A época acaba e sei de benfiquistas que voltaram a descobrir na escrita em verso o único amparo possível para as suas dores de alma. Juro que isto é verdade. Gente que anda a fazer os seus balanços sob a forma de soneto. Este é uma espécie de balanço do Benfica 2025/26, uma equipa que elevou o empate a categoria ontológica
Hoje, o benfiquismo vive em cantos obscuros da internet. Em páginas como o “Benfica Independente”, “Maio de 61” ou “Visão Vermelha”. É nessas grutas digitais que ele pulsa e bate como sempre; e apesar de tudo. O pessoal de uma dessas páginas, que dá pelo nome simultaneamente nobre e desgraçado de “Do Benfica não se desiste”, pediu-me um balanço da época do SLB.
Expliquei-lhes que semelhante exercício não se pede a um homem impunemente. Um balanço destes deixa sequelas. Consome a semana, o fígado, talvez dois dentes. É o tipo de balanço que, em vez de números, se faz com nervos. Ora, como não possuo ainda o dom da escrita tentacular, aceito o desafio aqui mesmo, na Tribuna Expresso. Mais do que isto ficaria de molho durante um mês.
Balanço sugere um movimento pendular. Ir acima e ir abaixo, o corpo que ganha embalo, recua, avança, etc. Ora, no caso do Benfica 2025/26, não me parece que esse seja o movimento mais adequado ao futebol que nos foi dado sofrer. Uma equipa que elevou o empate a categoria ontológica não balança, não sobe, não desce; desloca-se.
Talvez por isso a imagem mais adequada seja a do corpo estático numa passadeira rolante. Há avanço, sim, mas não no sentido pleno. Alguma coisa mexe por nós. Uma força impessoal leva-nos sem que mudemos verdadeiramente de lugar. O benfiquista julga que atravessou uma época; na verdade, foi transportado. Por isso não faço um balanço. Faço um rolamento. O rolamento de uma época em quatro estações.
Estação #1: Eleições
A primeira estação da passadeira foram as eleições. Se Rui Costa falhou nos jogadores, se falhou no treinador, se falhou até em si próprio como escolha para presidente, acertou na comunicação da campanha.
Foi assim que se tingiu a campanha de João Noronha Lopes, o verdadeiro adversário, com as cores da suspeita. Suspeita de quê? Não se sabe. E por isso funcionou. A suspeita mais eficaz é sempre a que não precisa de objecto. O nevoeiro fez o seu trabalho. Rui Costa não ganhou por apresentar uma visão do Benfica. Ganhou porque quem tratava da comunicação conseguiu que a alternativa parecesse um risco moral, financeiro, metafísico, venéreo, o que calhasse.
Foi a grande derrota da época — disse “época”, mas queria ter dito década: o Benfica perdeu a oportunidade histórica de ter um presidente decente e acabar com o Vietname de uma vez por todas. Já mencionei aqui que faço uma interpretação diferente do Vietname benfiquista; um dia conto. Mas a campanha foi feita para assustar. E o medo, como se sabe, vota.
Anísio Cabral: dois jogos pelo Benfica, dois golos ao primeiro toque
Dois miúdos, dois nomes improváveis, e essa coisa perigosa que ainda dá pelo nome de alegria. Mas até aí o estado das coisas se encarrega de estragar o milagre. Já não somos capazes de ver surgir um miúdo talentoso sem vermos, com ele, a sombra da venda precoce. É uma depravação do olhar. Aquilo que devia ser só infância, relva e aparição surge logo contaminado pela ameaça da montra. Banjaqui e Anísio não salvaram a época; fizeram pior: lembraram-nos, por breves instantes, que o Benfica ainda existe. E por isso dói vê-lo entregue a quem o trata como uma passadeira rolante para outros aeroportos.
Estação #3: o jogo contra o Real Madrid
Depois veio o jogo contra o Real. Ou antes: veio a tentação de acreditar que o jogo contra o Real queria dizer alguma coisa.
Esta é uma das grandes perversões do Benfica recente: de vez em quando, oferece-nos um jogo que parece pertencer a outro tempo. Durante noventa minutos vemos uma equipa capaz de ter orgulho, critério e coragem. O benfiquista, que é um animal sentimental e por isso mesmo perigoso para si próprio, olha para aquilo e pensa: afinal está aqui. Afinal ainda existe. Afinal basta querer.
Mas não basta.
O jogo contra o Real serviu para nos mostrar que a mediocridade do Benfica não era fatal. Era uma escolha. Uma escolha de governo.
Estação #4: os empates
E chegamos aos empates. A grande obra da época. O Benfica não perdeu o campeonato por ter sido esmagado. Perdeu-o jogo a jogo, minuto a minuto, adiamento a adiamento; por evaporação. Um empate nunca parece uma tragédia inteira. É essa a sua maldade. Um empate permite sempre uma explicação: faltou eficácia, houve azar, a bola não entrou, o adversário fechou-se, o árbitro, o relvado, a fadiga, o vento, a unha encravada do lateral.
Ora muitos empates juntos já não são azar. São carácter. Ou falta dele.
Sobre Mourinho não vale a pena dizer grande coisa: ao que tudo indica, estará de saída para o Real Madrid. O problema do Benfica nunca foi verdadeiramente ele. Cumpriu o principal que era ajudar nas eleições. Também não acredito verdadeiramente que estes jogadores sejam tão maus como pareceram. Foram mal escolhidos, mal explicados e abandonados a uma sucessão de ideias vagas. Com jogadores comprados como quem junta peças sem saber que máquina pretende montar, não nos podemos espantar que a máquina não funcione. Para certos plantéis não é tanto uma questão de treinador, como de direcção que saiba para onde quer ir.
E é isto. A época acaba e sei de benfiquistas que voltaram a descobrir na escrita em verso o único amparo possível para as suas dores de alma. Juro que isto é verdade. Gente que anda a fazer os seus balanços sob a forma de soneto. É gente que acreditará nas capacidades expiatórias da literatura, mas é, sobretudo, gente que sabe que não há na medicina tradicional tratamento para o seu problema.
Como David Byrne. Quando os Talking Heads lançaram Road to Nowhere, também ele fazia, por antecipação, o seu balanço: Come on inside. A passadeira a andar, nós a assistir, e o clube, imóvel, a caminho de lado nenhum.
Manuel Fúria é músico e vive em Lisboa.
Manuel Barbosa de Matos é o seu verdadeiro nome.
E escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico.
‘Odeio Futebol Moderno’ é um espaço de opinião sobre atualidades futebolísticas da perspetiva de um romântico entalado num tempo em que não se reconhece.