Alguém foi dar com Jack Grealish estendido no terraço de um bar em Manchester. Um homem caído é sempre uma festa para os outros homens. Vai daí, toca de sacar do telefone, tirar uma fotografia e partilhar o nevoeiro horizontal do inglês.
Até aqui não há nada que surpreenda. Nem nos serões de Manchester, nem na natureza humana. Antigamente contava-se ao vizinho; hoje publica-se. Mudam-se os tempos, mudam-se os aparelhos. A dissolução do corpo do herói exerce uma atracção poderosa. E poucas coisas se prestam tanto à romantização como a autodestruição.
Acham que exagero? Então e Dani? Como não amar, contra toda a prudência, a frivolidade vertiginosa de um rapaz capaz de controlar, da 24 de Julho ao Red Light District, toda uma rede de estabelecimentos nocturnos com a desfaçatez de um Steve Rubell? E Vítor Baptista, esse rei do nunca, que começou por perder o brinco e acabou por se perder para sempre?
São histórias fortes, mas não é o vício que faz o génio. Best não foi grande por beber; foi grande apesar de beber. Dani não foi belo por se perder; perdeu-se, e não devia ter-se perdido. Vítor Baptista não se tornou mais comovente por causa da ruína. Tornou-se ruína. E a ruína é sempre menos do que um homem.
Ainda assim, esta estirpe de jogadores tem qualquer coisa que não cabe na palavra indisciplina. Não são apenas rapazes dados à noite. São criaturas atravessadas por uma força que o futebol, durante algum tempo, ainda consegue converter em beleza. Até ao dia em que a força deixa de caber no jogo e começa a rebentar-lhes a vida.
Talvez seja essa a função secreta do futebol: dar forma à loucura. Nietzsche, que não consta que soubesse o que era um lateral-direito, acaso tivesse oportunidade de assistir a um Aston Villa-Derby County, talvez visse no beautiful game uma projecção atlética da tragédia grega: o encontro entre o elemento apolíneo, formal e escultórico, e o elemento dionisíaco, excessivo e musical. O que é o golo se não um êxtase literalmente balizado pela geometria? Como se a arte nascida do encontro entre forma e excesso tivesse encontrado no futebol a sua resolução mais brutalmente simples.
Gilberto Freyre intuiu parte disto quando pensou o futebol brasileiro. O drible mestiço seria a vingança de um Dioniso sul-americano sobre um Apolo europeu. Como se no Brasil daquele tempo, uma espécie de segunda idade do jogo, o futebol abandonasse o puro olimpismo britânico para se abraçar definitivamente ao samba, à capoeira e ao impossível.
Mas talvez Freyre tenha visto Dioniso a mais. O grande futebol brasileiro não foi simplesmente a subtracção da forma pela festa. Foi outra coisa, muito melhor: a festa dentro da forma. O drible só é arte porque há quem o tente impedir. E a dança só se torna possível por estar circunscrita aos limites brancos das linhas desenhadas na erva. A grandeza era esse ponto instável em que a alegria obedecia a uma ordem e a ordem aceitava ser humilhada pela alegria.
Ora, o futebol tornou-se puramente apolíneo. Mede, regista, prevê; quer saber tudo. Pesa a fadiga, calcula a recuperação, vigia o sono. A coincidência é diabólica: em Nietzsche, o sonho era precisamente território de Apolo; no futebol actual, o sono pertence às equipas técnicas; o jogador dorme em serviço.
Com isto, o jogador repentino morreu. Há quanto tempo não aparece um Caniggia, um Ortega, um Pedro Barbosa, com aquela coisa a que chamavam lentidão, mas que era, na realidade, uma forma de êxtase distendido no tempo? Quando apareceu alguém como Messi, tivemos de o interpretar como um extraterrestre. Num futebol assim, só um extraterrestre podia voltar a ser homem.
É, por isso, natural que, expulso do relvado, Dioniso vá parar a um bar. É para lá que se vai quando falta amparo.
O tempo dos homens excessivos a fazer coisas belas passou. Alguém matou a tragédia futebolística e agora sobram apenas silhuetas sob controlo a cometer pequenos excessos. Jack Grealish, adormecido naquele terraço de Manchester, não é a figura épica de outras eras. Não revela a grandeza do excesso. Não há arte que o redima.
Manuel Fúria é músico e vive em Lisboa.
Manuel Barbosa de Matos é o seu verdadeiro nome.
E escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico.
‘Odeio Futebol Moderno’ é um espaço de opinião sobre atualidades futebolísticas da perspetiva de um romântico entalado num tempo em que não se reconhece.