Odeio Futebol Moderno

Boavista, Num Pesadelo Sempre Pop

Ainda estou parvo. Leiloar um estádio de futebol é uma ideia abjecta. É como se se leiloasse uma infância. Para o adepto é isto, e é pior: é uma amputação ao contrário; não é ele que perde um membro, mas o corpo maior a que pertence que lhe é arrancado

Ando há meses a rondar o caso do Boavista, como um cão que hesita à volta de uma poça opaca. Não é desprezo, é prudência. É uma daquelas histórias de que prefiro guardar distância higiénica, como quem desvia os olhos da ferida alheia já demasiado aberta. Há ali pus, infecção, qualquer coisa de moralmente pegajoso. Leio duas linhas, sinto repulsa e procuro outro assunto; é aquela sensação de estar prestes a ver um filme de terror só porque toda a gente fala nele, sem vontade nenhuma de entrar na sala de cinema. Até ontem, quando soube que o Bessa ia a leilão.

Ainda estou parvo. Leiloar um estádio de futebol é uma ideia abjecta. É como se se leiloasse uma infância. Para o adepto é isto, e é pior: é uma amputação ao contrário; não é ele que perde um membro, mas o corpo maior a que pertence que lhe é arrancado. Será preciso dizê-lo, ainda?: um estádio de futebol é a sede de uma fidelidade, a materialização de uma das últimas devoções que o mundo de hoje ainda permite. Entregá-lo assim é a constatação de que nunca houve um pingo de humanidade no tecnocratismo predatório do futebol moderno.

O caso do Boavista tem qualquer coisa de exemplar nesta matéria, e é por isso que a história mete mais nojo do que pena. Tudo ali parece ter sido reduzido à sua expressão contabilística. O Boavista não tombou. Foi sendo desfeito.

E pensar que houve um tempo em que parecia a coisa mais concreta do mundo. O Boavista de Jaime Pacheco, que era igual ao Zé Costa, baterista dos Ecos da Cave, lá de Santo Tirso, era o contrário disto: era uma evidência física. Martelinho, Petit, Pedro Emanuel, Litos, Sanchez, Rui Bento, Frechaut, Ricardo. Chiça... aquilo não era uma equipa de futebol, era um corpo de voluntários. Aquela gente não entrava em campo; embatia. Era uma equipa operária, compacta, feroz, que jogava como quem tinha acabado de sair do turno e entrava encardida e já transpirada em campo. Havia ali uma disciplina fabril, uma rudeza organizada, qualquer coisa de telúrico e quase suspeito na maneira como aquele Boavista ocupava o relvado e a vida. E foi campeão. E foi belo, como uma porta arrombada.

Mas não era só futebol. Havia poder. Havia sistema. Havia Loureiros. Valentim, o “Major”, um dos protagonistas daquele colorido muito nosso que durante anos a fio dispôs do futebol português com a naturalidade de quem manda numa rede de armazéns. Figura paternal para uma geração de dirigentes, entre os quais o próprio filho, João. Ou “Ex-vocalista-dos-Ban”, o melhor de todos os baptismos que o Contra-informação alguma vez fez. Porque nele havia uma espécie de transição entre o dirigismo de marisqueira e aquela afectação pop do final dos anos 80. Herdeiro de um império local, como se o clube pudesse oscilar entre o caciquismo e a modernidade das montras do Centro Comercial Brasília, entre o full Windsor da gravata de dirigente e a melancolia vaporosa dos Prefab Sprout.

O Bessa era ao mesmo tempo quartel, discoteca e unidade industrial, a casa de uma iconografia que fez daquele tempo qualquer coisa quadriculada e irrepetível. Perdê-lo seria perder um dos clubes visualmente mais improváveis do futebol português. Do Manuel do Laço a Marlon Brandão, do xadrez preto e branco a essa mistura de dureza miliciana, sintetizadores e legítima ambição periférica.

Quando, já depois do calvário do Apito Dourado e das últimas épocas de resistência na primeira divisão, lideradas pelo fidelíssimo Petit, surge no filme a personagem de Gérard Lopez, não se trata do vilão clássico, mas de uma mutação no dirigismo desportivo. O nome é todo um programa: nem francês, nem espanhol, nem nada; como se não viesse de território algum e operasse nesse circuito incorpóreo onde os clubes são comprados, esmifrados e abandonados à sua sorte. Com os Loureiros a coisa dava-se entre charutos, moelinhas e balões aquecidos; com figuras como esta dá-se no espaço aéreo internacional, na classe executiva de uma companhia qualquer.

Até que um belo dia se descobre que o estádio do nosso clube está listado no Idealista, disponível mediante base de licitação. Há, porém, quem ainda respire. No meio dos escombros, sobrevivem os Panteras Negras, Nosso Senhor os guarde. “Guardiões da mística”, dizem eles. Dizem bem. Enquanto uns falam como liquidatários e outros como cúmplices cansados restam-nos os ultras, os únicos capazes de falar a língua primordial do futebol. Aquela que, no meio deste pesadelo, é capaz de descrever o Boavista como se fosse um clube. Serão brutos, é certo. E exagerados também. Isso tudo e pior ainda. Mas eu, se pudesse, comprava aquilo tudo e passava-lhes a escritura.

Manuel Fúria é músico e vive em Lisboa.

Manuel Barbosa de Matos é o seu verdadeiro nome.

E escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico.

‘Odeio Futebol Moderno’ é um espaço de opinião sobre atualidades futebolísticas da perspetiva de um romântico entalado num tempo em que não se reconhece.

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