Odeio Futebol Moderno

Bernardo-por-cumprir e a Roda dos Expostos do Futebol Moderno

Bernardo Silva foi o primeiro de uma linhagem que o Benfica tem gerado em série: o jogador-por-cumprir. Não é bem o jogador regressado, porque não regressa a lado nenhum. Nem é só o craque formado no Seixal. É qualquer coisa mais dolorosa: o talento que o Benfica produziu para os outros e que o benfiquista ficou a imaginar para si

Bernardo Silva é um caso à parte. O seu nome inaugurou um tipo de jogador que o futebol ainda não conhecia. Escrever sobre ele exige cuidado, quase como quem mexe numa zona inflamada da alma benfiquista. Não me refiro ao jogador-adepto; essa figura existe há muito e teve exemplos perfeitos, de Raúl a Totti, de Steven Gerrard a outros todo que cresceram a amar o clube que defenderam. O caso de Bernardo é mais fundo, mais intricado: não partilha apenas da paixão do adepto; traz consigo a ferida exposta do amor obstruído.

Todo o adepto sonhou, a certa altura, jogar no seu clube. Em princípio ainda sonha. É o caso de Bernardo. Nele, o benfiquista contempla uma versão sublime e cruel de si mesmo. Também ele não jogou. Ou melhor: não se cumpriu ali. Não chegou a acontecer no único lugar onde interessava que acontecesse. É essa a sua ferida, que é também a nossa.

Bernardo Silva foi o primeiro de uma linhagem que o Benfica tem gerado em série: o jogador-por-cumprir. Não é bem o jogador regressado, porque não regressa a lado nenhum. Nem é só o craque formado no Seixal. É qualquer coisa mais dolorosa: o talento que o Benfica produziu para os outros e que o benfiquista ficou a imaginar para si. O jogador-por-cumprir é o subproduto sentimental da política desportiva do Benfica, essa máquina obtusa de formar para vender. É como se o Benfica fosse uma espécie de mãe desnaturada, que educa com desvelo para depois entregar o recém-nascido à roda dos expostos do futebol mundial.

O jogador-por-cumprir é perfeito. Não falha, porque ainda não aconteceu. Não desilude, porque vive intacto na imaginação. Não envelhece, porque o sonho tem sempre vinte e três anos. Está sempre a caminho. E quase nunca vem. Quando isso acontece, já não é exactamente aquele que o adepto imaginou, mas outra coisa, normalmente boa para aquecer o banco ou, protegido pelo estatuto, para tapar o lugar a quem devia estar a jogar.

Nem sempre o jogador-por-cumprir é alguém que não chegou a jogar pela equipa principal. Muitos vestiram o manto sagrado tempo suficiente para se exibirem na montra da Luz e serem comprados. Por isso entram nesta categoria Renato Sanches, João Félix, Rúben Dias, Gonçalo Ramos ou Gonçalo Guedes. Os nomes sucedem-se e davam para fazer uma equipa capaz de reconquistar a Europa. Mas essa equipa só existe no além do benfiquismo; nessa zona difusa onde vivem as grandes equipas que nunca chegaram a existir.

Eis o que explica o sururu da imprensa desportiva com Bernardo. Não é só dar-se o caso de ser um nome grande. É uma fonte de angústia em alta-definição, coisa muitíssimo mais magnética. No seu caso, nem sequer interessa muito para onde poderá ir. Galatasaray, Juventus, Barcelona, Flamengo, Marte, o que for. Basta uma tômbola, meia dúzia de papelinhos, dois verbos vagos, um “pode”, um “admite”, um “não fecha a porta”, e a indispensável “fonte próxima do processo”, essa entidade omnisciente e alcoólica que há décadas sustenta o jornalismo desportivo. O importante não é o destino. É o facto de não vir para onde devia vir.

É por isso que o mercado, para o benfiquista, é quase uma manifestação pneumatológica. O adepto não quer apenas que Bernardo venha. Quer uma monstruosidade maior: quer que o Espírito Santo sopre e que Bernardo tenha sido. Quer que a história, de uma vez por todas, recue, se retrate e reescreva a juventude.

O adepto acompanha estas novelas como quem espera, há anos, aquele final feliz que sabe impossível. Lemos as notícias com a melancolia de quem vê a vida desperdiçar mais uma ocasião de reparar o que se estragou. Cada manchete é uma pequena mentira piedosa. Cada rumor acende, por instantes, a velha superstição de que ainda vamos a tempo. E não vamos. Nunca vamos. Não é só Bernardo que aguarda desfecho. Somos nós, sempre nós, de nariz colado ao vidro, à espera de que nos devolvam o que jurámos ser nosso.

Manuel Fúria é músico e vive em Lisboa.

Manuel Barbosa de Matos é o seu verdadeiro nome.

E escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico.

‘Odeio Futebol Moderno’ é um espaço de opinião sobre atualidades futebolísticas da perspetiva de um romântico entalado num tempo em que não se reconhece.

Tem alguma questão? Envie um email ao jornalista: tribuna@expresso.impresa.pt