Odeio Futebol Moderno

Futebol Clube Sem Cabeça

Em certos casos, para se ser um bom presidente, basta concretizar um conjunto de coisas muito simples: negociar com bancos, escolher um bom treinador, limpar a casa; dar ao clube um princípio, um meio e um fim. Em certos contextos um pouco de bom senso traz consigo a força de uma revolução. Artigo de opinião de Manuel Fúria

Ainda na semana passada dizia o Vilhena que treinador e jogadores não racham lenha, que o essencial de um clube é o Presidente, e o resto é conversa. O Vilhena, que tem escrúpulos, não insinuou autorias; a tese era de um monárquico chamado Guedes. Isto, por si só, já serve de carta de recomendação: quando um homem da causa real desata a defender presidentes, a coisa ganha logo uma autoridade suplementar. De maneira que: o Guedes convenceu o Vilhena, o Vilhena convenceu-me a mim, e eu, que aprecio uma boa reticência, dei por mim a reconhecer os méritos ao raciocínio.

Basta olhar à volta. Um clube acaba por ficar sempre com a cara de quem manda. Pode levar o seu tempo, mas a verdade acaba sempre por se instalar.

Veja-se o Porto. O Porto tem bom treinador. Tem bons jogadores. Tem, como se costuma dizer, matéria-prima. Mas não é por isso que vai ser campeão esta época. É o Presidente. Durante os dolorosos anos noventa do pentacampeonato, o Porto dava-se ao luxo de sentar no banco uma vassoura e a vassoura ganhava campeonatos. O único grande treinador daquele ciclo foi Bobby Robson. O resto foram meros funcionários ao serviço de uma força que vinha de outro sítio. E com os jogadores era igual. Quando saiu Jardel, o goleador do caos, apareceu Pena. Um Pena. E a banda continuava a marchar. Bastava-lhe o seu Presidente.

Por isso é que, depois de meses de conversas sobre ruptura, limpeza, “novo ciclo” — como se nas Antas se estivesse a viver uma refundação moral —, parece que, quem por lá passar hoje, se arrisca a cruzar com o Guarda Abel. É que o Porto recompõe-se quando reaprende a ser Porto. E isso, goste-se ou não, é voltar a respirar com aquele espírito sitiado, a sentir aquela fome desvairada de fazer da guerra um lar. Com o tal amoníaco, ou lá o que foi, os tais vídeos, os túneis histriónicos e a velha fauna dos bastidores a dar sinais de vida, Villas-Boas mostra que está disposto a encarnar o espírito de Pinto da Costa.

O Sporting, por sua vez, passou décadas a provar do gosto da insignificância. Não me levem a mal mas, por vezes, certos clubes são conduzidos a adaptações forçadas, como aquelas pessoas que se habituam ao bolor nas paredes de casa. O Sporting habituou-se e fez do seu declínio uma espécie de distinção. Tinha bons treinadores, às vezes grandes treinadores, provavelmente os melhores. Tinha bons jogadores, por vezes excelentes, alguns até magníficos. E mesmo assim a coisa não se dava. Havia ali um bloqueio anterior ao próprio jogo, anterior à própria táctica. Faltava-lhe uma cabeça. Num mundo de Presidentes, o Sporting mantinha um sistema dinástico totalmente estrangeiro ao admirável mundo novo do futebol português inventado a norte. O Sporting tinha demasiadas maneiras; faltava-lhe a brutalidade elementar da afirmação.

Até que a aristocracia colapsou de vez e produziu um Termidor chamado Bruno de Carvalho. Foi precisa essa farsa inchada para o Sporting acertar. E desde então o clube do Lumiar começou a parecer-se menos com uma sala de espera e mais com uma instituição desportiva. Em certos casos, para se ser um bom presidente, basta concretizar um conjunto de coisas muito simples: negociar com bancos, escolher um bom treinador, limpar a casa; dar ao clube um princípio, um meio e um fim. Em certos contextos um pouco de bom senso traz consigo a força de uma revolução. E é esse tipo de gestão que faz com que Gyökeres, o melhor jogador que passou por Portugal na última década, não faça tanta falta quanto isso.

E depois há o Benfica. Ou, para ser mais exacto, “este Benfica”. E “este Benfica” tem a cara chapada do seu Presidente. Isto não é insulto, é um daqueles factos da vida. Uma coisa que salta à vista. Há ali bons jogadores, um treinador que, em princípio, devia ser bom; matéria mais do que suficiente. E, no entanto, “este Benfica” arrasta-se naquela impotência mansa, hesitante. Parece sempre à espera de qualquer coisa.

Rui Costa não fez do Benfica uma tragédia, pelo menos não no sentido sanguíneo da coisa. Pelo menos não por enquanto. Se o tivesse feito, haveria tumulto, uma descarga nervosa, qualquer coisa. Lembram-se dos tempos de Damásio? Aí sim, havia sangue nas veias dos sócios. Havia repulsa, indignação, uma massa humana que ainda sabia distinguir clube e caricatura de clube. Ainda ontem por lá andara Jorge de Brito, ainda havia a recordação de um certo tipo de ambição, de uma certa obrigação moral perante a grandeza. Mesmo com o pior presidente da história ao leme, sobrevivia ainda essa dissonância entre a pequenez de quem liderava e a grandeza daquilo que era liderado.

O Benfica viveu demasiado tempo sem um Presidente à altura. É daí que vem esta tibieza que passou da direcção para a equipa, e da equipa para o adepto. É como um corpo desorientado, ainda de pé, mas sem discernimento. Repare-se: um grande clube pode viver algum tempo com dores de cabeça. O que não pode é viver sem ela.

Manuel Fúria é músico e vive em Lisboa.

Manuel Barbosa de Matos é o seu verdadeiro nome.

E escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico.

‘Odeio Futebol Moderno’ é um espaço de opinião sobre atualidades futebolísticas da perspetiva de um romântico entalado num tempo em que não se reconhece.

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