Lembram-se dos Pontos Negros? Pois deviam. Estão a ver os Strokes? Pois os Pontos Negros vieram de Queluz, com teclas em vez de baixo e dois vocalistas a dividir canções. O Jónatas, que é portista, está neste momento ocupado a celebrar a conquista do campeonato; o Lipe, que é cá dos nossos, está, como dizer?, mais disponível para os grandes problemas do espírito.
Diz-me o Lipe que há um problema com o Paris Saint-Germain. Eu respondo-lhe que há vários. Mas o Filipe concentra-se num em particular: o PSG sai a jogar do meio-campo com um pontapé para a frente, na direcção da linha lateral. Perante tão miserável saída, o Lipe vê logo a abominação. Compara-a às variantes americanas de bola oblonga. E tem razão. Há ali qualquer coisa de anti-futebol. Há ali um pecado contra a bola redonda.
Certamente haverá uma explicação táctica. Há sempre. A bola comprida serve para apanhar o adversário desprevenido, dirão; para empurrar o jogo para uma zona favorável, instalar pressão no meio-campo contrário, acrescentarão. Tudo muito inteligente, tudo muito laboratorial, tudo muito Championship Manager.
É que há qualquer coisa nos últimos quinze anos do PSG que parece alguém a jogar CM, mas a fazer batota: “E agora vou comprar o Messi e o Neymar e vou experimentar pôr o Cristiano Ronaldo na baliza para ver se consigo ganhar na mesma…”; “Por mais dois milhões de tokens, ganhe acesso ao jogador Maradolé, misto de Maradona e Pelé.” O pontapé para a frente vem daí. Vem dos truques que um miúdo descobre quando passa demasiado tempo fechado num quarto a brincar aos deuses.
O futebol é uma arte narrativa. Começa no instante em que a bola é entregue a outro homem, como quem acrescenta uma frase a uma história mais vasta: atravessa obstáculos, encontra desvios, procura sentido. É uma pequena epopeia sobre um campo relvado, com vinte e dois homens a fingirem que procuram apenas um golo, quando, na verdade, procuram uma justificação para estarem vivos naquela tarde. Uma equipa que, em vez de sair a jogar, se limita a despachar deliberadamente a bola para fora do campo, procurando jardas, trai qualquer coisa de essencial num desporto que pertence à ordem da ligação.
Não admira que o Lipe sinalize o problema. O Lipe é dos Pontos Negros e sabe que a narração dá sentido ao tempo. Transforma acontecimentos dispersos numa forma. Já ouviram os Pontos Negros? Os Pontos Negros contam histórias. Uma das suas canções chama-se “Conto de Fadas de Sintra a Lisboa”, e é, literalmente, um conto de fadas de Sintra a Lisboa. Aquilo diz-nos: isto vem de algum lado, percorreu um caminho, carrega uma memória, aponta para um fim.
O PSG, pelo contrário, não tem uma história para contar. Produz. E quem produz não precisa de origem nem de destino. Precisa de eficácia e rendimento. O PSG não nasce de uma comunidade, nem de uma lenta sedimentação simbólica. É optimizado, enfim, para ocupar um lugar que antes não existia organicamente. Não tem infância.
Quando se fala do PSG, é nestes termos que se deve falar. O clube começa em 1970. Não é propriamente uma fundação; é uma data de fabrico. É como se fosse a versão europeia de um clube da NASL, tipo o Cosmos, para onde as estrelas iam morrer.
Apesar de artificial, a ideia não era descabida: Paris seria talvez a única capital europeia sem um grande clube à altura. Mas só nos anos 80 ganharia o primeiro campeonato. E até 2011, a sua grande figura era o Pauleta. Nada contra o Pauleta. É bom homem, mas é também o Pauleta.
Quando, nesse ano, o PSG é adquirido pelo fundo qatari, sob a gestão de Nasser Al-Khelaïfi, passa a juntar aquela coisa assassina da confusão entre Estados e futebol. É o que aconteceu ao City, o clube mais fixe de Inglaterra. Podemos todos fingir que não estamos a ver. Mas estamos.
O novo PSG consegue juntar aquela vulgaridade do excesso de dinheiro do Real Madrid — um clube que sempre foi grande à conta do dinheiro que tinha e tem — a uma quase total ausência de mitologia. No Real Madrid, a história ajuda a disfarçar. No PSG, nem isso. É um novo-rico entre novos-ricos. Como aqueles empresários de primeira geração que se passeiam de chinelos a dizer Gucci em letras garrafais, sem se aperceberem de que, apesar de tudo, o problema maior não é a marca dos chinelos. São os chinelos.
O Dembélé, o Vitinha, o Nuno Mendes e o João Neves mereciam todos jogar num clube com alma. Mereciam que cada passe encontrasse uma parede antiga, um fantasma de uma derrota, a estátua de uma lenda. No PSG, por melhores que sejam, parecem nomes gravados a ouro no tal par de chinelos.
Haveria uma justiça secreta se, na final da Taça dos Campeões, contra o Arsenal, o PSG perdesse. Uma justiça ética, que é, a seguir à justiça divina, a única que devia haver. Sei que os Pontos estão comigo. Lembram-se dos Pontos Negros? Os tais que eram de Queluz? Pois deviam. Os Pontos percebem mais de futebol do que o Qatar e Paris juntos. Eles, de Sintra a Lisboa, sabiam de onde vinham e que história nos estavam a contar.
Manuel Fúria é músico e vive em Lisboa.
Manuel Barbosa de Matos é o seu verdadeiro nome.
E escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico.
‘Odeio Futebol Moderno’ é um espaço de opinião sobre atualidades futebolísticas da perspetiva de um romântico entalado num tempo em que não se reconhece.