— “O Benfica ganha.” Esta frase, que é uma sentença, foi dita aqui há dias pelo terceiro cá de casa, quando passávamos de carro na Padre Cruz, com o Estádio de Alvalade do nosso lado esquerdo. O Zé Inácio tem três anos, portanto, tem imensa graça. Está naquela idade em que uma criança só quer certezas. Tudo o resto dispensa-se. Nem ambiguidades, nem subtilezas, nem casos particulares. A criança, assim pequena, precisa da segurança de um universo luminoso onde possa brincar sossegada. Os piratas são maus, os cavaleiros são bons, o Hulk é forte e “o Benfica ganha”. Querem melhor?
Nós, que já crescemos, que nos aguentemos com as diferentes tonalidades do mundo, não é verdade? Pois. É cada vez mais difícil. No meu caso, que sou do credo de que um pai deve dizer sempre a verdade — e nada mais do que a verdade — aos seus filhos, é o cabo dos trabalhos.
— “Pai, o Benfica ganha!”
— “Paaai! O Benfica ganha!!!”
— “Hã?... pois... hum...”
— “Pai, o Benfica ganha?”
Há várias maneiras de responder a isto e quase todas verdadeiras. Depende da maneira como interpretamos “Benfica”. Pode ser o real ou o imaginário. Antes de mais, temos de definir qual é o Benfica real e qual é o imaginário. Isso é fundamental. O “Benfica real” não é o que existe empiricamente, mas o Benfica verdadeiro, conforme a sua essência. O que ganha. Nesse sentido um pai pode responder a um filho: “Sim, filho, o Benfica ganha!” Assim, sem mais, com ponto de exclamação e tudo. O que não pode é acrescentar mais nada à conversa.
Contudo, se o pai quiser ser “realista”, ou seja, deixar-se dominar pela crueldade dos acontecimentos, aí terá de escolher o Benfica imaginário. Este Benfica é demasiado mau para ser verdade. Logo, só pode ser imaginário: saído da cabeça, ou da falta dela, dos seus últimos presidentes. Aí, tomando o imaginário pelo real, um pai não tem hipótese senão partir ao meio a pequena mitologia do seu descendente e responder que não ganha.
Depois há a hipótese da mentira. Que, neste caso, consiste em dizer que sim, que ganha, quando na verdade sabemos que não.
Como dizia, é tramado. Um tipo nunca sai bem e talvez seja por isso que começo a notar alguma irritação nos benfiquistas. Talvez sejam pais e estejam cansados de acrobacias morais para não terem de mentir aos filhos. Ou talvez sejam como o meu irmão mais velho, que também vive para um Benfica imaginário — que é o real — e já chegou ao ponto de defender a nacionalização do clube.
— “É urgente nacionalizar o Benfica! O clube não pode, dada a história recente, estar na mão de privados!”
Eu, que o costumo levar a sério, respondo que não acredito em nacionalizações.
— “Mesmo em caso de urgência nacional? Defesa do património? O património histórico não é competência do Estado?!”
Fico a pensar no assunto.
Não tenho maneira de quantificar, mas diria que mais de 35% dos benfiquistas estão neste ponto-de-rebuçado. E é isso que o Benfica anda a precisar: de benfiquistas excessivos, quase desproporcionais na sua recusa da normalidade. Porque onze empates dizem mais do que muitas derrotas. A derrota pode ser um acidente, um colapso, uma tragédia. (Não que a deseje, mas sempre há grandeza numa queda.) O empate repetido é outra coisa. O empate repetido é um traço de carácter. É um modo de estar. A ideia de uma equipa que vai sobrevivendo aos próprios jogos, como quem atravessa a época sem nunca declarar guerra a sério, é insuportável.
Chamam-lhe “invencibilidade”, mas é um embuste. Quando se lê por aí que o Benfica continua sem derrotas no Campeonato, o que poderia soar a elogio é, na realidade, uma acusação. É uma equipa que não perde, mas que fica a dois pontos do Sporting e a oito do Porto. Uma equipa que se recusa a morrer, mas também parece não querer viver.
Isto é tudo menos solidez. É uma espécie de doença. Os dados são tão maus que dispensam retórica.
E há ainda a questão dos pormenores, uma dessas inutilidades que servem para encher horas de cabeças falantes na televisão. Neste caso, centímetros: golos anulados por pouco, cruzamentos por pouco, ocasiões por pouco.
Ora, se um jogo se decide por centímetros, a época perdeu-se por quilómetros. Pela distância entre o Benfica real e o imaginário. Pela distância entre o Benfica que uma criança sabe dizer e o Benfica que obriga os adultos a mudar de assunto. Qual dos dois é o Benfica de 2025/2026? Sim, eu sei, mas não digam nada ao Zé Inácio.
Manuel Fúria é músico e vive em Lisboa.
Manuel Barbosa de Matos é o seu verdadeiro nome.
E escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico.
‘Odeio Futebol Moderno’ é um espaço de opinião sobre atualidades futebolísticas da perspetiva de um romântico entalado num tempo em que não se reconhece.