamente essa confusão entre quem detém os meios de produção e quem detém o espírito invisível que os anima.
É sempre assim na cultura popular. Estes ciclos aconteceram com o punk, com o grunge, com a cara do Che Guevara ou os bonés do Yankees. Coisas que deixaram de significar o que significavam para passarem a significar coisa nenhuma, ou antes: para passarem a significar moda, que é a palavra oficial para coisa nenhuma. O processo é sempre o mesmo: o subterrâneo inventa, o mercado detecta, o mercado absorve, o mercado revende. E, nesse comércio, mata tudo.
Só que de vez em quando, como agora, a captura é tão grotesca que se arrisca a produzir o seu contrário. O preço sobe, o povo afasta-se, e nesse afastamento uma criatividade heráldica de base, uma pequena indústria sentimental paralela. É essa a esperança contida nos 160 euros de uma camisola de futebol.
Manuel Fúria é músico e vive em Lisboa.
Manuel Barbosa de Matos é o seu verdadeiro nome.
E escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico.
‘Odeio Futebol Moderno’ é um espaço de opinião sobre atualidades futebolísticas da perspetiva de um romântico entalado num tempo em que não se reconhece.